Ok, admito, o poema anterior é ruim até para os meus padrões.
Mas quando ele me ocorreu me pareceu tão bacana...
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Ruim de verso
Fogueira
Ah! Mas que maldade.
Que queima qual fogueira,
e logo me incendeia.
Nessa vida onde tudo nos deixa,
neste mundo feito de saudade.
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Vida em três atos
Eu sou todas essas revoluções
Eu vivo cada uma das tuas tormentas;
e das tuas torturas.
Me desfaço em mil pedaços a cada suspiro,
me completo e renasço a cada sorriso.
Sou eu a cada momento.
Pleno dessa afeição, confiante dessa sua indiferença
E inocente no clamor dessa crença;
te digo: não te esqueço.
Vivo todas essas revoluções num segundo.
Esqueço, desejo, penso, me revolto.
Te quero, te busco, me renego.
Vivo, padeço, amo, desisto.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Um jereboão de emoções
Impagável. É isso. Simplesmente impagável. Desafio vossas senhorias, meus distintos leitores, a me dizerem o que, afinal, vem a ser "jereboão"?
Pois é. A palavra por si só já soa irreverente. Muitos de vocês, meus queridos, se tiverem pachorra suficiente, irão perguntar ao Pai Google, que vos dirá que, no fim das contas, seria, na verdade, um tal de Jereboão, rei dos judeus em algum remotíssimo passado. E bota remotíssimo nisso, porque eu, leitor de quatro costados da Bíblia, daquela pornográfica e com assassinatos e daquela do amor ao próximo, não me lembro de ter, um dia, tropeçado num Jereboão. Devo ter esquecido.
Mas o fato é que jereboão, assim, no minúsculo é mais do que o rei dos judeus - não o ressurecto. Jereboão, saibam, é o coletivo de bêbados. Você diz aos peixes, cardume. Aos porcos, congresso nacional, digo, vara. Aos lobos, matilha. Aos bêbados você diz jereboão.
Os meus poucos dicionários ainda não confirmaram a possibilidade. Descobri jereboão lendo uma coluna antiga do Ivan Lessa, que é um sujeito sensacional na arte de escrever. Ele chama lá de jereboão a multidão de bêbados.
E confesso que simpatizei de imediato com o verbete. Na verdade, na qualidade de bebedor, me sentia excluído dos favores da língua no que concerne às generalizações de uma grande porção de pessoas embriagadas. Sendo ou não um neologismo do Lessa, não me importa, está adotado o jereboão.
Organizarei uma campanha: reforma na língua! Admitam o jereboão entre nós, façam dele nosso coletivo, a palavra que nos abriga, que nos distingue, que nos faz, todos os bêbados, um!
Estudo seriamente criar uma categoria nova aqui no blogue. Semiotices. Para dar vazão a esse meu fascínio meio torto pelas palavras e seus sentidos. Tenho alguma experiência nisso.
às 15:01 1 comentários Marcadores: Cultura, Memórias, Semiotices
Internet de viagem
Essa internet de bolso não está com nada.
Que seria de mim se o Blogger não salvasse automaticamente os rascunhos?
às 14:54 0 comentários Marcadores: Tecnologia
To be
Deixa-me ser seu Tertuliano.
Porque você é minha Maria da Paz,
e assim eu já te amo.
É só você me deixar, eu te ensino como se faz.
sábado, 23 de maio de 2009
Fórmula 1, por isso que eu gosto
Ok o vídeo nem é assim tão longo, portanto, assistam e mostrem, pelo menos um pouco, de consideração em relação aos meus gostos excêntricos. O sujeito que editou manja da arte, a escolha das imagens e os cortes são precisos, um belo clipe.
às 00:05 1 comentários Marcadores: Fórmula 1
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Os males do tubo
Ah, a TV. Eu sou muito inocente, confesso. Aliás, embora debochado, tenho o mau vezo de ser lá algo idealista, o que me reserva sempre desgraças. Quanto maior a projeção, a idealização, maior o tombo. Enfim, cá comigo entendo-me eu.
Mas e o que dizer da TV? Eu, podem rir a bandeiras despregadas, conforme dizem os antigos livros que as pessoas riam, e se parar para pensar, em bandeiras despregadas, de fato, deve ser esse um riso bem gostoso, daqueles soltos, abanando de alegria. Dá até para dizer hoje, à luz do progresso, que as pessoas riem como bonecos de posto, aqueles ventilados, que animados por uma intensa corrente de ar, parecem fazer as maiores estripulias. É o mesmo princípio das bandeiras. A vantagem está em modernizar um pouquinho, na onda dessas reformas ortográficas, a expressão. Riam-se, portanto, a bonecos de posto da minha inocência.
Eu acreditava que não dava pra piorar depois do BB, o fenômeno do Big Brother, que sabemos todos, brotou lá na Holanda. País simpático. É comum que fiquem os holandeses às voltas com seus diques, com sua prostituição legalizada, livre comércio de maconha, moinhos, suas vacas leiteiras que, consta serem as melhores na arte, bem como outros etcéteras. A Holanda não fede e nem cheira, em resumo sem eufemismos. Sequer afunda, eles têm os diques.
John de Mol é o nome do sujeito que bolou o "programa". Na sua concepção seria uma novela da vida real. Sei. Se for da vida real não é novela, mas não vale à pena discutir isso, ainda mais com um sujeito desses. O oceano de ridicularias que brotou do primeiro Big Brother, lá em 1997, restrito ainda a Holanda, deveria ter me avisado do que viria pela frente. Eu deveria ter me preparado. A fórmula, curiosamente ainda longe do desgaste, todos conhecem: escolhem-se babacas à dedo, todos marcados por diversas insuficiências morais, mentais - mas nunca físicas - fecha-se a distinta sociedade composta nalgum espaço, espalha-se as câmeras e vê no que dá. De brinde você leva um apresentador babaca, "celebridades" e as intermináveis, e tão agressivas ao meu fígado, discussões pelas ruas sobre quem merece vencer. O resto é história. Das bem bestas, inclusive. "De se perder a fé na humanidade", como diria um querido professor.
Ponto, parágrafo. Jamais confiarei num holandês novamente.
E, convenhamos, eu já tinha visto Ratinho espetacularizar deformidades físicas. Depois veio o BBB. Aí teve o Pânico na TV e eu ali, achando que nesse buraco ninguém poderia ir mais fundo - já tinha até me conformado com o Milton Neves. Bobagem. Das grandes, aliás. Há sempre tempo para alguma bobagem maior. E não falta, aí é que está o busílis, gente para promovê-la. E pior, achar legal.
É o caso do veterano Silvio Santos. Todos gostamos do Silvio Santos. Uns mais, outros menos, é verdade, mas o fato é que se há uma criatura perto da unanimidade neste país, esta é Silvio Santos - por mais que "toda a unimidade seja burra", conforme nos adverte Nelson Rodrigues. Tão icônico é Silvio que não consigo, cá com essas desgastadas teclas, imaginar um domingo sem o conforto de ver Silvio Santos repetindo os mesmos bordões, apresentando os mesmos programas, tudo sempre igual e repetido à exaustão, para deleite dos aposentados, seu público mais fiel - experimente falar mal de Silvio Santos ao meu avô.
Mas isso não quer dizer que ele esteja imune a burrice dos nossos tempos, sobretudo aquela que se irradia pelas ondas da TV. Me refiro à pequena Maísa que, vim a saber há pouco, completa hoje, 22 de maio, sete anos de idade. Putz. Eu com 7 anos fazia muitas coisas, mas nada que chegue perto a me expor em cadeia nacional. E, pior, da maneira com que se expõe essa menina.
