Deus é, antes de tudo, um conceito absoluto. Para quem crê na sua existência, dá sentido a tudo e mensura tudo. Mas nada pode ser absoluto, ao menos na nossa experiência da realidade, e é isto que este breve guia vai demonstrar: a relativização da onifodeza. Deus é tido como onifodão (onifodão é o somatório das características absolutas exclusivas a deus: onipresença, onipotência e onisciência).
Mas como praticamente tudo que envolve mitos, essas noções não sobrevivem olhar mais cuidadoso e balizado pela realidade. Diante disso, aqui vai um guia básico de combate argumentativo às noções que perfazem o conceito da onifodeza:
Onipotência: Um ser onipotente é um ser que detém poderes ilimitados. O infinito é uma medida convencional e não há restrição alguma para o que ele, o onipotente, possa fazer. Cristãos e seguidores de outros credos gostam de entender sua divindade nestes parâmetros, vale para qualquer fé moderna.
Só que é um valor absoluto. O infinito não se dá bem com a realidade. A rigor, não há nada real que seja infinito. Há uma porção enorme, mas finita de matéria no Universo. Há um consenso mais ou menos estabelecido no sentido de que, sim, o universo tem fim. Números são infinitos, mas não são reais, são construções ideológicas - existem porque nós os contamos, em resumo. Estes são exemplos da noção de infinidade.
Deus para existir precisa ser real. E seu poder precisa se manifestar na realidade, do contrário sua existência é ainda mais questionável. Então, para desmontar essa noção de poder infinito, basta questionar: pode deus criar uma pedra tão pesada que nem mesmo ele tenha poder de levantar?
Essa pergunta admite apenas duas respostas: sim e não. Se sim, então, deus não é onipotente, porque terá encontrado um limite para seu poder, o peso de uma pedra assombrosamente grande. Se não, então deus também deixa de ser onipotente, porque terá o limite do seu poder na impossibilidade de criar algo tão pesado que não possa levantar.
Esse tipo de raciocínio lógico é altamente corrosivo com a religião porque coloca entidades e conceitos abstratos, como onipotência e infinidade, nos limites do real. E, no fim das contas, mostra que apenas com a linguagem você pode provar que um deus onipotente não faz sentido.
Onipresença: onipresente é aquele que está em todos os lugares ao mesmo tempo. O recurso aqui para relativizar esse valor absoluto é a pergunta: pode deus criar um lugar onde ele não possa estar?
Se sim, ele pode, então deixa de ser onipresente. Se não, ele não pode, deixa de ser onipotente.
Onisciência: aqui o raciocínio é mais complexo. Onisciência é o atributo de quem sabe tudo que aconteceu, que acontece e que acontecerá. Nesse cenário, equivale dizer que se existe um deus e ele é onisciente, ele simplesmente sabe absolutamente tudo do passado, do presente e do futuro.
O problema com essa noção está no valor do livre-arbítrio, muito caro à religião católica, e que preconiza que você é livre para fazer de sua vida o que bem entender, tendo, contudo, que prestar contas de suas escolhas num tipo de julgamento ministrado por deus no final dos tempos, onde quem passar no juízo terá a vida eterna - o que deve ser um saco, diga-se de passagem - e quem reprovar, terá tormentos, dor, pranto, sofrimento e tristeza eternidade à fora - mas, claro, deus te ama.
A idéia de livre-arbítrio não pode conviver com a noção de um deus onisciente. Porque se deus é onisciente, significa que sua vida está escrita, porque deus simplesmente já a conhece. Você, por exemplo, não escolhe ser ateu, neste cenário, sua vida já foi desenhada para embocar nesta realidade. Se você não exerce escolhas e já tem um destino desenhado, não faz sentido falar em livre-arbítrio e menos ainda em esperar um julgamento, posto que você foi, por toda a existência, escravo da mente de um deus absoluto.
Para exemplificar: suponhamos que deus, por ser onisciente, saiba que amanhã no café da manhã eu vou comer um pão com manteiga. Há alguma maneira de eu não comer esse pão com manteiga?
