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terça-feira, 7 de junho de 2016

Kindle, um panegírico

A ideia de ler qualquer coisa mais ou menos longa numa tela é desagradável. A vista cansa, os olhos não foram feitos para todo esse brilho concentrado. Era essa a lógica que me mantinha impassível quanto a chance de ter um Kindle, ou qualquer outro desses leitores de livros digitais. Parecia apenas um modismo feito para encantar os neófitos, e nada mais.

Mas as coisas mudam. Tudo, aliás, muda (ver Heráclito). Ou não, (Parmênides), mas o fato é que hoje sou proprietário de um Kindle. E um bem encantado: em menos de 20 dias, já li quatro livros que, do contrário, não teria lido nunca: tratam-se de livros em inglês, que se fosse o caso de ler por métodos analógicos e convencionais, precisaria importar. O Kindle faz em verdade aquela velha profecia, gasta pelo cinismo contemporâneo, de que a tecnologia está aí para encurtar distâncias e facilitar a vida.


Facilitar porque além de trazer para o meu mundo livros que eu tinha alguma vontade de ler, mas nenhuma possibilidade de, o Kindle abre portas para afogar velhas vontades literárias que não encontravam vez e espaço. É fácil encontrar uma quantidade enorme de livros gratuitos para encher a vasta memória do aparelhinho e criar listas e mais listas de programação de livros para se ler até o fim dos tempos.

Falando no cinismo do tempo, é bem difícil se dizer encantado por qualquer bugiganga eletrônica porque elas estão todas aí para nos tentar e seduzir aquela parte da cabeça que vê necessidades onde elas não existem. O Kindle pode muito bem encabeçar qualquer lista de supérfluo que o consumismo nos vomitou, como o tablet e o micro-ondas (micro ondas, microondas, microndas), é, a rigor, uma solução para um problema que não existe: não existe o menor problema com livros em papel, assim como não existia nada de errado com ferver a água na chaleira, ou algo justificasse celular com tela de 9 polegadas. E ainda que venha ao mundo para resolver problemas que não existem, criar necessidades questionáveis, o Kindle não foge à lei da engenharia, que diz que qualquer solução, independente do mérito, cria um novo problema (normalmente de igual intensidade, mas sentido contrário). Ao Kindle, são problemáticos acervo, bateria, cabos, capinha para proteger e o caralho a quatro.

Mas ainda assim, o Kindle tem em si um caráter redentor insuspeito. É como o peito do poeta, em que cabem todos os sonhos do mundo, no Kindle cabem todos os livros do mundo que você tenha alguma intenção de ler no futuro. Em 31 não tão bem vividos anos de sonho, de sangue e de América do Sul, juntei uma quantidade de 78 livros – segundo uma antiga contagem que já deve estar defasada. Em semanas com o Kindle, vamos firmes com um catálogo de 200 livros diferentes, que atravessam todos os meus campos de interesse, que vão desde livros do Saramago, eu que li quase todos à exceção de um, passam por economia, cosmologia, divulgação científica, toneladas de escritos sobre a história, especialmente a das guerras, tem coisa demais de literatura latino-americana, todos aqueles livros impressionantes que eu quis ler do Cortazar, do Calvino, Guerra e Paz do Tolstoi, porque agora vai, estão todos eles lá. Tem romances policiais de diversos calibres, também tem literatura de vários calados, e uma tonelada de entretenimento sem compromisso na forma de thrillers de espionagem, que ninguém é de ferro.

Eu parei de fazer as contas, mas tinha estimado de forma conservadora que, tivesse optado por adquirir todos esses livros, teria gasto mais de dois mil reais.

Fosse isso uma resenha técnica do aparelho, teria de falar do conforto de segurar. Que a bateria dura muito tempo, que a sensível lentidão da interface gráfica do aparelho é contornável porque não há pressa ao ler. Que, no fim das contas, a tela de 6 polegadas é ideal para livros, se você tiver o cuidado de deixar o tamanho da fonte na medida certa. Que a tela, aliás, não cega, não cansa os olhos, que a tecnologia do eInk (a tinta eletrônica, e pasme você leitor, mas há tinta – polarizada magneticamente – no meio daquela tela) é tudo que prometeram, uma maravilha tecnológica que faz mesmo leitores desencaminhados, como é o meu caso, voltarem a ler com fôlego e ritmo três livros diferentes simultaneamente, porque os recursos do aparelhinho (dicionários, enciclopédia, marcações e tudo mais) nos convidam à extravagância.

Como dito, eu fui um leitor de muito maior apetite quando tinha mais sonhos, quando a vida era mais fácil e sobrava tempo. Em 2005, eu lembro muito bem, li 44 (ou 46?) livros no ano todo e, impressionado, fiz uma lista com todos eles. O Kindle me recolocou nesse rumo, voltei a encontrar o sabor de se impressionar com livros dos quais não esperava muito e isso não tem preço.

Assim como eu me perdi dos livros que lia, me desencontrei daqueles que queria escrever, e nesse meio tempo, foi-se o blogue, que aqui ficou a empoeirar. Ainda que, seguramente, isso não seja uma volta, gosto de achar, no fundo do coração, que esse textinho, esse panegírico pelo aparelho e pela tecnologia vá encantar alguém a comprar, também, um Kindle. Ou os seus concorrentes, que são tão bons quanto, as diferenças não são grandes, e como tudo na vida, é questão de gosto.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

E Einstein tinha razão

É preciso certo distanciamento histórico para avaliar o diâmetro de alguns eventos. É o caso, por exemplo, do anúncio feito pela Nasa, divulgando os resultados da Sonda Gravitacional B - ou Gravity Probe B. Um tremendo dispêndio de recursos, engenharia, tecnologia, tempo e ciência. A sonda levou duas gerações de cientistas para ficar pronta - é de longe o maior programa espacial em termos de tempo - e tinha o pouco audacioso objetivo de medir e comprovar as teorias gravitacionais de Einstein.