Nada contra. Ela tem pais, eles lá que se resolvam, porque ela vai crescer. E vai ser adolescente. Azar o deles. O que me incomoda, e muito nessa história, é ver a que ponto chegamos na tolerância ao ridículo. Nas últimas três semanas a menina foi vítima, e vítima é a palavra certa, de situações de extrema vergonha e humilhação, levadas a cabo pelo patrão. E só agora começam a se incomodar. Os pais? Não. Pelo menos não publicamente.
Tem acontecido de tudo naquele palco, sem que muita gente tenha se incomodado com os limites. Coisa brava, do tipo colocar a criança aos gritos numa mala e arrastá-la. Aterrorizá-la com um menino maquiado pelo prazer de fazê-la gritar. Lendo aqui e ali, a direção do "Programa Silvio Santos" esclarece que não há roteiro para as situações que surgem, não diga, espontâneamente entre Silvio e Maísa. Ok. Mas não há limites?
Silvio Santos perdeu o juízo? Aterrorizar uma criança hoje em dia dá Ibope? Fazê-la passar por situações extremas - ela tem 7 anos hoje! Até os 6 crianças não distinguem o real do falso - vale à pena?
Não chego ao reacionarismo (existe? Perdoem o neologismo, em todo caso) tacanho que nos diz que a TV influencia. Não acho que crianças serão carregadas em malas porque Silvio Santos acha legal. Aliás, sou muito contrário a este tipo de discurso: fossem, por exemplo, os jogos de vídeo-game tão capazes de influenciar pessoas, estaríamos todos na minha geração que jogaram Pac-Man andando em salas escuras, tomando pílulas mágicas e escutando músicas repetitivas. Ok. Fui mal de exemplo, porque há quem faça isso em "raves". Mas vocês me entenderam.
No final das contas, o que me impressiona é a quantidade de gente disposta a assistir ao programa passivamente, como se fosse carne de vaca torturar uma criança ao vivo. Curioso que tanta gente assista ao programa para ver a menina dizer bobagens e o patrão fazê-la passar por situações assim. Vou eu por aqui perdendo a fé na humanidade. "Esses tempos bocó de mola", diria meu saudoso pai. Porque assusta.
E agora estou vacinado: nada mais me surpreende vindo da TV.
às 14:46 0 comentários Marcadores: Mídia
Rádio: Mark Lanegan - One Way Street
Não é a minha preferida de Mark Lanegan, mas está entre as mais legais. O cara é muito subcultural para aparecer muito no YouTube, sabe como é.
One Way Street:
às 10:51 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
Se ela...
Se ela voltar a me querer
com os seus olhos doces,
e o sorriso que me faz derreter,
Eu corro.
Se ela me aceitar por amor,
eu digo; meu bem!
Nunca esqueci da minha flor.
E eu morro.
Se ela me abraçar outra vez,
mostro que sei amar também,
e que não resta lágrima na minha tez.
Eu fujo.
Se ela me der carinho...
suspiro como uma alma do além!
E sorrio por ela de novo no meu caminho.
E eu sonho.
Se ela disser que me ama!
Que os anjos digam amém.
Porque a distância não apagou a chama,
do meu coração, que sempre foi seu também.
Se ela voltar.
Eu morro.
Eu corro,
eu fujo.
Fujo pros seus abraços.
Corro nos seus carinhos.
Morro por seus amores!
E a aperto nos braços.
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Ser ou não ser
Eu já quis ser muita coisa. Aos 6 anos, não tinha jeito, seria eu um esculápio. Passou. Logo depois, e esse pode ser considerado meu sonho irrealizado, era ser piloto de Fórmula 1, desejei, e ainda desejo, ardentemente correr na Fórmula 1, mas é evidente que terei que deixar isso para outra encarnação.
Mas houve muitos matizes nas minhas frustrações. Eu já quis ser agente secreto, sempre gostei de mistério e, confesso, as histórias do Frederick Forsythe eram muito fodas. Já quis ser mafioso, tenho um interesse especial por máfia. Considerei ponderadamente a possibilidade de ser engenheiro porque sempre gostei de como as coisas são feitas e de como funcionam - uma guria uma vez, numa esbórnia pós-vestibular, disse que eu era poético para explicar o funcionamento de motores, pode ser que tenha me dito isso pela bebida, mas eu prefiro acreditar que eu encontro poesia e transmito-a mesmo em meio a pistões, bielas e cabeçotes. Acabei, que desgraça, indo parar no jornalismo porque um dia resolvi que gostava de ler, de livros, de literatura e, em decorrência, de escrever.
E gosto da minha profissão. Mesmo. O problema é que ela não gosta de mim. Provavelmente não goste de ninguém, o que é problema dela, recalcada. Mas eu acho o jornalismo bacana, eventualmente até importante, contudo sem ser partidário como tantos dos meus colegas, como todos os meus ex-professores. A gente nunca teve essa bola toda, eles são muito cheios de si. Odeio generalizações.
E... eu ia falar aqui sobre como nasceu meu interesse por ser piloto de Fórmula 1. Agora me parece um assunto tão desimportante e carente de mérito que, está resolvido, de uma penada, traçarei o quadro: via as corridas com meu pai pequeno, Senna era o cara, ganhava tudo, era divertido, coisa de menino, carros, barulho, velocidade, o ufanismo que eu não compreendia, mas empolgava-me, o Bem e o Mal, (Senna x Prost, Senna x Mansell). Pronto, achei que aquela era a maneira de ser heroi, e todo menino quer ser um, a partir do momento que descobri que, além do Papai Noel ser meu tio, do coelhinho da páscoa não existir, que, e ainda me pergunto como superei, Homem-Aranha e Wolverine serem apenas quadrinhos, me pareceu que arriscar o pescoço a 300 por hora mundo afora era a coisa mais heroica a se fazer.
Ponto, parágrafo. Expliquei. E não achem que é pouca coisa, eu sonhava mesmo com isso, a ponto de ficar numa béde quando caí em mim, lá pelos 13 anos.
Esse texto está para ser terminado há umas semanas. E eu estou aqui sem saber como concluir, não me vem na cabeça nenhuma gracinha e, o que é pior, um fecho digno para esse post. Pior que doença.
Fazem 15 minutos Nenhuma ideia. Cheguei a tentar auto-ajuda para remendar esse post desengonçado, dizendo pra mim mesmo: vai lá, cara, ARRASA!.
E, de fato, ARRASEI! Com a minha auto-estima.
Pronto, temos a gracinha.
às 20:02 0 comentários Marcadores: Fórmula 1, Memórias
Faces
Eu começo, ela termina;
Eu esqueço a letra, ela completa a música;
Ela é a razão, eu choro com livros;
Eu sou o grito, ela fica em silêncio;
Eu ando correndo, ela sempre chega atrasada;
Seus olhos são grandes, os meus são da cor de lodo;
Ela acorda cedo, eu só depois do meio-dia;
Ela mora com os pais, eu vivo no relento;
Ela não sabe dirigir, e eu já corri o mundo;
Eu não tenho regras, ela tem hora pra chegar em casa;
Eu digo "eu te amo", ela lê poemas.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Woody Allen salvando os anos
Não lembro quem disse, mas "por pior que seja o ano, ele ao menos terá uma coisa boa: um filme do Woody Allen".
E é verdade.
Trailer de Whatever Works:
às 20:42 0 comentários Marcadores: Cultura, Entretenimento, Memórias
Navegar é preciso
Eu vivo nas sombras das minhas tormentas.
Navego pelos sonhos.
