sábado, 4 de abril de 2009

Filosofando, andando e desistindo

Assistia eu ontem na madrugada insone as distintas elucubrações, preleções e descarregos promovidos pelos inúmeros programas evangélicos na TV. Já fui extremamente reacionário ao falar do assunto, mas hoje, à luz dos absurdos das crenças - quaisquer que sejam - sou mais pacífico. Em resumo, se tem gente disposta a dar dinheiro e sustentar as prostitutas de Cristo, que as sustentem, afinal. Assim como tem gente disposta a enfrentar cruzadas em nome de um bispo que excomunga quem tenta salvar vidas por vaidade pessoal, que seja.

Mas não se trata do mérito dessa ou daquela outra fé aqui - ainda. Assim como não é o caso de apontar as ridicularias dos prestimosos programas de TV, embalados nas ondas que vagam pela ionosfera e repercutem na ignorância calada das multidões. É, entretanto, o caso de dar carradas de razão aos filósofos que, há muito, já se ocupam em falar, não muito bem, das crenças. Não das religiões, mas das crenças.

Schopenhauer já disse que a religião precisa da treva: "as religiões são como vagalumes, precisam das trevas para brilhar". O que nos leva a uma conclusão muito interessante no que tange os programas evangélicos: o discurso - e eu odeio análise de discurso - dos dignos pastores reside sempre nas desgraças inomináveis, no pavor imortal, na ameaça permanente das mais infelizes consequências àqueles que se abraçarem ao demônio.

Ora... eu acho que deveriam pagar royalties para o demônio. Sim. Não só os evangélicos, todas as religiões maniqueistas, mas especialmente eles. Não fosse a existência do inominável, já distinguido duas vezes neste texto, que seriam das religiões? A noção de recompensa que nos oferecem as religiões está muito mais embasada no medo da perseguição e do castigo, que no mérito da bondade.

Evidentemente que essas conclusões são conceitos. A verdade tende a ser sempre mais difícil, profunda, imperscrutável - se a gente tropeçasse nela a cada deboche, a vida não teria a menor graça, e olhe que ela já tem consigo bem pouca. Mas me parece que essa necessidade humana de estabelecer o bem e o mal a partir de contraste e exemplos algo falha. A gente deveria fazer o bem por que é o certo, não porque haverá as maiores infelicidades no futuro se for escolhido o mal. E o fato é que mesmo esse contraste não tem ajudado muito a impedir as misérias humanas.

A verdade é que um mundo, uma civilização, atormentada por um duplo padrão moral, do bem e do mal, e a falsa certeza que temos de que não pode existir um sem o outro, talvez, esteja no âmago de cada uma das nossas misérias e fracassos enquanto povo, enquanto uma comunidade global.

Em resumo estou com sono. E não lembro mais o que verdadeiramente me motivou a escrever este texto. Provavelmente tem a ver com o sincretismo que permeia, no momento, um frila encomendado aí. Pode ser também minha necessidade de ecoar conclusões nada originais, ainda que verdadeiras, sobre crenças e religiões, coisas meio estranhas, que em si não fazem sentido, e que eu vivo tentando entender a título de esporte.

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