É preciso tempo porque, embora, sim, tenha-se comprovado que a Terra distorce o espaço-tempo a seu redor a ponto de criar um vórtice nas suas imediações, por outro, esperava-se que a sonda fosse capaz de medições com 0,01% de margem de erro (para se ter uma ideia, a sonda foi capaz de medir desvios de pentelhésimos de arco: a escala foi de milhares de miliarcosegundos (um miliarcosegundo é a largura de um fio de cabelo humano visto de uma distância de 16 km). Na verdade, verificou-se que o número ficou mil vezes acima deste 0,01%. Nada que comprometa o experimento, mas aproxima muito seus resultados de tudo aquilo que já se tinha mensurado através de equipamentos muito mais simples e baratos.

Na coletiva que anunciou os resultados do experimento, Clifford Will declarou que "este é um resultado épico. Um dia isto será escrito nos livros como um dos experimentos clássicos na história da física". O experimento, independente do mérito de seus dados colhidos nestes anos, é um absoluto triunfo de engenharia e de simplicidade: a ideia foi mandar ao espaço giroscopios - a grosso modo, esferas perfeitas que giram livres num recipiente de vácuo com hélio superfluido - e apontá-los para uma estrela. Se Einstein estivesse errado, os giroscópios não oscilariam e manteriam-se eternamente apontados para a estrela de referência. Se, por outro lado, estivesse correto, a distorção espacial causada pela Terra perturbaria o movimento das esferas dos giroscópios.

O problema é escala e margem de erros. As esferas foram anunciadas como as quatro esferas mais perfeitas um dia produzidas pelo homem. E são. Fossem elas ampliadas até o diâmetro da Terra e teriam, no máximo, escarpas de 3 metros de altura. São virtualmente perfeitas. Mas mesmo esse grau de refinamento não foi suficiente.

Pode mesmo ser verdade. A exemplo de Eddington que, inglês, se embrenhou nas matas africanas em plena Primeira Guerra Mundial, para efetuar medições da órbita de Mercúrio e que vieram a comprovar os primeiros grandes saltos de Einstein, que de resto, era alemão, vivia ainda na Alemanha, adversária dos ingleses em campos de batalha. O trabalho de Eddington provou que Newton, inglês, estava errado. Era ruim para a propaganda de guerra que o maior físico de todos os tempos estivesse errado e tivesse que ceder passo, justamente, para um alemão.

O tempo passou, Einstein tinha razão em muitas coisas - são os princípios que descobriu que fazem, por exemplo, o GPS de seu automóvel preciso. Pode ser que este experimento abra veredas novas no avanço para se descobrir o que é a gravidade, o espaço e o tempo nisso tudo, a exemplo de Eddington e Einstein no princípio do século passado. Mas isso só o tempo vai nos dizer.

terça-feira, 12 de abril de 2011

50 anos do homem no espaço

Hoje comemora-se - e sim, há o que comemorar - os 50 anos do primeiro voo espacial tripulado por um ser humano, a partir da base, então soviética, de Baikonur. A epopéia de uns poucos minutos de Gagarin, há cinquenta anos, meio século, expandiu os horizontes do ser-humano, levou nossa imaginação muito além do esteio e da segurança desse planeta que, revelaram as retinas de Gagarin, é azul.

Gagarin com sua pequena viagem ao redor do globo, perto demais para ter a concepção da insignificância desse planeta perante a vastidão cósmica, longe o suficiente para compreender a pequenez das ambições humanas, talvez tenha sido nossa primeira chance de nos entendermos com o universo. Nós somos feitos pelo universo, somos parte dele tanto como uma galáxia, somos feitos de matéria e energia que se manifestam em planetas, estrelas, explosões e buracos negros, e como conlcui Sagan, na poesia que lhe era peculiar e que todos invejamos, no fim das contas, somos uma manifestação da matéria e da energia, uma forma do universo compreender a si mesmo. Se o universo é um oceano, mesmo depois de 50 anos, apenas molhamos os calcanhares na água. E o primeiro passo foi dado por Gagarin.

Mas, com efeito, há muito que a exploração do espaço pela nossa espécie carece de esforços. E investimentos. Os EUA desmobilizam paulatinamente sua frota de ônibus espaciais, admitindo o gargalo tecnológico em que as naves se transformaram e a verdade é que ninguém na Nasa sabe muito bem para que lado caminhar. Os russos usam exatamente o mesmo modelo de foguete e capsula que usaram com Gagarin, a Shoyuz e a Vostok, apenas aprimorados com a tecnologia que expandiu-se a valer nas últimas 5 décadas. A exploração espacial precisa não de uma corrida, mas de impulsos, de um novo Von Braun e de um Korolev. A gravidade, que ironia, é a força fraca das leis universais, mas é mais cruel, porque insiste em segurar os sonhos e devaneios da nossa espécie na Terra. Vencer a gravidade ainda é tarefa para explosões e dispendiosos e enormes aparelhos, cujas concepções datam da própria invenção da pólvora e dos primeiros foguetes balísticos da Segunda Guerra.



Mas além de saltos tecnológicos, precisamos também de uma nova mentalidade. Gasta-se muito, mas muito mais, com orçamentos militares do que com exploração espacial. O progresso tecnológico em nosso sistema aparece onde há recurso humano e massivos investimentos financeiros. Ir ao espaço, à luz da compreensão crescente da nossa verdadeira posição no cosmos, o que somos, significamos e importamos ao universo não é ir embora ou dar vazão a desnecessários instintos nômades e exploratórios. Ao irmos às estrelas não estaremos indo embora, estaremos voltando.