Existem duas respostas possíveis. Se sim, eu posso escolher comer outra coisa então deus "errou", e portanto não é onisciente. Se não, então eu não tenho livre arbítrio de fato, apensa penso ter escolhido o pão com manteiga dentre as outras coisas que poderia ter comido. E nesta hipótese, deus é onisciente e continua fodão, mas a religião perde inapelávelmente o bastião do livre-arbítrio. Na outra opção, ela conserva o conceito de livre-arbítrio, mas deus não é mais onisciente.
sábado, 27 de agosto de 2011
Desmontando a onifodeza: breve guia de combate ao deus absoluto
às 19:56 1 comentários Marcadores: Evangelhos
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Balanços
Os fatos básicos são estes. O Universo que conhecemos tem 14 bilhões de anos de idade. Até aqui, mais de 460 planetas foram descobertos orbitando estrelas distantes, dos quais um punhado pode suportar vida. Fomos bem sucedidos em desvendar as origens de nossa espécie até o mais remoto passado deste planeta em que vivemos e que, é fato consumado, tem formato esférico e orbita uma estrela, tal e qual os bilhões de outros que devem existir neste universo em constante mutação. Conseguimos mapear o genoma humano. Já enviamos naves e sondas a mais de 40 outros mundos. Seres humanos já pisaram no solo de outro corpo celeste. Cosmólogos debatem nossas origens com cada vez mais convicção de onde viemos e mesmo pra onde vamos. Teorias começam o audacioso passo de abraçar toda a física que conhecemos numa coisa só nessa dança epistemológica do conhecimento humano, nascido do brilho do iluminismo. Outros universos podem existir e evidências disso já são discutidas entre físicos de renome. Cada uma dessas conquistas encerra pequenos triunfos do espírito humano ao fazer vergar até romper as barreiras da superstição, da religião e do medo de pensar. Cada uma delas narra a história de homens, mulheres e ideias que não calaram diante da resposta pronta da Bíblia, da Torá, do Corão e de quaisquer outros livros religiosos que encerram verdades absolutas, eles foram além do convencional, e redefiniram nosso lugar no cosmos.
E, em meio a tudo isso, tendo consciência de cada uma dessas verdades e dos seus custos, você vem me pedir fé?
às 16:58 1 comentários Marcadores: Memórias
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Crise é rotina
O mundo tá aí, estourando em crises. Os capitais que escorrem pelo ralo da realidade são a pólvora que impulsiona multidões em Londres. O valor do dinheiro escorre nas evoluções espetaculares de um capital que não existe. Um exame mais detido sobre como funciona o sistema financeiro global lhe dá claras mostras de como a coisa toda não fecha, que há muitos algarismos e poucos valores, muitos números e poucos bens. Mas quando você acha que há alento em crises como a de hoje, que cenários desesperados e analistas contritos na tv concorrem para uma sadia sacodida do sistema, derrubando no processo os pulgões, quem cai do lombo dessa cadela velha e carcomida é você: a conta não fecha, não há dinheiro no mundo que cubra os capitais inflados de ganância e irresponsabilidade que se equilibram há décadas ameaçadores sobre nossos destinos. Quando, no fim das contas, você considera que bolsas derretendo, capital sumindo, bolhas estourando, enfim, são a ante-sala da prosperidade e da racionalidade, você lembra que há uma boa porção de gente que investiu no debacle e que ganha dinheiro com a evolução do caos. Sãos os que especulam com derivativos, no resumo, dinheiro que não existe investido na possibilidade de crescimento de um preço no futuro: sim, eles ganham dinheiro apostando em mais dívidas de todos: empresas, estados e pessoas. Por isso, esqueça. Nada muda. Esses mesmos pavimentarão as veredas da próxima crise, assim sucessivamente, até que se diluam as mais firmes reservas de valor - a dignidade foi-se dessa dança voraz há tempos - até que passemos todos a nos alimentar via escambo.
às 18:11 0 comentários Marcadores: Atualidades
