segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Aos meus filhos

Meus filhos;

Eu não sei quanta paciência vocês terão para ler esses textos - se forem um pouco como eu, imagino que a curiosidade será suficiente para que não apenas os leiam com interesse, mas os conservem com bastante paixão. Eu sempre me apeguei bastante a qualquer coisa antiga relacionada com a história da minha família e estimo que aprendam a ter o mesmo hábito. Desde origem dos sobrenomes a velhos álbuns e documentos, tudo relacionado aos estranho que vieram antes, e resultaram em quem eu sou, em quem vocês são, sempre me provocaram profunda fascinação.

Na verdade, há uma certa sensação de fuga da premissa depois de tantos anos com essa ideia de registro da minha vida para vocês mais ou menos norteando meus esforços nesse blog, já não sei até que ponto muitas das coisas escritas aqui não se confundem na memória. Há impressões falsas, textos que eu, hoje, jamais escreveria, opiniões que podem ter mudado. Enfim, coisas de que me arrependo, que não aconteceram exatamente como estão escritas e, que mesmo que tivessem, é tudo tão baço e obscurecido pelos anos que fica muito difícil de eu mesmo ser capaz de ler minhas histórias e encontrar exatamente o sentido delas.

Não se trata, portanto, de um diário remotamente preciso desse pai que vos escreve. E antes que pensem que eu fui ficando maluco conforme o tempo passou, eu me defendo dizendo que essa é a vida: é comum que quando olhamos para trás nos deparemos com um estranho, que sorri ou chora, e que de forma absolutamente surpreendente, reconhecemos como nossos eus de outrora.

Embora a precisão desse blog possa ser largamente relativizada, a manutenção do espaço e dos registros não são esforços menos saudáveis porque, e tenho certeza que já o escrevi em algumas postagens antigas, tive essa ideia ao lembrar que meu pai faleceu sem que eu viesse a realmente conhecê-lo. Não sei, por exemplo, que jovem ele foi, com o que sonhava, o que fazia aos 25 anos de idade, como encarou ter 30, começar a ficar careca tão cedo, sua postura sobre a ditadura, as namoradas, por que entrou para a política, por que largou quando parecia que poderia ter sucesso, por que fora estudar economia e história ao mesmo tempo e não, sei lá, engenharia.

Todas perguntas que, talvez, vocês tenham tido a vontade de me fazer e, se mergulharem nesses posts todos, talvez encontrem algo que responda à sua curiosidade. Algo que, se ocorrer, me verei um sujeito feliz porque nada escrito foi em vão.

Além de responder às perguntas que vocês possam ter a respeito de quem eu fui e sou (espero estar vivo quando vocês lerem esse e outros textos), imagino que meus textos também tenham caráter educativo, que possam guiá-los por problemas, que possam fazer com que vocês enxerguem que a vida pode ser realmente dura, mas que há um amanhã para cada dia horrível, que eu tive momentos ruins e momentos bons e é o esforço de cada um de nós para termos mais momentos bons que ruins que define a vida e dá sentido à busca pela felicidade (que, vou avisando, não existe em si: o que podemos conquistar são momentos felizes permeados de realização, de sonhos, vitórias e das pessoas que mais amamos).

Quem sabe uma ou outra passagem sobre minhas desilusões, minhas vitórias (porque não se iludam, aprendemos um bocado com elas), minhas glórias e falhas, enfim, o que eu fiz e deixei de fazer possam guiar vocês em momentos atribulados, em fases de dúvidas, de dificuldades, em que pode parecer que estarão sozinhos, contra tudo, a carregar o mundo nas costas - igualzinho eu me senti quando morreu meu pai e os blogs, por sorte nossa, praticamente não existiam para que eu viesse neles escrever minhas dores. Por mais que eu queira que vocês aprendam as durezas dessa coisa de viver, acho que já me sinto pai mesmo sem saber por quantos anos mais terei de esperá-los, prefiro protegê-los do quanto a morte de seu avô me escureceu a existência por um tempo. Passou, mas doeu bastante.

