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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Vivendo num palíndromo

Palíndromos são palavras ou frases que podem ser lidas em qualquer sentido, tanto na leitura normal, esquerda para a direita, como o contrário, que ainda assim terão o mesmo sentido. Caso clássico de "Socorram-me! Subi no ônibus em Marrocos", que é o maior palíndromo da língua portuguesa.

E por que falar em palíndromos? Simples, meus caros, caso ainda não tenham percebido, hoje, vivemos em um: 01022010!

Sinistro.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Um jereboão de emoções

Impagável. É isso. Simplesmente impagável. Desafio vossas senhorias, meus distintos leitores, a me dizerem o que, afinal, vem a ser "jereboão"?

Pois é. A palavra por si só já soa irreverente. Muitos de vocês, meus queridos, se tiverem pachorra suficiente, irão perguntar ao Pai Google, que vos dirá que, no fim das contas, seria, na verdade, um tal de Jereboão, rei dos judeus em algum remotíssimo passado. E bota remotíssimo nisso, porque eu, leitor de quatro costados da Bíblia, daquela pornográfica e com assassinatos e daquela do amor ao próximo, não me lembro de ter, um dia, tropeçado num Jereboão. Devo ter esquecido.

Mas o fato é que jereboão, assim, no minúsculo é mais do que o rei dos judeus - não o ressurecto. Jereboão, saibam, é o coletivo de bêbados. Você diz aos peixes, cardume. Aos porcos, congresso nacional, digo, vara. Aos lobos, matilha. Aos bêbados você diz jereboão.

Os meus poucos dicionários ainda não confirmaram a possibilidade. Descobri jereboão lendo uma coluna antiga do Ivan Lessa, que é um sujeito sensacional na arte de escrever. Ele chama lá de jereboão a multidão de bêbados.

E confesso que simpatizei de imediato com o verbete. Na verdade, na qualidade de bebedor, me sentia excluído dos favores da língua no que concerne às generalizações de uma grande porção de pessoas embriagadas. Sendo ou não um neologismo do Lessa, não me importa, está adotado o jereboão.

Organizarei uma campanha: reforma na língua! Admitam o jereboão entre nós, façam dele nosso coletivo, a palavra que nos abriga, que nos distingue, que nos faz, todos os bêbados, um!

Estudo seriamente criar uma categoria nova aqui no blogue. Semiotices. Para dar vazão a esse meu fascínio meio torto pelas palavras e seus sentidos. Tenho alguma experiência nisso.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Sem palavras por quê?

Bakhtin não era poeta, e pode ser que isso o faça incompreensível para muita gente. É mais ou menos pra mim, que tenho luzes que cheguem para iluminar alguns dos rudimentos do teórico russo, mas não o entendo em absoluto. Pode ser, portanto, que eu seja uma besta. Por outro lado, veja aí o caso do Schopenhauer, que desancava o Hegel, chamava-o de enganador, de besta e coisa muito pior, porque escrevia Hegel de uma forma tortuosa que poucos compreendiam. Ou compreendem, como é o meu caso que não entendo absolutamente nada do que me diz Hegel, o que pode indicar que ambos, Bakhtin e Hegel, é que são as bestas e não eu, novidade extremamente positiva para animar este meu combalido ego.

E Mário Quintana, que era poeta, o que significa que era um filósofo da alma humana, e na simplicidade explica tudo que Bakhtin se debateu por dizer numa existência inteira:

"A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.

Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro".

Tudo isso para dizer que, no fim das contas, ser limitado pelas palavras é uma desgraça. Não digo metade das coisas que preciso, posso e devo escrevendo ou falando. É ruim. Não sou só eu, inclusive. Todos nós. Eu só sou um pouco mais obcecado pelo assunto do que as outras pessoas. E não estou sozinho, além de Bakhtin e Quintana, com enorme orgulho cito José Saramago, que dúzias de vezes em seus escritos volta-se a discutir o sentido de uma frase, de uma palavra pelo que é, pode ser, poderia ser ou deveria ser.

