domingo, 15 de janeiro de 2017

Subidas e descidas

Hoje eu me dei o dia de folga. Peguei o carro e percorri uns 70 quilômetros que me levam até a cadeia montanhosa mais próxima, que nós outros chamamos de Serra da Esperança. Não se trata de paragens extremamente conhecidas, não só porque quem já viu uma serra já viu a da Esperança, mas principalmente porque suas escarpas não remontam as assombrosas alturas, precipícios e quedas que as mais agraciadas demonstrações do relevo terrestre oferecem. A rigor, a Serra da Esperança é das de meia-pataca.

Mas é o que temos, menos de uma hora, você está se confrontando com a natureza. Com essa calma que parece agraciar as regiões serranas do país, onde as grandes conurbações urbanas não podem acontecer. Onde o relevo preserva a mata, o campo, a vida tranquila, o silêncio, o tempo que passa mais devagar, como se fosse ali um outro cosmos, como se ali valessem outras leis físicas para o tempo e para a entropia de todas as coisas.

Na serra, deixei o carro em um lugar bastante escondido, recomendei-o a atenção do proprietário do terreno e lhe fiz o mais do que justo agrado de pagar-lhe pelo incomodo com bom dinheiro, prometendo igual quantia quando desfizesse minhas andanças e cismas e decidisse ir embora.

Ao sujeito, tenho certeza, toda essa sofreguidão para se embrenhar no mato, vencer os morros e chegar no topo de alguns deles parece ocupação vã, tolice do moço da cidade que, sem nada melhor para fazer, vem se aborrecer no meio do mato. É a velha história da casa de ferreiro e espeto de pau: ele deve apreciar os confortos da cidade a que eu desdenho enormemente, na mesma proporção em que eu me apaixono pela vida calma a que ele tem direito, rodeado por uma paisagem de doce desolação verde e sossego.

Me desfiz das roupas de cidade. Coturno para andar no mato fechado, peguei o facão afiado. A mochila com cantil e frutas, a barraca desarmada. Dei a volta pela estrada de chão fazendo meus cálculos de que, provavelmente, poderia almoçar umas maçãs no topo do primeiro morro, caso fizesse tempo bom e o caminho não estivesse por demais impraticável, que esses diabos de morrinhos sem graça da serra tem um vezo para ficarem encharcados que é de dar com a cabeça nas paredes.

E assim foi. Para subir uns 800 metros levei cinco horas e meia. Escorreguei, rasguei a camiseta, me arranhei numa árvore, morri de medo de cair com a barriga no facão e morrer idiotamente, perdido no mato. Recomendei a todos os demônios e infernos de que fui capaz de lembrar o desazo de ter ido subir o morro, dei razão ao desprezo do homem que guardava o carro. Suei, quis desistir, pensei que não valia nada a pena, que na última vez que fiz algo do tipo era bem mais jovem, escoteiro, tudo numa trilha bem mantida.

Foi o caos.

Mas eu persisti. De alguma forma, subir aquele morro era uma questão de vida ou morte. Estavam em jogo, nessa atividade, todos os caminhos do meu destino, o futuro que se fixa na sua frente em uma estrada sólida, a vida que você precisa resolver. Tudo dependia desse esforço, desse rito de passagem, dessa prova intima de que, querendo, você vai longe. Que a gente se bate, mas vence. Que a vida é bandida, a tristeza ameaça, a dor inevitável, o sofrimento opcional. E que a gente vence, porque no cume, nada disso importa.

Cinco horas e meia de tombos, pragas, ameaças, desdem intimo, dúvidas, medo, vontade de desistir, mas de persistência, de vontade, de raça, de coragem, de sorrir na cara do perigo, de seguir em frente, apesar das circunstâncias, e eu venci, finalmente, a mata e a subida: estava no cucuruto do morro, como diria o meu pai.

De lá, descortinou-se a bonita vista da qual eu devo ter tirado umas 50 fotos. Emoldurava o horizonte uma cortina de água escura de fazer a alma vergar em sinal de respeito à majestade da natureza. A chuva negra, talvez há uns 10 quilômetros de onde eu a via, tomava todo o horizonte distante e dava ao verde, ao recortado das propriedades, o serpentear das estradas e as reentrâncias dos rios uma imagem de propósito, de plenitude: era como se o mundo todo se debruçasse para que eu visse: planalto, planície, vento, água, chuva, raios, trovões, marcas da ação do homem, tudo cabia naquele recorte que meus olhos alcançavam.

