sábado, 14 de janeiro de 2017

Lições

Quando era jovem, eu namorei uma garota que adorava, mas no fim, não éramos as pessoas certas um para o outro. Antes de chegar a essa conclusão, no entanto, essa pessoa, ainda que involuntariamente, me ensinou a lição mais importante de todas as da minha vida amorosa, a que eu sempre tento carregar comigo, mas que sozinha, sem outros conhecimentos do ofício, não dá em nada.

Lembro que já namorávamos por um tempo. Um dia, comentei numa postagem de Orkut, sobre uma outra garota da qual não lembro o contexto, mas era uma celebridade tipo B e a conversa se dava num fórum de amigos. Os mais suscetíveis de vocês, por favor, se contenham, porque o comentário foi machista e usava um bordão de um antigo programa “humorístico”: arruma um jeito de ela dar pra nóis.

Totalmente desnecessário, infantil, mas eu era pouco mais que adolescente na época. Estava numa rodinha com amigos, ainda que virtual. E o comentário entrava no tom de deboche próprio da fauna ali reunida e do grupo em si. Era apenas besteira, nada mais.

A garota ficou sabendo porque seus sabujos farejaram o sangue e ela veio na minha jugular para tirar satisfações. Ainda que vendo exageros na reação, na hora, me preocupei unicamente em me desculpar, desculpar e desculpar, enquanto ela insistia em me por contra a parede, como sacana e fator de profunda vergonha pessoal na vida dela. Insisti em transpirar sinceridade nesse momento, cometendo o erro muito comum de quem é jovem e confunde sinceridade com honestidade.

A lição que aprendi no episódio, especialmente em virtude da conclusão que viria depois da nossa incompatibilidade, é a de que pedir desculpas é fundamental quando você erra, mas para por aí. Quando somos inseguros em relação a quem amamos, acabamos entrando num parafuso de pedir desculpas indefinidamente, muitas vezes até pelo que somos e pelo que não fizemos – algo muito comum na juventude masculina e, acho, que também entre as mulheres. Desculpas, sobretudo se sinceras, são importantes e fazem parte de uma relação equilibrada com as pessoas que nos cercam, mas chega um ponto em que a repetição delas, especialmente se estivermos falando de uma ofensa menor como a que cometi, começam a soar como desespero.

Se tivesse sido honesto, e não apenas obsessivamente sincero, teria me desculpado, sim. Mas a partir da insistência na cobrança, poria a honestidade para funcionar, e diria que, embora respeitando o direito dela se sentir ofendida, precisava chamar a atenção para que o comentário fora nada mais que uma brincadeira em meio aos meus amigos. Que se o tom de deboche desse tipo de situação a deixava desconfortável, o problema tinha muito mais a ver com a insegurança dela em relação à sua imagem e em relação ao meu comportamento. Pronto, uma saída de homem: pedido de desculpas sincero porque não tinha intenção de aborrecer à pessoa a quem amava, mas, em face a insistência no assunto, faz questão de mostrar a futilidade da querela e em se mostrar equilibrado sobre o problema.

E ser honesto com quem você ama envolve uma coragem dos diabos, intimidade e linhas de diálogo extremamente abertas. Precisa coragem para admitir os seus defeitos, mas muito mais para contar algo ruim que você fez na vida, precisa de coragem colocar as necessidades do outro antes das suas, tem que ter coragem para, nesse mundo doido, assumir que quer viver a vida com uma única pessoa e com ela ter filhos e embarcar em todos os tipos de devaneios da vida a dois. Se você não tiver coragem no amor, você não o busca e não botará fé nele e em suas perspectivas de sobrevida, você não estará de olhos abertos para reconhecer suas falhas e, o mais grave, o lapso que existe entre a realidade das coisas e da vida e as fantasias que você constrói: é preciso coragem para sintonizar essas discrepâncias e, sair do outro lado, em paz, sabendo que você ainda ama a pessoa que não era exatamente como você projetou, aceitando essas diferenças como fatores de uma vida entre adultos, não pontos de conflito que você precisa fazer vergar. Coragem é fundamental. O lado bom é que eu venho construindo isso aos poucos, e se você tiver sorte mesmo, pode aumentar seu estoque de cojones com a colaboração da sua companhia. O lado ruim é que parece nunca ser suficiente: a gente sempre tem colhões de menos do que as situações que surgem parecem exigir.

Apesar da lição sobre não carregar nas desculpas ter ficado comigo, fiquei muito tempo sem saber direito a hora da sinceridade e da honestidade, provocando algumas situações indesejáveis de estresse emocional nas pessoas que vieram depois e das quais me envergonho (das situações, não pessoas), em um claro reflexo dessa falta de coragem. Fico feliz em, hoje, mais maduro, ter consciência disso e saber que essa dinâmica do “sempre pedir desculpas, mas nunca pelo que você não fez” é um conhecimento bem assentado por aqui.

Outra lição, e essa bem mais recente e sem relação com a garota de anos atrás, embora esteja ligada com essa coisa de desculpas e honestidade, tem a ver com o fato de que não adianta desculpar-se, honesta e sinceramente, quando você faz bobagem e magoa a quem ama. Aliás, adianta no sentido de que é o mínimo que você deve fazer, mas não vai muito mais longe do que isso. Você pode argumentar, mostrar que não teve, mesmo, intenção e que suas reações foram frutos de circunstâncias de momento, mas nada disso faz muita diferença porque o estrago emocional já está feito e, no fim das contas, a gente não tem o menor direito de dizer o que pode e não pode magoar o outro. Não legislamos sobre como nossas atitudes serão encaradas por quem está ao nosso redor, mesmo que a sua intenção seja absolutamente transparente: a de não arredar o pé da vida de quem você escolhe para viver contigo o resto dos seus dias. A conclusão, é que, não diga!, melhor que pedir desculpas, e precisar se equilibrar entre ser sincero e honesto, é nunca magoar a quem você ama!

Minha genialidade é realmente assustadora. Se você fizer silêncio, pode escutar as engrenagens do meu enorme cérebro emocional girando e produzindo essas verdadeiras luzes do conhecimento ocidental.

Amar é um cão dos diabos, dizia o poeta. É trabalho, mesmo se você tiver sorte de achar alguém realmente especial. Envolve concentração em detalhes, coragem (que você pode construir se tiver diálogo com a outra pessoa) e um zelo enorme para que linhas de diálogo sejam amplas para que todos os sentidos de qualquer atitude e declaração possam ser compreendidos por quem você gosta. Esse parágrafo todo parece senso comum, todas as pessoas dirão que comunicação é fundamental, previne todo tipo de problema e que a grande maioria dos casais se separa porque falta papo, abertura. Mas é sempre bom escrever isso e ter esse valor em mente porque a gente, em geral, só lembra dele quando é tarde, bem tarde.

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