O que é, no fundo, uma tremenda burrice, porque inútil. O assunto é insolúvel, não só para meus modestos predicados intelectuais, mas também para os Bakhtin(s) do mundo. Só seria resolvido na medida em que desenvolvêssemos uma forma de comunicação que trata-se das coisas pela sua essência, e essa seria a telepatia - comunicando nossos pensamentos pelo seu sentido exato, que é por definição inexprimível na língua falada e escrita.

O que por conclusão nos diz que o cerne do problema está em que não há quem leia e ouça que possa entendê-las, as palavras, pelo que são. Pelo que falam, pelo que dizem, pelo que deixam de dizer, pelo que se completam nas lacunas de um pensamento errático, claustrofóbico e ansioso - como o meu, por exemplo. É uma sensação de solidão estranha descobrir que falando, ninguém se entende.

Numa língua telepática os pensamentos falariam. Você não sentiria mais a cadeia de "não ter palavras" para designar um estado de espírito, ou uma sensação, provavelmente nos entenderíamos todos muito melhor, além do que os idiomas seriam dispensáveis. Hoje ao sermos confrontados com uma situação extrema, de qualquer tipo, caímos no "não tenho palavras". O que nos leva a pensar, ou leva à mim a pensar, sintam-se à vontade em discordar, que o mal do mundo é que os sentimentos não falam. E falar por eles, conforme a larga história humana nos tem mostrado, é o princípio dos inauditos fracassos humanos.

Não há Bakhtin que resolva isso no mundo. Mas há muito Quintana para dizer que, no fim das contas, todos passarão, e eu passarinho. Há muito(s) Quintana(s) no mundo para dizer o que é a vida, as escolhas, as dúvidas e o que somos. Queria eu ser um deles. Porque se minha capacidade de entendimento do mundo é limitada a tal ponto que minha capacidade de extravasá-lo, descrevê-lo e transcendê-lo torna-se vã e sensivelmente falha, mais vale deixar de lado qualquer pretensão de sentido pleno, de clareza, de objetividade e ser poeta. E o mundo sempre precisará de poetas, por mais que muitos pareçam dizer nada com nada e falem coisas das maneiras mais distantes, abrindo toda a sorte de possibilidades de interpretação, o que amplia o problema do limite da linguagem. O mundo precisa de mais Quintana(s), Drummond(s), Neruda(s), Parra(s) (etc), porque poetas dessa dimensão são capazes de dizer muito com pouco.

E é curioso perceber que se um número dramaticamente maior de pessoas lessem Quintana, cada uma delas entenderiam de uma forma, ou seja, não contornamos o problema da linguagem, apenas agravaríamos. Mas ainda assim seria um mundo mais bonito. Múltiplo, confuso como é hoje, mas muito mais bonito.

Eu queria, mais do que ser como Quintana ou Saramago, que minhas palavras, ditas, escritas e pensadas, fossem tidas pelo que dizem, e até pelo que omitem. Mas jamais pelo que os outros querem ler delas.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Macarrônico

É um adjetivo legal. "Macarrônico" é o tipo de termo pouco conhecido, mas que abriga em si uma porção de sentidos e possibilidades de significação que bem poderia ser figurado em qualquer estudo mais aprofundado da língua.

"Macarrônico" tem uma riqueza de sentidos impressionante. Por exemplos: o sujeito chega e diz: "minha vida afetiva anda macarrônica" - o que nos leva a considerar que o cidadão atravessa uma quadra não muito estável, que remete ou a um dramalhão ou a uma italianada - afinal, macarrão, se não inventado pelos peninsulares europeus, foi ali popularizado depois que Marco Polo havia roubado a ideia dos chineses.

Você pode dizer que "vivemos num país macarrônico", o que passará uma ideia de zona, de bagunça, porque macarrão é assim. Se você foi a uma festa e pôde dizer que ela foi macarrônica, então deve ter sido uma festa legal, cheia de coisas ao mesmo tempo, divertida e interessante. Se algo tem proporções macarrônicas pode ser algo bom ou ruim, afinal.