A chuva, e isso era facilmente observável, estava a caminho e me atingiria, tornando o caminho de volta muito pior do que fora na vinda. Mas não tive medo. Sentei-me, me aconcheguei com as minhas coisas em volta, e me ocupei de meditar. De não pensar em nada, de apenas apreciar o momento, de me sentir feliz e orgulhoso de ter chegado, de me sentir receptivo à essa sensação de solitude que só quem já acampou completamente sozinho e isolado sente, essa de ver o mundo de um ângulo privilegiado, longe de amores, paixões, problemas, dificuldades, ódios, mágoas, de tudo e todos, se sentindo como que inexoravelmente sozinho no mundo: só eu vi aquela paisagem, aquela chuva, aquelas nuvens daquele jeito. Vão passar milhões de anos, e ninguém poderá dizer que as viu como eu vi. Naquele instante, só existia uma pessoa em todo o mundo.

Almocei as minhas maçãs, que estavam todas batidas pelos acidentes do percurso. Limpei o melhor que pude o espaço que escolhera para a barraca, removi galhos, folhas secas e mortas, arranquei um pé de qualquer coisa que não sei do que se tratava e fiquei feliz de encontrar um pedaço de rocha em que pude apoiar a cabeça à noite, no maior conforto, usando a roupa suada como travesseiro. Não dormia tão bem e tão mal há um bom tempo.

Mas antes de pensar em dormir, me vi acometido da face ruim da solitude, essa que nos deixa entediados. A euforia de ter chegado, de ter visto uma paisagem única e uma apresentação exclusiva da natureza tinha, enfim, passado e perdido o efeito. Me percebi desejando companhia, me vi pensando em como seria divertido ter compartilhado a aventura, estar agora comentando a beleza, mas também o pavor que causa essa chuva monstruosa que se move tão rápida, tão inevitável, tão displicente ao meu encontro.

E aí você se encontra com aquelas coisas todas das quais vem tentando fugir. Dos problemas e das soluções, do fato de que não há o que se fazer, dessa dor esquisita que é se afastar, se proibir, se isolar, que é amar em silêncio, que é viver nesse limbo em que nada que você faz parece fazer sentido, em que tudo é inconsequente e inútil.

Amar é muitas coisas, você ouvirá milhões de definições diferentes, dependendo do estágio em que alguém está na paixão e no amor por alguém, mas talvez não exista uma mais certeira, mais universal, mais comum - e comum porque é sentida por qualquer um que ama - do que essa mistura de saudade do futuro que você espera com essa coisa de querer compartilhar seus melhores e piores momentos com alguém que você quer demais.

E foi embalado nesses pensamentos e nas minhas filosofias vãs sobre como definir amor e nas limitações da língua portuguesa, essa que se sente tão especial pelo charme do termo "saudade", mas que não foi capaz de criar verbo que desse tino dessa coisa, dessa falta, dessa ausência, dessa loucura que é amar e não poder, que vi a chuva chegar, avassaladora.

Gosto de banho de chuva e não me preocupei em me esconder na barraca. Tirei a roupa e fiquei nu, recebi a cortina de água de braços abertos e me vi sorrindo, imaginando um satélite que conseguisse vislumbrar, mesmo com as nuvens no caminho, meu corpo nu no topo da montanha, recebendo a chuva como se o abraço gelado dela me levasse para lá, onde eu agora queria estar.

Venho revisitando uma porção de convicções nos últimos tempos, mas tem uma que eu nunca confronto e que é a ideia de que não devo forçar minha mente a nada. Não acredito, por exemplo, em jogos mentais para esquecer, acho errado me forçar a odiar, cultivo minhas memórias com zelo e me intrigo com quem vai no caminho contrário, tão feliz em jogar no lixo suas experiência, relativizar seu passado, odiar por mecanismo de defesa, por imaturidade. Esquecer, nunca. O que passou, o que ficou retido nas prateleiras empoeiradas da memória é o que nos define, o que diz quem somos. E eu tenho um amor desmedido pelas minhas lembranças e, portanto, pelo que eu sou.

E todas essas disposições de espírito, essa calma, essa complacência à que a natureza conduz, me deram paz. Foi vitória ter subido, foi inesquecível ter visto a paisagem, foi libertador tomar aquele banho de chuva, foi rejuvenescedor ficar em paz com meus sentimentos e me apaixonar, mais uma vez, pela doçura das minhas memórias.

No dia seguinte, pela manhãzinha, o garoto que subiu a montanha percebeu, surpreso, que era o homem que descia, leve, uma pequena colina.

0 comentários: