Bakhtin não era poeta, e pode ser que isso o faça incompreensível para muita gente. É mais ou menos pra mim, que tenho luzes que cheguem para iluminar alguns dos rudimentos do teórico russo, mas não o entendo em absoluto. Pode ser, portanto, que eu seja uma besta. Por outro lado, veja aí o caso do Schopenhauer, que desancava o Hegel, chamava-o de enganador, de besta e coisa muito pior, porque escrevia Hegel de uma forma tortuosa que poucos compreendiam. Ou compreendem, como é o meu caso que não entendo absolutamente nada do que me diz Hegel, o que pode indicar que ambos, Bakhtin e Hegel, é que são as bestas e não eu, novidade extremamente positiva para animar este meu combalido ego.
E Mário Quintana, que era poeta, o que significa que era um filósofo da alma humana, e na simplicidade explica tudo que Bakhtin se debateu por dizer numa existência inteira:
"A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro".
Tudo isso para dizer que, no fim das contas, ser limitado pelas palavras é uma desgraça. Não digo metade das coisas que preciso, posso e devo escrevendo ou falando. É ruim. Não sou só eu, inclusive. Todos nós. Eu só sou um pouco mais obcecado pelo assunto do que as outras pessoas. E não estou sozinho, além de Bakhtin e Quintana, com enorme orgulho cito José Saramago, que dúzias de vezes em seus escritos volta-se a discutir o sentido de uma frase, de uma palavra pelo que é, pode ser, poderia ser ou deveria ser.
O que é, no fundo, uma tremenda burrice, porque inútil. O assunto é insolúvel, não só para meus modestos predicados intelectuais, mas também para os Bakhtin(s) do mundo. Só seria resolvido na medida em que desenvolvêssemos uma forma de comunicação que trata-se das coisas pela sua essência, e essa seria a telepatia - comunicando nossos pensamentos pelo seu sentido exato, que é por definição inexprimível na língua falada e escrita.
O que por conclusão nos diz que o cerne do problema está em que não há quem leia e ouça que possa entendê-las, as palavras, pelo que são. Pelo que falam, pelo que dizem, pelo que deixam de dizer, pelo que se completam nas lacunas de um pensamento errático, claustrofóbico e ansioso - como o meu, por exemplo. É uma sensação de solidão estranha descobrir que falando, ninguém se entende.
Numa língua telepática os pensamentos falariam. Você não sentiria mais a cadeia de "não ter palavras" para designar um estado de espírito, ou uma sensação, provavelmente nos entenderíamos todos muito melhor, além do que os idiomas seriam dispensáveis. Hoje ao sermos confrontados com uma situação extrema, de qualquer tipo, caímos no "não tenho palavras". O que nos leva a pensar, ou leva à mim a pensar, sintam-se à vontade em discordar, que o mal do mundo é que os sentimentos não falam. E falar por eles, conforme a larga história humana nos tem mostrado, é o princípio dos inauditos fracassos humanos.
Não há Bakhtin que resolva isso no mundo. Mas há muito Quintana para dizer que, no fim das contas, todos passarão, e eu passarinho. Há muito(s) Quintana(s) no mundo para dizer o que é a vida, as escolhas, as dúvidas e o que somos. Queria eu ser um deles. Porque se minha capacidade de entendimento do mundo é limitada a tal ponto que minha capacidade de extravasá-lo, descrevê-lo e transcendê-lo torna-se vã e sensivelmente falha, mais vale deixar de lado qualquer pretensão de sentido pleno, de clareza, de objetividade e ser poeta. E o mundo sempre precisará de poetas, por mais que muitos pareçam dizer nada com nada e falem coisas das maneiras mais distantes, abrindo toda a sorte de possibilidades de interpretação, o que amplia o problema do limite da linguagem. O mundo precisa de mais Quintana(s), Drummond(s), Neruda(s), Parra(s) (etc), porque poetas dessa dimensão são capazes de dizer muito com pouco.
E é curioso perceber que se um número dramaticamente maior de pessoas lessem Quintana, cada uma delas entenderiam de uma forma, ou seja, não contornamos o problema da linguagem, apenas agravaríamos. Mas ainda assim seria um mundo mais bonito. Múltiplo, confuso como é hoje, mas muito mais bonito.
Eu queria, mais do que ser como Quintana ou Saramago, que minhas palavras, ditas, escritas e pensadas, fossem tidas pelo que dizem, e até pelo que omitem. Mas jamais pelo que os outros querem ler delas.
sexta-feira, 24 de abril de 2009
Sem palavras por quê?
às 01:44 Marcadores: Cultura, Memórias, Semiotices

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