Atravesso as vagas, venço batalhas horrendas.
Navegar é preciso.
Mas se o barco afundar e for ao fundo,
eu não me lamento.
Já perdi amor demais nesse mundo.
Ah, as crianças
Fui dia desses passear com a minha afiliada. Conta hoje oito anos, a menininha. Uma graça, como são todas as crianças, e eu adoro crianças. Gostaria um dia de ter muitos filhos, adotar outros muitos e viver em meio às crianças, porque elas me divertem profundamente com seu jeito de levar a vida.
Íamos os dois no carro conversando sobre as amiguinhas invejosas e as peraltices dos meninos. Foi motivo de consternação para ela quando lhe contei que eu, quando somava meus 6 ou 7 anos, tinha o prazer insuperável de correr com besouros atrás das cabeludas meninas e pô-los, os besouros em seus cabelos compridos, pois sabe-se que o inseto gruda-se tenazmente, e há uma certa aversão, naqueles dias e ainda hoje, absolutamente incompreensível para mim entre mulheres e insetos inofensivos. Elas gritavam, e eu adorava.
Superado o trauma dessa revelação, o milagre da descoberta nem sempre é uma coisa bonita, e ia eu fazendo as micagens que só tenho coragem de fazer na frente dela, porque se fizer perante outra pessoa, me sentiria ridículo até a espinha. E ela ria. E eu adorava.
Ela dedilhava a tela do iPod, maravilhada com a tecnologia, se divertindo ao escolher clipes, filmes, episódios de Life ou House, músicas. Até que parou numa foto. E fez perguntas. E criança se arma de perguntas, como larga literatura nos tem mostrado, e nós executamos as mais variadas manobras para encontrar respostas adequadas e que deem sentido às perguntas.
- Quem é na foto?
- Deixa eu ver...
Devo ter quebrado umas 20 leis federais para pegar o iPod e ver a foto, enquanto dirigia - eu sou bom de boleia, considerem que sou um piloto de F1 frustrado, eu sabia o que estava fazendo, bolas. E vi de que foto se tratava e pensei, "a-há, agora encontre uma boa resposta..."
- Ah, é uma pessoa - por certo que é uma - que conheci - se tenho foto... - e que não vejo há algum tempo, por isso carrego a foto, assim posso ver quando me der vontade. Sabe como é, saudade, você sente saudade de alguém?
- Sinto... - aí ela ficou um tempo falando das saudades do meu irmão, acho que foi a primeira experiência que ela teve de morte próxima, daí a referência.
Mas não saciei a curiosidade. Ela se armou de "qual é o nome?", "de onde você conhece?", enfim. Ah, as crianças. "Como eu te disse, é uma pessoa muito importante, que foi embora".
- Ela morreu?
- Não, não morreu não. Mas foi embora.
- Mas ela também gostava de você?
- Presumo que sim.
- O que é presumo?
- Quis dizer que imagino que sim.
- Então porque ela foi embora?
- Ah, é complicado...
- Como assim?
- Foi embora porque quis, ué. Não sei, foi.
- Ahhhhhh...
...
- Que foi?
- Igual na novela?
- Hahahaha, que novela?
- Quando alguém vai embora, as pessoas ficam tristes e dizem que é complicado. Mas não é, as pessoas mentem nas novelas.
- É, provavelmente é como na novela. Mas é que é complicado.
- Hum...
Mas na verdade não é complicado. A gente complica, a gente dificulta, a gente dá com a cabeça nas paredes. A gente faz bobagem atrás de bobagem pra consertar as bobagens passadas e vai se arrastando indefinidamente. Um horror. Acho que muito do meu fascínio pelas crianças reside nessa simplicidade, nessa (te esconjuro) objetividade com que enxergam as coisas. E provavelmente por isso que protagonizo atitudes idiotas, me baseio muito nisso e, claro, dá errado. Todos parecem, no final, querer viver numa novela. Menos eu. Ou é o contrário? Palavra que já não sei mais.
Eu não gosto de novela, tenho orgulho e galhardia em gritar pros quatro ventos que a última que vi foi o Cravo e a Rosa, e mesmo antes dela, a última tinha sido a do Rei do Gado. Não sou, precisamente, uma autoridade no assunto folhetim televisivo, mas tenho cá comigo luzes que cheguem pra saber ao que ela se referia. E é por isso que morri de medo das perguntas.
- Ela é bonita.
- É.
- Qual é o nome dela?
- Você vai querer sorvete? Sabe, tá frio pra sorvetes. Talvez a gente coma batata-frita, como da última vez, lembra? Batata? Quer? Não tá com fome? Tá com frio? Ligo o aquecedor, se quiser.
- Hahahahahaha, você faz igual na novela.
É. E quem, por esses dias, não vai dizer que vive numa?
às 14:33 0 comentários Marcadores: Memórias
Trovas do jardineiro
No jardim há flores e arranjos,
e há a rosa cálida e tépida,
que amanhece os dias coroada pelos anjos
e idealizada na mentira pérfida,
de que não existe de verdade.
Mas há quem olhe por aqueles espinhos.
Há quem desarrume suas pétalas de saudade
quem trate de suas dores, quem lhe afaste dos ninhos,
quem se morda com tamanha maldade,
da flor que não existe nos meus caminhos.
De todas as vezes que morri na verdade,
digo que gostava de viver na mentira.
Onde não havia a crueldade,
de negar que a flor nada sentira,
ao me ver morrer de saudade!
terça-feira, 19 de maio de 2009
RPM
Desisto.
E assim já não existo.
Recomeço.
E assim me despeço.
Resisto.
E assim insisto.
Derrota-me.
E assim apaixono-me.
Fugimos;
E assim somos infelizes.
Fórmula 1 nas ruas
Estou vendo que será um desafio manter essa seção, porque é difícil achar curiosidades que interessem a quem não se interessa, sentiu o drama?, pela Fórmula 1. Mas eu sou teimoso. Vamos tentar.
Nesse fim de semana tem o Grande Prêmio de Mônaco, que acontece, não diga, em... Mônaco. Trata-se, qualquer colegial sabe, de um enclave, uma cidade, que é estado, entre a França e a Itália. É um dos lugares mais caros e chiques do mundo, e a corrida de F1 lá é a que tem mais charme, tradição e glamour. Mônaco é um barato, conforme as imagens mostram.
E a prova lá é realizada nas ruas do principado. O lugar é muito pequeno, e eles preferem aproveitar o espaço para mansões, não para autódromos. Como todo o lugar é bonito, há uma considerável porção da pista que dá para o mar, tendo sido comum nos anos 1950 que carros caíssem no oceano em virtude de algum acidente. Além disso, estrelas do cinema, da música são vistas pela pista, e quem dá o prêmio ao vencedor no final é a família real, enfim, há todo um charme.
Pensando nisso, em Fórmula 1 na rua, lembrei do vídeo abaixo: a equipe Red Bull, aquela mesmo, que dá asas, segundo afiançam anos e anos de reclames, realizou em 2006 um evento promocional às vésperas do Grande Prêmio do Brasil daquela oportunidade e pôs, para alegria do cidadão paulistano perturbado com o trânsito, um F1 para rodar do Theatro Municipal até o Ibirapuera, pela 23 de Maio:
às 17:20 0 comentários Marcadores: Fórmula 1
Porquês
Eu escrevo pra te encantar.
Eu não rimo pra te encontrar.
Eu te amo pra viver.
E vivo pra te amar.
Eu sorrio pra te dizer.
Eu quero mais é te lembrar,
de me querer.
de me amar.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Trotes?
Só pode ser um trote. Porque havia todo o ruído, a voz indistinguível e o inesperado.
Trote, só pode ser trote.
às 16:40 3 comentários Marcadores: Memórias
Como fogem os poemas?
O homem chegou apressado;
mas o que o deixara nesse estado?
Soube, houvera ele perdido,
seu poema, que tinha olhos.
"Estou com o peito ardido!"
Disse ele ao contar toda a aventura,
Tive pena de mais essa desventura,
De mais um poema que correu,
e mais um amor que morreu.
Velharias
Ainda correm nas minhas veias,
pedaços de sonho invisível.
É a sua falta que me faz tão sensível,
e enche meu peito de teias.
Escrito a giz
Ah, Quintana...
Te juro:
se me levar às lágrimas,
mais uma vez,
te espremo nas páginas,
te deixo nas traças,
corro, fujo pelo mundo,
ando pelo universo,
e tudo isso, no fundo
só para não admitir,
que a verdade que me diz,
não me faz sorrir,
está escrita no coração de giz.
É tudo um jeito para mentir,
só para dizer que esqueci,
mas lembro de sentir,
o que devia ignorar,
ainda que pra isso tenha que me matar
um pouquinho mais assim,
e te abandonar pelo bem
do restinho que sobrou de mim.
Eterno retorno
Em todas as vezes que morri,
deitei um pouco de mim na cova.
Ressuscitei, corri.
e me abracei na esperança da vida nova.
E aí me decepcionei
Nas vezes que levantei,
encontrei flores nas minhas estradas,
e de todos os caminhos em que andei
o único que esqueci foi justo aquele,
onde você vivia pelas madrugadas.
A vida é buscar encontrar estradas percorridas,
onde deixamos algo de bom que nos falta.
É triste caminhar e não encontrar nas minhas morridas,
a alegria distraída que hoje te assalta,
e ilumina esse seu sorriso e tuas mãos floridas.
Invernos em nós
No dia em que pela madrugada,
eu for como a neve ao vento,
e encontrar a sua pele orvalhada,
vou lhe trazer todo o acalento.
E serei, mais uma vez, como o nada.
No dia em que eu for coração,
e for quente como o calor
vou trocar o inverno de estação.
e te dar no frio todo um novo amor,
todo ele de sol, feito de verão.
domingo, 17 de maio de 2009
Eu Zacaria, tu Zacarias
E eu vou marlonbrando tudo até o fim.
Assim como tu zacarias, se pudesses.
Eu olavo de tudo, afinal.
Tu tobias aqueles momentos.
Enquanto vamos orlando,
pra lá e pra cá.
Talvez assim eu também pudesse jair,
pra logo depois nostradamus tudo outra vez.
Ah, as palavras do mestre
Morreu hoje o poeta uruguaio Mario Benedetti. Frio, direto, conciso, até objetivo, dirão alguns idiotas da objetividade. É o "abre" perfeito para um lide estoico, mas em regra, para uma matéria que diga que, afinal, morreu aos 88 anos o tal poeta uruguaio. Nelson Rodrigues diria: "uma merda. O fato em si é uma merda."
Não conheço, em absoluto, nada do poeta Benedetti, e a isso peço que ele, estando por hora onde esteja, me perdoe. Meu consultor particular em tudo quanto é tema vinculado a cultura de língua espanhola, que atende pelo nome de Júnior, sobrenome, Melhor Amigo, disse que conhece, de seu lado, algo do tal poeta, e que o tal é bom, tendo ele lido um livro de autoria do uruguaio quando de seus dias pelo Chile. Fico com seu julgamento, que normalmente converge com o meu, amigos que somos. De qualquer forma me constranjo um pouco a vir aqui falar dele de quem nada sei.
De toda forma, imagino que sentiria sua morte, caso fosse um leitor recorrente seu. Por certo que sentiria, eu chorei quando morreu Porthos, na caverna de Locarna (ou Locmaria? A conferir) no Visconde de Bragelonne - e ele era um personagem! Uma imaginação, um sonho, uma ideia, algo como O Cavaleiro Inexistente de Italo Calvino, Agilulfo, aquele que era feito de vontade, sequer existia de verdade. Porthos, assim como tantas figuras queridas, só vivem porque os lemos. Mais ou menos como em Emília no País da Gramática, de Monteiro Lobato, onde descobrimos que as palavras são mais saudáveis e vivas na medida em que as usamos. E esse parágrafo todo, à luz de A Arte de Escrever de Schopenhauer, é uma merda, porque parece que não escrevi nada usando ideias minhas, o que é o cúmulo do opróbrio de um autor na visão do filósofo tedesco. Em partes. Foi preciso algum fosfato para condensar isso tudo, afinal.
Chega de falar de livros e autores. Morreu o poeta, eis tudo, diria a perversa "objetividade" - sei - dos nossos tempos. Diria. Porque se você for agora neste link, e acessar o blogue de José Saramago, lerá toda a singeleza de um belo epitáfio, toda a leveza de um panegírico sincero, de belas palavras, bem colocadas. Um lide, sim senhor, lide que nenhum repórter de qualquer conglomerado seria capaz, porque é um lide que se dá ao direito de sentir e de lamentar uma perda. E a morte é isso, por mais que nos queiram dizer o contrário.
José Saramago.
Dá até vontade de dar uma morridinha para ganhar palavras assim: havia, agora não há mais.
às 21:20 0 comentários Marcadores: Atualidades, Cultura, Mídia
Música para meus ouvidos
Você pode até considerar exagero quando algum fã de Fórmula 1 diz que ouvir os motores berrando em 18 mil rotações por minuto pelos autódromos do mundo é música. Agora terá de concordar.
No vídeo abaixo, um Renault canta o hino da Inglaterra (ou da Grã-Bretanha? Ou do Reino Unido?), "God Saves The Queen". Isso é possível através de uma programação no módulo eletrônico que gerencia a atividade do motor, fazendo com que ele altere seu regime de trabalho na modulação da música, produzindo a melodia:
Em teoria isso seria possível nos motores dos nossos carros de rua, que são também gerenciados por módulos eletrônicos, conhecidos vulgarmente por injeção eletrônica.
Apenas para constar: é o Renault R25, de 2005, com o qual Fernando Alonso conquistou o primeiro campeonato mundial. O vídeo foi filmado no Festival de Goodwood de 2006, que é um evento de automobilismo muito cultuado na Inglaterra.
às 18:00 0 comentários Marcadores: Fórmula 1
Versos para combater o clamor
Um verso:
para amar.
Dois versos!
para viver.
Três versos:
para dizer adeus.
Quatro versos?
para se arrepender.
sábado, 16 de maio de 2009
Hans Donner já era
Eu simplesmente amo F1. Do reduzido número de coisas que eu realmente gosto, a Fórmula 1 é uma das mais importantes. Não perco uma corrida, sempre estou lendo sobre o assunto. Estou aos poucos criando um acervo de corridas antigas... enfim, é uma paixão.
Em muito alimentada pela meu maior sonho de criança, que era ser piloto. Lógico que não tive a menor chance de pô-lo, o sonho, em prática. Assunto para um texto, quem sabe, quando eu esteja inspirado a me queixar da vida.
Enfim, este post irá inaugurar uma nova categoria aqui no blogue: Fórmula 1. A ideia é, para não espantar meus sete leitores, a tanto custo garimpados em quase três anos de blogue, falar apenas de curiosidades e coisas interessantes da F1.