Espero que minhas músicas sejam interessantes, que os meus poemas, embora sofríveis, criem em vocês o amor por essa forma de arte tão pouco valorizada, que meus escritores favoritos tenham coisas para dizer a vocês ao longo da vida e que sirvam de porta para que vocês encontrem as suas músicas, as suas formas de arte, os seus livros - e tenham sempre o carinho de me explicar porque cada uma dessas coisas os encanta. Escrevo porque quero que vocês lembrem que aos 20 poucos anos de idade eu já os imaginava e desejava na minha vida.

Agora, na iminência de publicar essa carta, me vejo preocupado, ao relê-la, e perceber que ela não soa bonitinha como as crônicas que você lê de gente tão talentosa, que ao escrever para os filhos que crescem no quarto ao lado, enchem o texto de doçuras e de formas leves de ensinar a vida, de falar do passado. Crianças (adolescentes?), eu não sei escrever desse jeito. Ou talvez não o saiba porque esse é um talento que a gente descobre quando nos nascem os filhos, quando nos sentimos cheio desse propósito bonito que é a paternidade. Me perguntem depois, ou sigam lendo para saber se eu soube ficar mais lírico ao longo dos anos ao escrever para vocês.

Eu deixo esse post aqui, que caso eu mantenha o ritmo de umas 10 postagens por ano, será soterrado por outras bobagens, poesias, platitudes e remorsos, como registro, no entanto, do momento em que vocês deixaram de ser uma ideia e uma vontade para o meu futuro para serem um projeto, um compromisso. Eu sinto que vocês não estão mais tão longe da minha vida, não só porque eu os quero e amo muito desde sempre, mas porque querer é poder e estou sentindo essa saudade do que ainda não tive me doendo no peito. Meus amores, eu sinto falta de vocês sem tê-los ainda conhecido e para remediar essa forma mais cruel de saudade só indo mesmo encontrá-los.

Sinto que nos encontraremos em breve, mas que vai demorar um bocado para que vocês aprendam a ler e tenham qualquer crise que os levem a questionar o velho sem graça, grisalho e decididamente calvo, que tenta dialogar com vocês, o que os levaria a ler esse e outros textos esparramados por aqui. Falta tempo não só porque vocês precisam, antes, crescer um pouco mas porque há uma série de obstáculos. Eu, segundo as probabilidades, não encontrei ainda a mãe de vocês, preciso resolver uns problemas práticos, como achar onde vocês vão crescer e meu novo rumo profissional, mas vai tudo à caminho porque, meus amores, eu tenho planos.

Lhes escrevo essa carta em específico porque encontrei antigas fotos e recortes do seu avô há uns dias. Nenhuma daquelas reminiscências eram endereçadas à mim, mas me fizeram feliz. Espero que essa carta tenha para vocês o mesmo efeito aconchegante que aquelas relíquias tiveram comigo, que vocês sintam o calor do meu abraço, a minha voz, o meu jeito de olhar e o amor que eu já desenvolvo por vocês tocando cada pedacinho dos seus corpos e essências, quer eu esteja por perto ou não porque essa vida é bandida e não me arrisco a ir tão longe nas minhas previsões.

E se não estiver, espero ter sido um bom pai, espero que entendam minhas falhas, valorizem meus acertos, reconheçam meu esforço, que não me esqueçam. Deixo-vos, também, alguns bons conselhos: tenham sempre coragem, e se ela faltar, leiam esse parágrafo para lembrar de criá-la e tê-la sempre à mão, quaisquer que sejam as circunstâncias da vida. Façam dessas frases amuleto, usem-no ao redor do pescoço para não esquecer de vibrar, mesmo perante os riscos. Não se esqueçam de ter medo, porque não é feio duvidar e fragilidade não é opróbrio, mas enfrentem as dificuldades com coragem e procurem apoio naqueles que os amam. Vocês têm a obrigação de serem corajosos por duas razões. Em primeiro lugar, são meus filhos e em segundo porque o mundo vai exigir isso de vocês 100 vezes por dia. Não se furtem às oportunidades que a vida dá, experimentem os caminhos, cuidem do corpo e da mente, corram os caminhos do mundo, sangrem, ajudem, peçam ajuda, amem. No mais, tirem o melhor proveito de tudo, procurem viver alegremente, tenham prioridades na vida e, por favor, vivam bem e por muito tempo.

Com amor, do pai.

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