Hora de viajar
desbravar um novo universo
molhar as canelas no oceano cósmico
vibrar nas supercordas um novo verso
É hora de viajar
vislumbrar o que há lá fora
De correr a todo canto
porque ao irmos às estrelas
não estaremos indo embora
estaremos voltando.



terça-feira, 18 de maio de 2010

O melhor site do mundo é...

... aquele em que você trabalha. Ok, péssimo lugar para fazer propaganda, mas vamos lá. Deem uma olhada no novo site da Placar: http://placar.abril.com.br

Modéstia à parte, um trabalho legal pra cacete.

[/fim da auto-promoção]

Prometo que não faço mais, distinta comunidade de sete leitores.

sábado, 6 de março de 2010

Legendas: nunca mais

Estava eu conscienciosamente acertando umas legendas num documentário que muito me interessa, produzido pela BBC, e que versa sobre a luz. A luz como entidade física que nos permite divisar o mundo, a luz como entidade filosófica que nos faz dizer que, de uns séculos pra cá, a humanidade ganhou consciência sobre si justamente porque começou a iluminar-se.

Chama-se a série de 4 episódios abordando todos estes matizes de "Fantastic Light", o que em libérrima tradução, digo-vos com a autoridade do esquecido pouco inglês que eu nunca soube, é "Luz Fantástica". Dois episódios em mãos, considerei que era esta noite uma ocasião excelente para assistir e entender um pouco mais sobre a luz como fenômeno físico e filosófico, posto que planos de algumas semanas de ir a uma rave nesta noite - vade retro - foram reprogramados em virtude da indisposição da minha companhia.

Descobri para infelicidade minha que as legendas disponíveis na boa língua desta terra que chamamos Brasil são, na melhor das hipóteses, nojentas. O problema transcende a falta de sincronia entre fala e texto. Nas versões em português das legendas faltam falas, o que gera um efeito cumulativo que faz as legendas terem duração de 42 minutos, ao passo que o episódio tem 1 hora de falas.

Resolvi que consertaria o problema. Iniciei, portanto, a penitência lenta e consciensiosamente, conferindo as falas numa versão em inglês das legendas, e traduzindo-as quando necessário, corrigindo duração e sincronia quando fosse a situação. Normalmente quando faço essas correções, costumo distribuir as legendas a quem de interesse, em sites do ramo - sou um sujeito generoso nesse grandíssimo puteiro da internet, onde todos fodemos a não mais poder a grande puta dos direitos autorais. Ia já adiantado na tarefa, com 37 minutos de vídeo já realizados, quando, enfim, a ferramenta utilizada, o Subtitle Workshop, fruto do trabalho de programadores uruguaios e talvez o único software de edição de legendas gratuito e decente do universo conhecido, dá pau.

De uma vez perdi mais de uma hora de trabalho, a disposição pra ver o documentário, o humor e o respeito pelo software, que deletei imediatamente. Nunca mais edito uma legenda na minha vida, está tudo dito.

Fiquei de humor tão avacalhado que a incidental descoberta de que no YouTube o documentário se faz presente e legendado - não sei nada a respeito da qualidade e integridade das legendas, mas parecem estar em ordem - me fez odiar com todas as minhas forças o fato de que meu preciosismo com documentários e vídeos tenha-me impedido de procurá-lo no YouTube ou mesmo parar de frescura e ver no inglês, porque sou bem capaz de compreender se assistir com atenção.



Verei o documentário em inglês e com legendas em inglês. Foda-se.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A hora de ter um hobbie

Eu nunca tive um hobbie e jamais parei para pensar nisso como uma contingência, algo que precisasse ser resolvido. Por outro lado, sempre conservei à minha volta traços e interesses difusos que, sob determinadas condições, poderiam resultar em hobbies: sempre gostei de cavalgar em regiões ermas, considero que o violino produz o que mais perto podemos chegar do som da alma e adoraria sair velejando o mundo sem destino e pressa alguma.

Cada uma dessas afeições poderia converter-se em hobbies. O que, aliás, seria algo interessante de observar numa criatura tão indolente como eu. Nunca tive nenhum deles, seriam coisas para o futuro distante, quem sabe no ocaso da vida, onde me sobre tempo e espírito, eu me veja capaz de dedicar essas duas porções de mim na conservação de um hábito prazeiroso, que nós damos o nome de hobbie, seja praticando o violino, aprendendo a velejar, ou mantendo um sítio ou chácara, com árvores, campinas e animais. E internet.

Hoje eu não posso dizer que adquiri um hobbie, mas posso, ao menos eleger um novo e sério candidato para o posto - e isso muito antes dos anos de outono da minha vida. Falo de cosmologia, olhar para o céu noturno e contemplar a magnificência do cosmo que nos cerca. Mais que um hobbie, suponho que descobri uma vocação, tardia, de astrônomo, físico, cosmólogo, enfim, áreas que se debruçam a compreender e esmiuçar o universo que nos cerca.