Assim é o macarrão. Assim é a vida. E desejo do fundo do meu coração de gelo: macarrão com queijo para todos!

sábado, 19 de junho de 2004

A "Pataquada"

Refletindo nesses últimos dias, chafurdado em toda a sorte de livros, xerox (desconheço a forma plural adequada pra esse substantivo, que até pouco tempo era nome de uma empresa, apenas. Troquemos, pois, para "fotocópias") e uma série de outros elementos inerentes à vida acadêmica, chego à conclusão de que é extremamente saudável essa coisa de escrever uma patacoada por semana na internet, espero que você seja da mesma opinião no seu papel de ler a patacoada.

Não, eu não errei no título. Escrevi "pataquada" e não o correto, patacoada, porque na minha presunçosa maneira de ver as coisas entendo como muito mais prática a minha maneira de escrever. É sem duvida extremamente mais simples, e além do mais, segue o principio do: "escreve-se como fala-se". Preocupado com isso, pretendo organizar uma representação em forma de protesto perante à ABL (Academia Brasileira de Letras), para conseguir a revisão de ortografia deste ilustre verbete que é patacoada. Estejam avisados os beligerantes leitores que sentem-se incomodados e, como eu perdem o sono por conta dessa ultrajante condição, para engajar-se nessa digna causa.

Sempre tive o hábito, mórbido, eu confesso, de notar certas incongruências dos idiomas dos quatro cantos desse mundo redondo (taí mais um dos grandes mistérios da humanidade: como pode, o mundo, que é redondo, ter cantos?). Por exemplo: o inglês, idioma anglo-saxão que quer dominar o mundo, onde é tudo, sistematicamente tudo ao contrário. "John's House" é casa do João, e não House of John como seria muito mais lógico. Roda esquerda (do carro) é "left wheel", traduzindo, esquerda roda, e não wheel left, afinal a roda é mais importante que o esquerdo e, portanto deveria ser priorizada na sentença, mas não é. As línguas devem ter seus absurdos, do contrário estão fadadas ao fracasso. Provavelmente por isso o esperanto jamais emplacou.

Em compensação, xícara de chá, que por analogia deveria ser tea's cup, é cup of tea, traduzindo, xícara de chá. Absurdo. Acredito que isso tudo se explique pelo fato de que essa língua floresceu na Inglaterra, país onde tudo é invertido, a começar pelos carros, posto que é o único lugar onde você dirige no banco do carona - li isso em algum lugar, não tem muita graça. Aliás, não são os únicos. No Japão é assim, na África do Sul idem, na Índia também, acho que nas Malvinas, Nova Zelândia e muito provavelmente na Austrália, não tenho certeza.

Há que se considerar também o caso dos chineses, japoneses e outros menos votados povos do extremo oriente. Quem consegue compreender aqueles risquinhos entrelaçados que eles usam? Suspeito que nem eles mesmos compreendam. Tenho até uma teoria referente ao fato de serem tão bem sucedidas as civilizações orientais, tudo explica-se pelo idioma absolutamente incompreensível que usam, como ninguém se entende, ninguém discute. Sem discussões inúteis, as empreitadas tem maior possibilidade de funcionar, se não estiverem de acordo, eles partem pra ignorância, mesmo. Vide o parlamento...

Podia também discorrer de certas impressões que tenho no tocante aos caracteres árabes, bem como sua pronúncia. Tenho certo receio de incorrer em desagrado dessa ou daquela organização extremista e eventualmente virar alvo de algum ataque terrorista. Coisas inexplicáveis são os terroristas, como também é inexplicável escrever "inexplicável" com "x" e "inesperado" com "s" e não com "x". Culpa de um grego ou de um romano qualquer perdido em livros de etimologia, que um dia, há uns bons "buzilhões" de anos resolveu, ou por sacanagem ou com o intuito de propiciar assunto a um texto, isso ainda não se sabe, controverter nosso idioma. Deve ser o mesmo cara da "pataquada".