A ideia de ler qualquer coisa mais ou menos longa numa tela é desagradável. A vista cansa, os olhos não foram feitos para todo esse brilho concentrado. Era essa a lógica que me mantinha impassível quanto a chance de ter um Kindle, ou qualquer outro desses leitores de livros digitais. Parecia apenas um modismo feito para encantar os neófitos, e nada mais.
Mas as coisas mudam. Tudo, aliás, muda (ver Heráclito). Ou não, (Parmênides), mas o fato é que hoje sou proprietário de um Kindle. E um bem encantado: em menos de 20 dias, já li quatro livros que, do contrário, não teria lido nunca: tratam-se de livros em inglês, que se fosse o caso de ler por métodos analógicos e convencionais, precisaria importar. O Kindle faz em verdade aquela velha profecia, gasta pelo cinismo contemporâneo, de que a tecnologia está aí para encurtar distâncias e facilitar a vida.

Facilitar porque além de trazer para o meu mundo livros que eu tinha alguma vontade de ler, mas nenhuma possibilidade de, o Kindle abre portas para afogar velhas vontades literárias que não encontravam vez e espaço. É fácil encontrar uma quantidade enorme de livros gratuitos para encher a vasta memória do aparelhinho e criar listas e mais listas de programação de livros para se ler até o fim dos tempos.
Falando no cinismo do tempo, é bem difícil se dizer encantado por qualquer bugiganga eletrônica porque elas estão todas aí para nos tentar e seduzir aquela parte da cabeça que vê necessidades onde elas não existem. O Kindle pode muito bem encabeçar qualquer lista de supérfluo que o consumismo nos vomitou, como o tablet e o micro-ondas (micro ondas, microondas, microndas), é, a rigor, uma solução para um problema que não existe: não existe o menor problema com livros em papel, assim como não existia nada de errado com ferver a água na chaleira, ou algo justificasse celular com tela de 9 polegadas. E ainda que venha ao mundo para resolver problemas que não existem, criar necessidades questionáveis, o Kindle não foge à lei da engenharia, que diz que qualquer solução, independente do mérito, cria um novo problema (normalmente de igual intensidade, mas sentido contrário). Ao Kindle, são problemáticos acervo, bateria, cabos, capinha para proteger e o caralho a quatro.
Mas ainda assim, o Kindle tem em si um caráter redentor insuspeito. É como o peito do poeta, em que cabem todos os sonhos do mundo, no Kindle cabem todos os livros do mundo que você tenha alguma intenção de ler no futuro. Em 31 não tão bem vividos anos de sonho, de sangue e de América do Sul, juntei uma quantidade de 78 livros – segundo uma antiga contagem que já deve estar defasada. Em semanas com o Kindle, vamos firmes com um catálogo de 200 livros diferentes, que atravessam todos os meus campos de interesse, que vão desde livros do Saramago, eu que li quase todos à exceção de um, passam por economia, cosmologia, divulgação científica, toneladas de escritos sobre a história, especialmente a das guerras, tem coisa demais de literatura latino-americana, todos aqueles livros impressionantes que eu quis ler do Cortazar, do Calvino, Guerra e Paz do Tolstoi, porque agora vai, estão todos eles lá. Tem romances policiais de diversos calibres, também tem literatura de vários calados, e uma tonelada de entretenimento sem compromisso na forma de thrillers de espionagem, que ninguém é de ferro.
Eu parei de fazer as contas, mas tinha estimado de forma conservadora que, tivesse optado por adquirir todos esses livros, teria gasto mais de dois mil reais.
Fosse isso uma resenha técnica do aparelho, teria de falar do conforto de segurar. Que a bateria dura muito tempo, que a sensível lentidão da interface gráfica do aparelho é contornável porque não há pressa ao ler. Que, no fim das contas, a tela de 6 polegadas é ideal para livros, se você tiver o cuidado de deixar o tamanho da fonte na medida certa. Que a tela, aliás, não cega, não cansa os olhos, que a tecnologia do eInk (a tinta eletrônica, e pasme você leitor, mas há tinta – polarizada magneticamente – no meio daquela tela) é tudo que prometeram, uma maravilha tecnológica que faz mesmo leitores desencaminhados, como é o meu caso, voltarem a ler com fôlego e ritmo três livros diferentes simultaneamente, porque os recursos do aparelhinho (dicionários, enciclopédia, marcações e tudo mais) nos convidam à extravagância.
Como dito, eu fui um leitor de muito maior apetite quando tinha mais sonhos, quando a vida era mais fácil e sobrava tempo. Em 2005, eu lembro muito bem, li 44 (ou 46?) livros no ano todo e, impressionado, fiz uma lista com todos eles. O Kindle me recolocou nesse rumo, voltei a encontrar o sabor de se impressionar com livros dos quais não esperava muito e isso não tem preço.
Assim como eu me perdi dos livros que lia, me desencontrei daqueles que queria escrever, e nesse meio tempo, foi-se o blogue, que aqui ficou a empoeirar. Ainda que, seguramente, isso não seja uma volta, gosto de achar, no fundo do coração, que esse textinho, esse panegírico pelo aparelho e pela tecnologia vá encantar alguém a comprar, também, um Kindle. Ou os seus concorrentes, que são tão bons quanto, as diferenças não são grandes, e como tudo na vida, é questão de gosto.
terça-feira, 7 de junho de 2016
Kindle, um panegírico
às 14:09 Marcadores: Cultura, Tecnologia

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