Como primeiro passo na instituição desse lazer, declaro que tentarei construir um pequeno telescópio. Não é assim uma meta tão ousada, há explicações na internet sobre como fazê-lo e, diabos, Galileu foi capaz de sozinho construir um sem internet e espelhos perfeitamente planos no século XVI, com o qual quase acabou incinerado pela piedosa e iluminada Igreja Católica, para quem o homem veio do barro, a Terra é plana e sustentada por colunas e onde Deus teria criado o Sol depois das plantas. Enfim. Na verdade, a atividade de construção do telescópio demanda de miolos, eu os tenho, interesse, não me falta, dedicação, estamos por nos encontrar, e alguma verba para custeio dos instrumentos, que as há ainda nas burras. Na pior das hipóteses eu desisto e me conformo com as fotos do Hubble.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O Inferno de Dante nos joysticks do mundo

Inferno de Dante é um clássico da literatura e compõe uma parte de uma obra maior, chamada de Divina Comédia, escrita por Dante Alighieri nos tempos do Renascimento. É um clássico que trata em verso da criação desse espaço conhecido como inferno, daí o nome, sob um viés épico e teológico.

Tornou-se o poema e a descrição do inferno um símbolo cultural, um ícone. Provavelmente a noção de inferno que as pessoas possuem no geral é muito mais atribuída ao poema de Alighieri do que a descrição presente nos textos bíblicos que, aliás, sobre o assunto se debruçam em redundâncias e contradições. Por certo que Dante trouxe a imagem do calvário que condensou em suas rimas dos versículos bíblicos, mas é inegável que as tintas renascentistas e as penadas suaves da poesia fizeram muito melhor serviço no que tange a condensação do inferno enquanto ícone na cabeça da cristandade ocidental do que a Bíblia.

De tal forma o Inferno de Dante transcende seus limites de época que virou símbolo. Inferno de Dante foi filmado em película, apresentado nos palcos, cantado em música, virou quadro nas mãos de vários pintores (Salvador Dalí, Rubens, Botticelli para ficar em alguns que pintaram o inferno segundo suas interpretações de Dante). De tal sorte a obra de Alighieri cresceu em si que se expandiu nos diversos campos culturais e virou signo. Muita gente diz "o inferno de Dante" para se referir ao inferno numa perspectiva ainda mais cruel que a normal e muitas vezes não têm a real noção do que é a obra. Muita gente acredita que "Inferno de Dante" seja uma pintura e não um poema renascentista, por exemplo, dada a caracterização desse termo como um inferno cheio de dor e sofrimento, e como se sabe, as pessoas tendem a ter mais facilidade a associar ações com imagens, daí a impresão, em muito auxiliada pelos diversos quadros com este nome de pintores famosos, de que Inferno de Dante seja uma pintura.

Sob todos os aspectos, portanto, o Inferno de Dante é um exemplo muito bem acabado de um bem cultural universal. Resistiu ao tempo, influenciou sociedades e culturas ao tornar-se uma noção, um conceito, de inferno; transitou por diversas manifestações culturais e está presente ainda hoje. Um exemplo disso é o surgimento da versão de "Inferno de Dante" enquanto jogo eletrônico. A Eletronic Arts, uma das maiores produtoras do ramo em todo o mundo, resolveu produzir um jogo baseado no poema renascentista, que tem lançamento previsto para fevereiro em diversas plataformas (Play Station 3, X-box 360 e há chance de que usuários de PC's possam descer aos infernos de concepção florentina).

Venho falando há um tempo sobre o surgimento de jogos com perspectivas muito avançadas no aspecto técnico e discursivo. Histórias elaboradas, mecânicas e discursos muito mais evoluídos que o Super Mario que nos acostumamos a vincular como imagem de jogo eletrônico, ou as aventuras em 4 cores no Atari. A adaptação da obra de Dante para os jogos é um sinal disso. A criação da história do jogo, por exemplo, ficou a cargo do roteirista Will Rokos, indicado ao Oscar em 2002 pelo roteiro de "A Última Ceia".

Todo o referencial original do texto de Alighieri está lá. Os Nove Círculos do Inferno, a aventura do cavaleiro Dante que deve descer às profundezas do reino do anjo caído para enfrentar o próprio Lúcifer com vistas a recuperar a sua amada Beatrice. No caminho deverá enfrentar medos, fantasmas, mosntros, bizarrices, medo, terror, o próprio inferno em si, a revelação de histórias e crimes de família que estavam esquecidos. E é esta a história da primeira parte de A Divina Comédia (o livro divide-se em: Inferno, Purgatório e Paraíso).

Pensemos nas possibilidades. Eu não li Inferno de Dante (o único clássico renascentista que tive colhões para encarar e luzes para compreender foi "Decamerão" de Boccaccio), mas fiquei conhecendo inúmeros detalhes da história em virtude de conhecer o game. E pensemos nas multidões que irão jogá-lo, quanta informação será transmitida e de alguma forma ensinada pelo jogo? Alighieri, se tivesse como conhecer a dimensão que sua obra tomou com o passar dos séculos, sem dúvida, ficaria orgulhoso.

E, enfim, jogar também é cultura.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

The Saboteur é mais que cinema, é jogo!

A indústria dos jogos não cansa de evoluir - em todas as áreas, do avanço técnico ao marketing. Uma novidade tem sido a aposta em virais na internet e tambéma a montagem de peças publicitárias mais elaboradas do que simplesmente colar imagens e vídeos dos jogos - o que normalmente é feito com alta liberdade poética em tratamento de imagens, apresentando uma qualidade que não estará disponível nem ao mais bem equipado dos jogadores. A aposta de algumas grandes softhouses vem buscando a convergência entre todas estas opções. Jogos não são mais coisa só de criança, meus caros, números, investimentos, impactos e a lógica do mercado de games aponta isso e não vê quem não quer, ou quem fica ocupado teorizando se jogos influenciam o comportamente violento dos sociopatas que nossa cultura produz.