E hoje recomendo que façam a seguinte comparação: o primeiro vídeo, abaixo, é a vinheta da Rede Globo, para a transmissão das corridas. Na sequência, a vinheta da BBC (é a versão mais longa, usada na primeira corrida do ano, a versão que a BBC vem usando é mais curta, e começa aos 1:20 do vídeo - assim que eu tiver tempo, faço umas legendas para ele):
Abertura da Globo:
Abertura da BBC:
Se você for mais impaciente, pode ver a versão normal aqui.
E aí? Hans Donner tá bem desatualizado, certo?
às 20:29 0 comentários Marcadores: Fórmula 1, Mídia
O mundo sem ninguém
Dia desses, usufruindo de TV a cabo, tropecei num documentário do History Channel sobre como seria o mundo se a raça humana desaparecesse. É sensacional. Perceber a decadência dos vestígios de nossa civilização ao longo de décadas é uma impressão interessante, que nos faz lembrar o quanto somos todos episódicos no mundo.
Se você quiser baixar o documentário "O Mundo Sem Ninguém", vá aqui.
Mas... não é exatamente sobre isso que eu queria falar. Na verdade, não sei direito sobre que queria falar. Conversando com meu avô lembramos hoje o desastre de Chernobyl. Trata-se de uma cidade ucraniana onde havia uma usina nuclear e que explodiu, ainda nos tempos em que a Ucrânia era parte da URSS. Isso foi em 1986, antes, portanto, da queda do Muro de Berlim, que aconteceu em 1989 e azedou a vida dos soviéticos.
Lembrar dessa história tem todo um simbolismo especial na minha família e no meu meio. Somos por aqui decendentes diretos de ucrânianos, e a tragédia que se abateu em Chernobyl há 23 anos nos diz muito respeito.
Ninguém é capaz de precisar até hoje quantos morreram em função do desastre na usina. Há pessoas que ainda hoje sobrevivem com sequelas do acidente. Sabe-se, contudo, que mais de 200 mil pessoas foram evacuadas na região da catástrofe e que o local, onde ainda há grande radioatividade, estará limpo novamente daqui 1000 anos. "Foi uma tremenda cagada", sentencia, sábio, meu avô.
Em números, a explosão do reator expeliu radioatividade 100 vezes maior do que em Hiroshima. "Então por que não houve devastação como no Japão?", perguntei-me. Simples, pequeno gafanhoto, respondi, "ocorre que no Japão foi uma bomba, uma detonação nuclear. Ali explodiu um reator que expeliu a radioatividade que ficava restrita a ele". E só não há mais vazamentos porque o reator explodido foi isolado com sucessivas camadas de ferro, chumbo e concreto, criando o que chamam de sarcófago, de onde a radioatividade, espera-se, não pode escapar.
Como algumas medidas paliativas para reduzir a hecatombe foram tomadas, há alguns pedaços de Chernobyl em que pessoas podem andar sem problemas, desde que munidas de um medidor Geiger - aquele aparelhinho que apita quando há radiação - e que lhe dirá até onde você pode ou não ir. E é nessas excursões que surgem fotos incríveis, como as que selecionei e pus no slide-show abaixo (passe o mouse que a imagem para):
Com menos de 50 anos, Chernobyl, sem o controle do homem, está assim. E aí a gente vê o quanto somos fracos perante a natureza, no fim das contas. Há uma ucraniana que escreve muito sobre o tema, Elena Filatova, que resume bem a sensação de ver o espaço abandonado, morto e desolado de Chernobyl: "o problema de Chernobyl é que ela não deixa nenhuma esperança".
Falam que a esperança é sempre a última que morre. Pode ser. Mas sem dúvida ela é a primeira que adoece.
às 16:44 0 comentários Marcadores: História, Memórias
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Por que dente tem nervo?
Ok, provavelmente há uma excelente resposta, mas não há meios de que eu me convença, de que eu tolere um bom motivo para que dentes tenham nervos. Afinal, eles não são imóveis? Sua função não é apenas triturar o alimento? E não fazem isso através de movimentos voluntários da mandíbula? Diante de tudo isso, pergunto, pra quê ter nervo?*
Era o que me perguntava há dois dias. E na verdade ainda me pergunto, mas em menor intensidade. Sentando na sala de espera do dentista, o mesmo de uns 12 anos, pensava em qual seria a razão para que os dentes tenham nervos. Não a encontrava. Mas sentia que precisava dela antes que chegasse a minha vez de consultar. Sou um sujeito muito curioso.
O dente, um dos molares superiores do lado esquerdo, doía em virtude de uma quebra. E doía, meu Deus, como doía. Eu dizia a mim mesmo que o arrancaria sozinho se a dor não parasse. A dor de um dente, vim a saber depois pesquisando no Google, é comparável, em alguns casos, a dor do parto. Particularmente não acho que tenha me doído tanto assim, sempre achei de um heroísmo incrível as mulheres suportarem o parto, e emparelhar meu dente zoado nesse patamar me pareceu presunção. E herdo de minha mãe a característica de ser bastante tolerante a dor física, motivo pelo qual só fui procurar o dentista depois de quase enlouquecer de dor. Ingênuo, achei que passaria por si.
Mas o fato é que doía miseravelmente. Eu tinha vontade de dar com a cabeça nas paredes, não podia dormir direito e três comprimidos de paracetamol não tiveram o menor sucesso em sequer diminuir a dor. Foi uma noite longa. Percebi que diminuindo o fluxo de sangue para a região do dente, diminuia um pouco a dor. Passei, portanto, a deixar a cabeça levantada, o que acabou com minha noite.
Sozinho na sala de espera, pude me observar no espelho e finalmente compreender a expressão que diz que determinada pessoa tem o hábito de fazer "cara de dor de dente". Rosto franzido, cenho carregado, olho expremido e uma sensação de gravidade, seriedade estampada no semblante. É essa a cara de dor de dente.
Pensava ainda no porquê do dente ter nervo. E cheguei à resposta: pra doer. Só pode ser por isso.
Sentava na cadeira do dentista. Sujeito simpático, gosta de conversar, mas sempre me sinto mal nas suas consultas, porque adoraria conversar com ele, cordial, articulado e inteligente - fez especialização na Sorbonne, em Paris - mas é impossível responder com a boca escancarada e isso me faz sentir mal. Parece que mato a conversa; enfim.
Temos uma longa história, o dentista, eu e sua assistente. Ambos, a assistente e o dentista, parecem não envelhecer. Fernanda e Duílio. Pela diferença de idade é, ainda que preconceituosamente, difícil imaginar um enlace romântico. Mas como só os conheço dentro daquele espaço exíguo do consultório de esquina, me parece, muitas vezes, que ambos habitam ali. Como se vivessem no consultório, fossem autômatos, e não pessoas que têm famílias, memórias, projetos e vidas.
Lembro de uma consulta de rotina, há uns 8 anos atrás, talvez até mais, que o dentista implicou com a boa quantidade de cistos sebáceos na minha face e se ocupou em furá-los. Fiquei emputecido, externei, como todo adolescente babaca minha revolta em casa. Ele ficou sabendo. Hoje, sempre que me vê, lembra do episódio e eu me sinto um babaca. Acho que ele sabe disso e justamente por isso não me deixa esquecer a história. Contudo quero deixar claro que eu tinha razão: dentista mete-se com a boca. Quisesse eu uma limpeza na face, teria ido numa clínica de estética, ou num dermatologista. E folgo muito que, dessa vez, quando ele lembrou do evento, tenha dito algo assim. Posso dizer que, enfim, venci. Chupa, babaca.