Um exemplo bacana dos virais e dessa maneira nova de apresentar o produto é o trailer em live-action - ou seja, filmado com pessoas reais, e não com pixels - do jogo The Saboteur, ambientado na Paris sob ocupação na Segunda Guerra Mundial, recentemente festejado por este que vos bloga em virtude de possuir um discurso artístico (o jogo começa preto e branco e vai ficando colorido conforme você avança na história) e um apuro técnico extremamente elaborado. Gostei do jogo porque ele diverte, possui um roteiro cinematográfico, personagens marcantes - o protagonista Sean tem todo o charme do anti-herói e que nos cativa pela sua maneira de falar e reagir a imprevistos, um sujeito cativante, assim como Skylar, a bela coadjuvante em boa parte da história. Sean é um mecânico/piloto de corridas irlandês, o sujeito que aparece detonando a bomba por telefone no final do vídeo, e seu objetivo, em virtude de querer vingar-se, é sabotar os alemães que ocupam Paris, ajudando a Resistência Francesa, famosa e cantada durante os últimos 70 anos em prosa, verso e cinema. E agora jogos. A cidade é um mapa aberto, você pode ir para qualquer lugar, seguindo a mecânica de mundo aberto inaugurada com sucesso na franquia GTA.

Trailer de The Saboteur em live-action:



Recomendo que assistam no YouTube, onde o player é maior e mais conveniente.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

BlogPress é o cara

Não vou mais postar do iPod para não acabar parecendo um desse neófitos irritantes deslumbrados com bens tecnológicos. Até porque não posso me deslumbrar, disponho do aparelho há quase um ano. E também porque os dois posts anteriores não foram os primeiros do dispotivo, há inúmeros assim ao longo desse ano.

A diferença é que os dois últimos vieram de um programa que descobri para iPod Touch e iPhone - como sou hype! - e que se presta justamente a nos ajudar a postar com decência de uma máquina que não possui teclas e, sabe-se, não se posta sem teclas, porque precisamos escrever. O nome do programa, a quem interessar possa, e não possa, é "BlogPress", encontrável no caso de você possuir um cartão de crédito internacional e vontade de adquiri-lo originalmente na Apple Store - custando, no site da Apple, módicos US$ 2,95. Ou no site que congrega as versões, digamos, genéricas dos softwares para iPod e iPhone, que é este aqui, e que eu não estou recomendando, apenas comento neste texto a título de informação. Não vou eu fazer apologia à, te esconjuro, pirataria, vade retro, e acabar tendo meu blogue perseguido pelos pulhas, ignorantes, fascistóides da APCM, gente detestável que eu, após expremer o mais que pude minha criatividade, consegui chamar de "filhos da grandíssima puta da indústria do entretenimento, aquela devassa escrota, de fundilhos alargados por tanta e tamanha putaria no último século, este da reprodutividade técnica, com direito a replay".

O aplicativo, não esqueçamos do nome, "BlogPress", é intuitivo, fácil, funcional e tudo mais. Tem a enorme vantagem de, ao contrário de todos os outros que testei para a função "postar-coisas-no-meu-blogue-a-partir-do-ipod-sem-ser-da-maneira-convencional", funcionar. Fujam dos outros. Todos; testei-os e não funcionaram. Ou não logava, ou não postava, ou postava apenas em "draft" (o post ficava configurado como rascunho), ou aconteciam falhas esdrúxulas com as imagens - e este "BlogPress" permite configuração com álbuns de serviços como o Picasa, o que facilita muito a vida de quem posta com imagens desse banco de... imagens. "BlogPress" é o cara. Fosse eu publicitário, recomendaria o slogan de "um novo conceito em postagem a partir de dispositivos móveis". Por que, me pergunto, as pessoas costumam dizer que seu empreendimento é um novo conceito em alguma coisa? Sendo que nunca é? Uma lan-house que se posicione assim é o quê? Oferece mojito enquanto o cliente navega? Mulheres nuas? Shows de strip? Qual é o conceito de "um novo conceito" para esse pessoal que oferece um serviço sem novidade nenhuma perante o mundo e os seus pares?

Enfim. Agora sim posso viajar tranquilo para onde for, sabedor de que, munido de iPod meus registros inúteis, vazios e dispensáveis do dia-a-dia poderão ser divididos com meus 9 leitores em tempo real. E nem preciso me preocupar em espremer tudo em 140 caracteres.

É só vantagens a vida com um iPod Touch.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Teste



Testando o iPod...


-- Post From My iPod

sábado, 5 de dezembro de 2009

Internet - impossível viver sem

Faz meia-hora que postei sobre o especial "Por Toda a Minha Vida", exibido no último dia 3, a respeito da trajetória de Raul Seixas. Falei que esperaria um tempo, ou dei a entender isso, para procurar o programa na rede e, aí sim, baixá-lo e assisti-lo.

Levei meia-hora. O programa todo está aqui, no YouTube.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

The Saboteur: genial

Há muito que sustento perante o desdém de muita gente que a indústria dos jogos eletrônicos já beira, e em alguns casos ultrapassa às largas, os ditames do que é arte. Os jogos progridem anualmente a uma velocidade assombrosa, e isso explica porque o entretenimento digital é uma indústria que lucra mais que a do cinema e mais que a automobilística também. Hoje, em vários títulos no mercado, a experiência de jogar é a de viver um filme. Interagir com um roteiro.

É o caso do game The Saboteur, que para ficar nos paralelos perante a Sétima Arte, é, por sua vez, o remake de um título famoso nos anos 1980 para o Atari. A previsão de lançamento do jogo é para este mês, disponível para Play Station 3, Xbox 360 e computador, no jogo você encarna um irlandês que mora em Paris. Tudo se passa num ambiente de filme noire, nos anos 1940, em plena Segunda Guerra Mundial. Você precisa vingar-se dos nazistas, ajudando ações da Resistência Francesa.

Mas onde está a arte, pergunta você, ó leitor incauto e apressado. A arte vai além do roteiro bem elaborado, da possibilidade de interagir com toda a Paris de 70 anos atrás. A arte está no espetáculo visual do jogo, que começa preto e branco e conforme o jogador for avançando na história e experimentando emoções, torna-se colorido (conforme você pode ver no vídeo abaixo). É, pelas prévias disponíveis na internet, visualmente falando, um conceito lindo e que foi visto, conforme a sociedade cinéfila de leitores que me acompanham devem lembrar, no filme Sin City.

Prévia do game:



Além disso, escolheram Nina Simone, com "Feeling Good" para a trilha sonora (opa, mais uma semelhança com o cinema: trilha sonora envolvente). Só não vicio já no jogo porque o lançamento oficial ainda não aconteceu, e de mais a mais, meu notebook tem recursos muito modestos para enfrentar tamanho refinamento técnico e gráfico.

Trailer oficial:


quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Toyota não é de nada

E a Toyota, que vem a ser, assustem-se leigos, a maior montadora de automóveis do mundo, anunciou hoje o maior recall de todos os tempos. Serão convocados 3,8 milhões de veículos (!) nos EUA porque, e aí é reside o absurdo, o pedal do acelerador pode enroscar nos tapetes do veículo, e os gabaritados motoristas norte-americanos são incapazes de lidar com essa assombrosa contingência, podendo, portanto, emborrachar-se ridiculamente nos muros, postes, árvores e outros Toyotas que abundam no país. Situação desagradável, porque os perspicazes motoristas acabariam tendo ganas de processar a fábrica nipônica que, naturalmente, se sentiria desconfortável em arcar com intermináveis indenizações.

Lendo mais sobre a notícia, descobri que a montadora irá retirar do mercado uma picape que pode ter o chassi corroído pelo sal (!!), situação que pode fazer com que o pneu estepe caia, e cause as mais complicadas situações para o cidadão que vem atrás, dirigindo algum SUV esdruxúlo, ou um daqueles sedãs enormes, gastadores e desajeitados, tão caros ao "american way of life". Além disso, os sempre precavidos japoneses conceberam um chip que cortará o motor quando os sempre evoluídos, competentes e astutos motoristas dos EUA pisarem simultaneamente no acelerador e no freio - manobra conhecida como "punta-tacco" e extremamente utilizada, além de importante, no mundo do automobilismo de competição - mas bastante ignóbil e deslocada num veículo comum de rua.

E, sim, pasmem, a Toyota é a maior montadora do mundo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Jogos são legais

Normalmente as pessoas tendem a não enxergar, ou a ver com preconceitos, a indústria dos games. Ninguém tende a levar muito a sério algo que nasceu como brinquedo e que foi crescendo ao longo das décadas e hoje, além de ser uma indústria milionária mais lucrativa que o cinema, tem enveredado no ramo da criação de produtos e desenvolvimento de conteúdo cada vez mais complexos e bem elaborados.

Hoje jogos simulam mais do que corridas de carro, estratégia em jogos onde você brinca de deus, morte e destruição em games de tiro. Vai muito além. Há, por exemplo, muito mais crítica social e inteligência no último GTA do que na grande parte dos nossos jornais.

Não é minha intenção, entretanto, fazer uma profissão de fé no sentido do real valor inexplorado dos jogos eletrônicos, que ainda perturbam a ideia de educadores e psicólogos retrógrados, que tendem a explicar o vazio existêncial de um adolescente violento e problemático por meio de influência dos jogos.

É aquela velha história: se a minha geração tivesse sido influenciada por jogos como Pac-man, estaríamos todos correndo em salas escuras, ouvindo músicas repetitivas e engolindo pílulas. É, eu sei, há quem faça exatamente isso em raves, dirá alguém. Aí eu contradigo, porque eu joguei também Super Mario e não me lembro de sair por aí pulando em cima de tartarugas, engolindo cogumelos e desafiando a gravidades em abismos medonhos.

Jogos não são mais negativos que, por exemplo, assistir o Pânico. Ou uma novela.

E tudo isso porque lia eu sobre novidades em matéria de games. Preciso renovar o estoque, logo lançam o Modern Warfare 2, eu mal comecei o Batman e o Need for Speed Shift tem tudo para me tomar tempo demais. Aí encontrei esse vídeo abaixo, da Scientific American, que explica a evolução da aplicação dos conceitos físicos nos jogos:


domingo, 11 de outubro de 2009

Assim temos um hino

Não sei vocês, caros sete leitores, mas eu, assim que bato os olhos para o banner deste meu blogue penso logo numa trilha sonora triunfal. Orquestras retumbando em uníssono sons de um hino que honre a dignidade da imagem que rotula este espaço e que é visivelmente inspirada nos posters soviéticos, que aliás configuram uma forma de arte muito bonita, em que pese abandonada, e que sempre me interessou largamente. Fosse eu mais talentoso, corrigindo, fosse eu talentoso de alguma sorte nos traços à mão com naquim, daria eu mesmo continuidade a essa arte que já vai esquecida, como de resto vai tudo que um dia compôs a grande URSS.