Sentado ali, com a anestesia, me senti livre. Parecia que a dor, enfim, poderia ser vencida. Parecia que eu poderia esquecer o sofrimento que ela me causava. Eu me sentia como o personagem do filme "Como fazer carreira na publicidade?", que conta a história de um publicitário que um dia se depara com um furúnculo. O furúnculo cresce e toma sua vida, ganha personalidade. Parece ruim, mas é um excelente filme, uma mistura de comédia de humor negro e non-sense com um toque filosófico, profundo mesmo, da discussão dos valores dos anos 1980, sobretudo na ótica dos yuppies. Curiosidade: o filme era fruto de uma produtora de George Harrison, meu beatle favorito, que se ocupava em filmes alternativos e legais.
Me sentia como o personagem do filme, parecia que aquela dor profunda e latejante começaria a criar vida, a interagir comigo. O latejar incessante parecia me lembrar algo, querer discutir alguma coisa. Era uma sensação bizarra e claustrofóbica que teve fim em três agulhadas de anestesia.
Mas, como tudo na vida, a anestesia também teve seu fim. E eu de dente reconstruído, voltei a sentir dor. Em menor intensidade, é verdade, mas ainda dói. E só hoje, no terceiro dia, os analgésicos conseguem fazer algum efeito. Estou, pasmem, sentindo falta da dor. É como se eu quisesse conversar com ela, como se ela estivesse passado por aqui para dizer algo. E eu não perguntei, porque estava ocupado demais a expulsando e me lamentando miseravelmente, esperando a morte chegar.
Paciência. A vida é feita de palavras não ditas, verdades ignoradas. Sentimentos escondidos. A gente vive assim, se enganando. É inevitável. E só é ruim quando nos damos conta de que fazemos isso e que, por termos ido tão longe no enganar a si próprio, talvez, seja já demasiado tarde para uma verdade que conserte tudo.
Acho que o dente ainda vai doer, contudo. Mas sem a mesma intensidade, como se a dor agora fosse outra, mais administrável. A dor verdadeira, acho, não volta mais. Assim como a palavra não proferida, como vim a descobrir recentemente.
*Ah sim, a razão para que dentes tenham nervos, diz-me o dentista, é porque assim podem regular o crescimento de dentina, que é o tecido que compõe o dito cujo. Ainda acho que é só para doer. Unhas não têm nervos e crescem também. Idem para os cabelos.
às 17:18 1 comentários Marcadores: Memórias
O amor é importante, porra - II
Hoje eu estava fazendo minha ronda diária nos meus blogues preferidos - a maioria está na coluna ao lado - até que veio a vez do Marcelo Rubens Paiva, autor reconhecido do "Feliz Ano Velho", e que é um especialista, como definiu Marcelo Tas e como eu classifico ali nos links, no assunto da "asfaltização do homem pelas mulheres". Toda vez que penso nisso imagino aquela patrola esmagando tudo pelo caminho. Medo, muito medo.
Mas o fato é que fui ler o blogue do Marcelo Paiva e está lá: "o amor é importante, porra". Eu já tinha dito antes, eu que sequer estou morando em São Paulo, já tinha atinado para o fenômeno das pichações e dos lambe-lambe espalhados pela cidade.
Grandes merda. Ele só escreveu agora, muito tempo depois, mas o fez de maneira magistral. Observações simples e bem interessantes sobre o amor e a sua relativa importância nas nossas vidas. Confere lá, vale à pena.
E mesmo assim acho que poderiam começar a grafitar por aí: "Independência afetiva é importante, porra!".
às 12:51 0 comentários Marcadores: Memórias
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Versos calados
Com versos eu desafogo o coração.
Nos poemas adormecidos vivo a imensidão.
De todos os sonhos do mundo,
de todos os sentimentos lá do fundo,
que soçobram diante da infelicidade,
e pulsam com toda a intensidade,
da vida e do futuro desgarrado,
que te abraça e leva-te do meu lado.
Me deixando só, com os versos,
e todo um caminho de passos incertos.
Mark Lanegan, alguém afim?
1° de julho, show do Mark Lanegan em São Paulo. Tenho um ingresso na minha mesa de que posso dispor.
E, viva, dia 4 de julho será a palestra do Gay Talese em Paraty, na Flip. E no dia seguinte tem Zuenir Ventura. Não vou precisar escolher.
às 14:47 0 comentários Marcadores: Cultura, Memórias
O homem que falava com as flores
Ele podia falar com as flores
até que descobriu uma,
que falava com ele.
Essa era só mais uma história
mais um "era uma vez..."
mas ganhou vida
foi uma fábula cheia de cores
que viu vozes brotar nas flores
e o amor perecer nos homens.
Felicidade Interna Bruta
Imagine um reino distante, onde se mede o desenvolvimento da nação através do nível de felicidade que as pessoas, individualmente e coletivamente, conseguem. Parece lenda, conto de fadas, certo?
Mas não é. O lugar existe, fica nas cordilheiras do Himalaia, espremido entre montanhas e duas das nações mais populosas do globo, a Índia e o Paquistão. O nome desse lugar é Butão. Ão.
E foi curioso que eu visse essa notícia logo hoje, um dia tão chuvoso, tão frio, onde me dói miseravelmente um dos molares. Hoje em que me deparei com um senhor que tive que entrevistar, que em virtude dos maus modos que tem, não se deve buscar a menor intimidade com o tal. Hoje que ouvi Lanegan e pensei em tudo, e como sempre, fiquei no nada. Enfim, a verdade é que não havia dia mais propício para saber de alguma novidade no que tange aos assuntos da felicidade.
Definir felicidade é um desafio que muita dor de cabeça tem dado, ao longo da interminável sucessão de séculos, aos poetas, aos filósofos, aos profetas e aos bêbados. E até hoje ninguém alcançou uma definição do conceito amplo de felicidade. Em geral nossa era a compreende como um estado de espírito de abastança, onde nada nos aflige - e dá pra entender muito bem por que, afinal, ela, a felicidade, tem sido tão difícil de encontrar por aí, dando uma volta e sorrindo nos bares da vida - a não ser aquela que mora no fundo das garrafas, mais faceira, mas tão ordinária quanto a outra. A felicidade é uma senhorita muito cortejada e, se aprendi alguma coisa com as mulheres, é que quando mais se corteja uma, mais difícil esta tende a ser.
Embora os conceitos sejam difusos em relação a felicidade, há inúmeras possibilidades de sentir a tal. Há quem, como eu, seja feliz em sorrir para a pessoa amada, há quem encontre felicidade no trabalho, há quem seja feliz meditando. Há quem siga os ensinamentos do filósofo Odair José, que não é cachorro não e nos diz que, afinal, "felicidade não existe, o que existe são momentos felizes". Provavelmente ele está certo, ainda não se sabe de alguém que tenha podido encerrar a vida e, no limiar do primeiro passo para a eternidade, dito: "fui sempre feliz, não tive mágoas nem arrependimentos". Mas nada disso vem ao caso, porque enquanto nós outros estamos nos debatendo às voltas com as noções de felicidade, lá estão os butaneses medindo-a e colocando-a em prática, para a... felicidade da nação butanesa.
Nem alhos, nem bugalhos. Nem água, nem vinho. Nem tão pra lá, nem tão pra cá, e outras disparidades que tais, felicidade é, nos ditos de outro filósofo, Millôr Fernandes, "aquilo que você vai descobrir que era". O mal da felicidade é que é efêmera e só nos diz que se foi quando é já demasiado tarde.
O Butão está, perdão pela baixaria, cagando e andando para os mais diversos, e por vezes redundantes, conceitos de felicidade por aí encontráveis. Os butaneses resolveram também cagar e andar para a noção de Produto Interno Bruto, que orienta as nações dizendo, no cassino econômico, quais são as que ganham e as que perdem. Os butaneses perceberam que o jogo é muito injusto, estariam fadados sempre a perder e, em decorrência, a jamais serem plenamente felizes, o que é uma desgraça se você vive numa cultura impregnada nos valores orientais que pregam meditação e, mais uma vez ela, a felicidade.
Daí os butaneses terem desenvolvido o conceito de Felicidade Interna Bruta. E não são nada bobos, os butaneses, como uma leitura apressada poderia nos induzir a julgar. Nada disso. Arquitetaram por lá as mais diversas fórmulas matemáticas, quantificaram de tudo, encontraram medidas para sentidos humanos, individuais e coletivos, a ponto de poderem traduzir a felicidade em números e, por fim, em indicadores - que são a tara de qualquer economista, conforme se sabe - e que são o que as instituições como a ONU e o FMI precisam para determinar se a vida em determinado país vale a pena ser vivida, se pode ser vivida, ou mesmo se há algum tipo de vida.
Interessante. Os butaneses, talvez, estejam desenvolvendo a semente de uma nova doutrina política e econômica para toda a humanidade, o que seria deveras interessante no período assaz aborrecido de turbulências econômicas que redundam em tanta infelicidade. Mas talvez nada disso. Talvez estejam lá naquelas paragens escarpadas demais encontrando resposta para seus problemas. Só isso.
Mas só isso já vale um sorriso meio tímido por aqui deste que vos escreve. Sim. Eles trilham o seu próprio caminho, não seguem o nosso e parecem... felizes... com isso. Que sejam. E que me ensinem como ser também.
às 13:39 0 comentários Marcadores: Atualidades, Política
Platonismos
Deixe que ele exista.
Deixe que venha,
que cresça e que sorria.
Sorria pelos versos,
viva pelas rimas,
e chore as ausências da vida.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Símbolos
"... passei alguns anos sondando esses mistérios todos; desci nessas trevas insondáveis de um lado da vida, saí pelo outro, ignorando como e por que vivemos, como e por que morremos, pensando que Deus é um nome que me serve para nomear aquele que estou buscando; essa palavra a morte me dirá qual é, se é que a morte, no final das contas, não é mais silente que a vida..."
E eu, quem diria, um dia fui profundo.
às 17:04 1 comentários Marcadores: Memórias
Saudade de Pedra
Hoje estou triste como uma pedra.
Faço água nas minhas porosidades,
Choro os sedimentos do coração
e calcifico todas as minhas saudades.
terça-feira, 12 de maio de 2009
E se a moda pega?
A Universidade do Missouri passará a exigir que seus alunos do curso de jornalismo disponham de, no mínimo, um iPod Touch - que é um barato - ou de um iPhone, aparelinhos da Apple criados para a danação da raça humana, como se sabe.
Os eletrônicos em questão orçam, respectivamente, 230 e 250 dólares, e a universidade diz que, sem problemas, financia e dá uma ajudinha para que seus alunos possam adquirir os, odeio o termo, "gadgets".
Eu tinha, assim que vi a notícia, um repertório impressionante de gracinhas para vir aqui dividir com os caros sete leitores sobre a novidade. Mas perdi completamente a vontade. Sei lá, motivos não faltam para escrever um texto legal e colocar aqui.
Mas, como diria meu pai, "tá feroz".
às 09:23 1 comentários Marcadores: Atualidades, Tecnologia
domingo, 10 de maio de 2009
História de família
Diz Talese nas últimas páginas de "Reino e Poder":
"Garrett, que morreu com mais de setenta anos em 1954, era dono de uma casa de fazenda junto a um rio, muito perto do balneário de Ocean City, Nova Jersey, onde nasci e fui criado. Lembro-me, quando menino, de ver Garrett entrar na loja de meu pai: um cavalheiro distinto, usando invariavelmente chapéu azul-escuro e terno escuro, com longos cabelos brancos. Sentava-se às vezes durante horas, falando sobre a situação do mundo ou reminiscências do Times, assunto que fascinava meu pai, uma das três pessoas que liam aquele jornal, recebendo pelo correio, todas as manhãs, a edição de dois dias antes.
Depois que fui trabalhar no Times, meu pai me perguntou mais de uma vez se o nome de Garrett era mencionado por lá. Tive de dizer que não, nunca, e eu me perguntava se em algum outro lugar ele teria a fama de jornalista e contador de histórias que gozava em minha casa. Então, quando comecei meu livro sobre o jornal e não conseguia entender direito o estilo e o caráter de Ochs a partir das entrevistas e das leituras que fizera até então, encontrei um exemplar de "The American Scholar", de Richard C. Cornuelle, um escritor e consultor empresarial de Nova Iorque, que também fora amigo e admirador de Garrett. Foi por meio dele que consegui ler e tirar proveito de todo o diário de Garrett".
Se, de fato, eu conseguir ir nas duas palestras de Gay Talese e tiver a chance de conhecê-lo - vou tentar - me apresentarei como Garrett.
Seremos praticamente amigos, portanto.
às 08:27 0 comentários Marcadores: Cultura, Memórias
sábado, 9 de maio de 2009
Gentileza em falta
Aproveitei hoje o dia livre e fui numa chapelaria com um amigo. Enfiei na cabeça (ahn? ahn?) a ideia de comprar uma boina. E comprei uma bem bacana, acho que ficou legal. Tinha pensado num chapéu à la Gay Talese, mas desisti. Pouca gente conhece Talese e diriam que é coisa de emo, sabe como é. Vamos, neste caso, de boina.
Mas um episódio curioso, que já me aconteceu outras vezes aqui, deu-se na hora de pagar a conta. Entrei na fila do caixa pelo lado errado, inadvertidamente, mas me coloquei, afinal, no lugar certo para esperar. Poucos segundos depois, pelo lado certo, um homem de uns 35 anos entrou e foi direto ao caixa, ou seja, ele tomou minha vez.
Uma das mocinhas do caixa sorriu e vi seus olhos brilharem, pensei "putz, devia ter comprado essa boina há mais tempo". Pentelhésimos de segundo depois de o sujeito me roubar a vez, outro caixa folgou, o da mocinha, no exato instante que ela começava a sorrir. Me aproximei e ela me disse, em referência ao meu comportamento:
"O mundo precisa de mais gente como você!" - porque o paulistano comum provavelmente teria causado um pequeno escândalo por ter sua vez surrupiada. Devolvi dizendo que provavelmente é verdade, mas seria o caso de admitir que, muito mais que o mundo, São Paulo precisa de pessoas gentis - não como eu, tivesse o mundo mais Tertulianos e teríamos aí, meus amigos, um planetinha muitíssimo mais aborrecido e bem digno de pena. Enfim, infelizmente não foi minha boina à escocesa que cativou a mocinha. Mulheres.
Não foi a primeira vez que algo assim me aconteceu. Parece que ser gentil aqui em São Paulo é sinal de um refinamento e de uma índole inatacável. Penso que todos somos assim, na verdade, o problema é quanto tempo você fica testando sua resistência a truculência na megalópole. Parece que, com o tempo, as pessoas acabam criando um instinto meio selvagem, que vem bem a calhar nessa selva de pedra.
Eu continuo pacífico, calmo e misantrópico. Por isso me impressiono com gente mal educada nas ruas, nos ônibus, nas filas, em todo o lugar. Rio deles por dentro. Bobos, afinal "eles passarão, e eu passarinho". A vida é muito mais que pressa, que não leva a lugar nenhum, temos todos o mesmo destino.