E discussões de ordem político-ideológica à parte, o fim da União Soviética deixou o mundo um lugar muito sem graça. Vejam aí o caso do Frederick Forsyth, que depois que desmoronaram com o Muro de Berlim não escreveu um romance que preste. Antes a gente tinha do que temer, partidos a tomar. Ou você era um porco capitalista ou um comunista impedernido na juventude. Você abraçava "O Capital" para se colocar nas fileiras vermelhas que riscariam do mapa a injustiça social. Eu sempre fui meio deslocado no tempo e fiz isso, escolhendo no caso um marxismo meio acanhado, tomando partido quando eles já não estavam mais por aí, sensibilizando corações e se alimentando de sonhos jovens. Embora tenha escolhido uma das doutrinas, nunca li "O Capital" inteiro. Hoje, do alto de meus 24 anos de sonho, de sangue e de América do Sul, venho a público admitir que, não, jamais li o livro de Marx, embora tenha caminhado com o mesmo debaixo do braço, qual um pastor daquelas seitas cristãs que nos perseguem. Aos 24 anos a gente perde a vergonha de admitir certas coisas.

Mas o que conta, antes da digressão - eu não sei escrever se não for por elipses - era falar da trilha sonora que vem para compôr - tem acento ainda? - com o banner a cara, a face, a marca deste blogue que visa a dominação global, tendendo a garantir a irrestrita distribuição de macarrão com queijo para todos aqueles que quiserem. Temos um banner, um nome, até um slogan escrito em alfabeto cirílico, que ninguém, a não ser eu, consegue ler e, enfim, agora, temos aí uma canção. A escolhida não é nenhuma obra desconhecida. Ao contrário. Contudo, deixo a cargo da curiosidade de cada um descobrir de quê se trata.

Para ouvir, basta clicar no play:

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Digita rápido, é? Sei...

Eis aí um teste para aqueles que, como eu, digitam alucinadamente rápido - ou pensam assim. Para ter acesso ao teste, clique no meu resultado ali. E que frise-se que é um resultado aleatório, já fui bem melhor. Esse ali foi apenas para gerar o código HTML, afinal. Uma vez no site, basta digitar a palavra, dar enter ou espaço e partir para a outra. Quando o tempo esgotar você terá a resposta e saberá o quão rápido digita:

40 palavras
Speed test

domingo, 26 de julho de 2009

Rumo ao grunhido

Eu desdenho do Twitter porque acho uma bobagem desnecessária demais. E a vida é feita de bobagens, por isso tendo a dedicar o meu tempo àquelas que, ao menos, primam por não serem desnecessárias.

E José Saramago deu uma entrevista ao jornal O Globo. Sobre internet, blogues e outras bossas. Perguntaram ao lusitano, que tal é, essa coisa aí, meio assim, de Twitter. Se lhe apeteceria ter uma conta no serviço de microbobagem, digo... microblog. Disse Saramago:

"Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido".

O "grunhido" foi grifo meu. É impressionante. Eu me debato escrevendo, escrevendo, escrevendo e pensando no assunto. O português vai lá e, numa frase, diz o que eu queria.

Impressionante.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Quarenta anos de Lua

Não serviu pra muita coisa. É essa a conclusão do aniversário do pouso do homem na Lua. Fazem, hoje, 40 anos. Eu, como todo garoto, fui obcecado por astronômia durante um bom tempo, lia muito sobre naves, voos, aventuras. Lembro de quando lançaram o filme Apollo 13, assistindo em casa com meu pai, intrigado com as dúvidas que tinha sobre um voo até à Lua que minha curiosidade natural ainda não tinha sido capaz de resolver.

Em 2007 tivemos outro aniversário simbólico e de jaez semelhante: tratava-se aí do cinquentenário do lançamento do Sputnik. A bola de metal que fazia bip-bip-bip e o fato de esse bip-bip-bip poder ser escutado aqui na Terra deu o ensejo para que se desenvolvessem as mais variadas artes no sentido de comunicação, massiva ou não, do ser humano, rompendo distâncias, as infindáveis vagas dos oceanos, os ares, enfim. Tudo pra descobrir, que no fim das contas, o verdadeiro problema de comunicação ainda é o face a face, téte-a-téte.

O Sputnik, na pior das hipóteses, abriu o espaço (ahn? Ahn?) para a onda de inovações que hoje permite que você leia este texto num computador em qualquer lugar do mundo. A chegada do homem à Lua não. Foram lá, trouxeram pedregulhos, fincaram bandeiras e a Lua continua branca, inóspita, desabitada, praticamente imóvel, a bastar apenas para inspirar poetas e bêbados de ocasião. Alguém poderia citar os intermináveis avanços advindos da era espacial. Pois é, mas eles viriam com ou sem viagem para a Lua. Então, são mais culpa do Sputnik.

Mas o aniversário é da Apollo 11, não do Sputnik. Embora eu ache que não dá pra falar num sem falar noutro. O Sputnik foi o princípio (ou os V-2 do Wernher Von Braun?), depois dele o homem orbitou à Lua, o homem pisou lá, criaram os ônibus espaciais, eles explodiram e ninguém mais voltou pra Lua porque lá, irremediavelmente, não tem porra nenhuma.

A conquista da Lua não nos fez mais pacíficos, mais evoluídos, não nos ensinou muita coisa, infelizmente. Porque a história é bonita. É uma epopeia paralela àquela de Colombo, que disse que a Terra era redonda, e quem pensava o contrário não estava com nada. O que há de grande nessa história é, como sempre, o lado humano. A história de vida de Edwin Buzz Aldrin, o segundo homem a pisar na Lua, que entrou em depressão por ter sido o segundo. O medo, enfim, o desconhecido.

Quarenta anos. Eu lembro de 1999, quando foram 30 anos, das publicações especiais. Superinteressante e Veja tinham reportagens anotando a efeméride. E eu, não mais criança, ainda colecionando dados na mente sobre aquilo que considerei naquele tempo, a maior aventura humana entre todas.

Cresci e parei com bobagens. E com definições unilaterais.

A gente cresce, fica um pouco mais esperto em umas coisas. Noutras, fica mais bobo. Mas de uma maneira geral, perde completamente a inocência.

Nota: bacana este site. Nele reconstroem em tempo real toda a missão. Você pode acompanhar passo a passo, com vídeos, fotos e gravações originais toda a viagem. Aliás, o site é excelente, merece uma olhada.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Meu primeiro bootleg

Conforme já lhes contei, estive no primeiro dia deste mês de julho no show de Mark Lanegan em São Paulo. Eu e, muita gente por lá, gravamos o show. Como a experiência de ouvir o sujeito numa apresentação de caráter tão intimista e acústica foi simplesmente incrível, resolvi me aventurar e produzir um bootleg do show.

Ponto, parágrafo. Bootleg é o nome que se dá a gravações extra-oficiais, de shows, apresentações, passagem de som e até de entrevistas - que fãs lançam, com ou sem interesses comerciais. Eu não os tenho, fiz o bootleg e está disponível para downloads aqui.

E ficou bacana. Extrai os audios de vídeos do show disponíveis no YouTube, além de alguns que gravei com meus camaradas, e editei os mp3 em um programa que lembra muito o Garage Band da Apple, o Acustica Mixcraft (é bizarramente fácil criar músicas nesse coisinho, vicia).

A imagem acima é a capa, que também fiz, do bootleg, primeiro e até aqui único, de "An Evening With Mark Lanegan & Greg Dulli", com músicas do Afghan Whigs, Screaming Trees, Twilight Singers e The Gutter Twins, além da carreira solo de Lanegan.

E esse é meu primeiro passo na carreira de produtor musical.

Ouça uma das faixas:


quarta-feira, 8 de julho de 2009

Não precisa, mesmo, de diploma pra fazer isso

Eu voto um desprezo carnal extremamente violento e inconsolável, a ponto de dar com a cabeça nas paredes quando me deparo com o pássaro azul a gorjear. É asco ao twitter, tuíter, ou gorjar, conforme já tive o ensejo de demonstrar. E, por inconsolável, evidentemente, continuo eu muito feliz, sozinho é verdade, mas feliz em não fazer parte dessa grande bobagem.

E dia desses, em uma das minhas correrias, tive um tempinho para ler a home do UOL e estava lá: Marcelo Tas e Luciano Huck discutem pelo twitter, tuíter, ou gorjear. Finalmente! A revolução da comunicação, em 140 caracteres, a agilidade do admirável mundo novo, enfim, chegou de fato: dois egos se chocam, e não falta quem queira testemunhar o episódio. Seguir, dizem os neófitos.

Aí fica difícil aceitar a justificativa dos aceclas, esses também seguidores, do microblogue. Dizem eles que o serviço traz uma inaudita agilidade - pra quê? - à difusão de informação. Neste caso "A informação", digna de espaço no portal mais visitado da internet brasileira, é o ego, o confronto de vaidades, que vemos todos os dias na internet. No orkut, em blogues, no MSN. As pessoas gritam "olhem pra mim!", vejam como sou legal. Mas como é no tuíter, a nova onda, aí vale primeira página.

Marcelo Tas e Huck se degladiaram, sempre em 140 caracteres, descaracterizando levemente o até então tido como imortal ditado que nos dizia que, cronológicamente, a pena, a caneta, ou vá lá, a palavra, fere mais que a espada. Tenho pra mim que dependendo do tamanho da lâmina, 140 caracteres já não chegam para ferir, como faz o aço frio quando bem manejado. Bateram-se os dois num duelo de palavras, um dizendo que o outro forjava seus estratosféricos números e estatíticas de seguidores, que onde é que já se viu, fazer uma coisa dessas, querer vender aos demais que se têm mais popularidade do que realmente possui.

O mundo está cheio de gente besta. E isso não é propriamente uma novidade. A história da burrice humana inunda capítulos e capítulos da história da civilização e é um processo, um eterno retorno, sempre em constante evolução. A peleja de Tas e Huck é só mais uma pequena vírgula.

O problema, o busílis, é que o mundo sempre esteve cheio de gente besta, mas normalmente inofensiva. E o twitter, tuíter, gorjear, veio a armar os bestas de 140 caracteres, reputações ignóbeis, audiência vasta e passiva, vazio e uma falsa sensação de informação. O muito é pouco, diz o poeta. E o eterno retorno, enfim, é religião.

E não para - para de parar, estragaram o idioma, como se sabe, o que somado com tantos sinais, só pode ser sinal do apocalipse que nos bate à porta - por aí. A crise entre as duas celebridades vira notícia, manchete. É o suprassumo da fofoca. Vai para a primeira página do site mais lido da internet no Brasil, nos informar que, sim, somos todos vaidosos, implicitamente, evidentemente. O foco é sempre o factual, não o absurdo: Marcelo Tas e Huck brigam via tuíter porque... porque... porque um diz ter mais seguidores que o outro, maduros que são.

Dois pavões se exibindo, enfim, é notícia. E ainda me perguntam por que eu, jornalista de canudo nas mãos, sou contra o diploma. Por falta de argumentos. E se for buscar, vou acabar tropeçando nessas situações, que me dão argumentos para ser totalmente contra. Como defender o diploma de jornalista para fazer uma bobagem dessas? Se o critério de notícia é esse, ora, qualquer um faz. Jornalista não precisa, mesmo, de diploma. Precisa de juízo, mas é um artigo em falta e que rareia mais a cata "tuítada" da internet.

A vida num mundo onde tanta gente se arma de tuíters não vale à pena ser vivida.