E eu vou, provavelmente, perder a corrida da Fórmula 1 amanhã cedo, uma merda.
às 16:37 0 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Minha mente vai melhor de metrô
"São Paulo vai melhor de metrô", é o slogam que a Companhia do Metropolitano de São Paulo usa. Tudo vai melhor de metrô, e a vida iria muito melhor se tivessemos como embarcar em estações, cruzar o caos que ferve na superfície e desembarcar-mos rapidamente nos nossos destinos. A vida seria mais fácil, como São Paulo é porque tem, pouco é verdade, metrô.
Andei por três linhas, num horário mais sossegado - qualquer um que não conheça São Paulo ficaria chocado com o número de pessoas - de modo que cheguei rapidamente a rodoviária pra comprar a passagem de volta ao Paraná. Foi uma viagem sem incidentes, não topei com nenhuma pessoa interessante, não puxei conversa com estranhos, só pude, mesmo, ruminar alguns pensamentos.
Não sou de fazer balanços a respeito da minha vida. É um hábito que nunca tive e que, no fundo, julgo inútil: encontrar muito mérito nas nossas realizações passadas é como admitir a incapacidade de fazer melhor lá adiante. Mas me peguei pensando no que, aos 24 anos, posso dizer que realizei.
E é muito pouco. Com 22 anos Alexandre, o Grande, já havia conquistado todo o mundo conhecido daqueles tempos sanguinolentos, o que é muita coisa. Eu não tenho a menor pretensão de conquistar o mundo, é verdade, mas à luz do que tanta gente já fez com a minha idade, sinto, minha vida parece tão incidental, tão insignificante, tão miserável que, desconfio, não mereça nem a dignidade dessas linhas. Sequer o tempo que algum desocupado venha a gastar com esse texto.
E pensando nisso, sobre o acaso das coisas, percebi, e lembro de ter pensado nisso quando descia na estação da Sé pra trocar de linha, que minha vida é uma sucessão de acidentes. Aliás, tudo é uma sucessão de acidentes. O fato de meu bisavô ter escolhido o Brasil, e não os EUA. De minha mãe ter se apaixonado, de meu pai ter correspondido, de eles terem ficado juntos pela vã crença de que se amam e de que isso é o certo. Mesmo antes, o que levou as amebas a se unirem em organismos maiores, o que, enfim, deu origem a primeira célula, esse inesgotável, grande, maciço e incrível "Por quê?" que nos rodeia, que pode ser, pura e simplesmente, obra do mais impressionante acaso, acidente.
A sucessão de acasos incríveis que fizeram com que esse planetinha possa suportar - ainda - a vida. O acaso que fez você que lê me conhecer, e daí ter a questionável necessidade de ler meus escritos. Ou então o incidente binário que fez com que uma inocente busca no Google te encaminhe para esse escrito que inunda a sua tela agora. É tudo tão insuportavelmente casual na nossa vida que não encontro muito sentido em buscar sentido nela - e isso explica minha paz de espírito. Só o fato de algum tropeço evolutivo ter feito com que eu seja capaz de escrever este texto e ser lido já é tema para questionar, e muito, tudo o que nos damos direito de pensar sobre nós mesmos nesse mundo. Somos, não tem jeito, acidentes.
E é provavelmente por ter consciência disso que me ocupo em vivê-la, a vida. Se me expremessem a troco de extrair de mim uma gota de sabedoria, acho, que o que mais próximo disso encontrariam seria a lição de entender que a vida é um fenômeno instrinsicamente incidental, atrozmente esporádico, que o meu hoje é o que importa e que, "cada dia tem o seu mal". Minha maior qualidade não é a calma. É a compreensão da vida como um trânsito, e do fato de que na verdade ela é um porre de cicuta, que a gente vai bebericando aos golinhos, aqui e ali.
E é o contraste que vejo nos vagões e estações do metrô que me fascina tanto e me faz pensar tão profundamente sobre bagatelas. Observo as pessoas que se obcecam com horários, compromissos. O cidadão que xinga se você tiver a desdita de lhe interromper a ascensão na escada, as pessoas que caem no sono no sacolejar barulhento dos vagões porque estão estafadas de um dia pra lá de puxado. Eu me compadeço deles, sem dúvida, mas muito mais os lamento porque não são capazes, a meu ver, de medir a vida pelo que ela é. Parece que as pessoas tomam a vida, medem sua importância, não pela altura real que tem, mas pela sombra que projeta, que é sempre muito difusa, enorme, e que está muito distante da verdade das coisas. É como medir o poste pela sombra que ele marca na terra, você sempre vai superestimar a importância das coisas e sempre conhece-las-á distorcidas.
E isso talvez tenha a ver com a fuga, o medo, as tensões ridículas que interpomos entre nós e o que sabemos nos fará bem, nos fará felizes. O medo de encarar verdades, seguir a luz das coisas que valem à pena, o medo, enfim, de olhar para vida pelo que ela é, não pelo que queremos que seja. O maior dos males que a herança cultural judaico-cristã nos trouxe foi incutir na mente e no subconsciente das pessoas que há algum tipo de mérito na auto-flagelação, no sofrimento e na privação auto-impingidos.
Sofrer é ruim, ainda que inevitável. E é por isso que escolher o sofrimento é uma grande bobagem.
*Na foto a estação Brigadeiro do metrô. É a velha conhecida dos tempos de Curso A. e ainda bastante usada por mim.
às 05:05 0 comentários Marcadores: Memórias
Estrada nova
Ah, Oswaldo! Acho que o Roberto Carlos devia estar fazendo coisas assim:
"Estrada Nova" e "A Lista" são canções que você não ouve, você vive. Sente.
às 00:25 0 comentários Marcadores: Cultura
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Tudo o que precisamos fazer é...
Hugh Laurie é um ator sensacional. E esse vídeo um barato:
às 14:54 0 comentários Marcadores: Cinema, Cultura, Entretenimento
Poetizando
Poeta dos maus versos;
dos bons sentimentos,
dos sorrisos arrependidos;
E dos dias roubados.
Poeta sem vícios.
Nem qualidades.
Poeta das penas,
e das saudades.
Poeta de desventuras,
de versos e aventuras
Lágrimas e sorriso
em mais um verso indeciso.
terça-feira, 5 de maio de 2009
Reinvenção de mim
E eu que navego pelos ares
venho e vejo.
Sinto, um mundo de cores e vidas;
de dias e noites.
De alegrias interrompidas.
Deixo pra depois.
Postergo o sorriso.
Derramo a lágrima.
Levanto a cabeça, me arrependo.
Corro o mundo numa sístole.
Amo o sonho na diástole.
Vivo a vida num sorriso.
Abro os olhos e vejo.
Despedaço o peito...
Inicio o cortejo.
Sepulto o que há de bom.
Expulso o que há de ruim.
Me reinvento.
É na dor das luzes.
é no ocaso da saudade,
no peso das cruzes,
à luz de toda crueldade,
que sorrio e penso:
que vida, que amor!
Que dia mais intenso!
Bigode é hype
Ah, eu me divirto. Às vezes. Mas me divirto.
Cliquem aqui.
* Aos mais chegados, observem os créditos e fotos da matéria.
às 03:28 0 comentários Marcadores: Atualidades, Cultura
Verdades armadas
Poderia te dar todas as verdades
dos dias, das noites.
Mesmo dos sonhos.
Mas eu tenho medo.
Se te desse essas verdades,
você bateria com elas na minha cabeça.
Tetas, muitas tretas
Qual a sensação de acordar numa manhã de sol com o som de marmanjos urrando e fazendo escândalo na mesma proporção que o faria um esquilo se estuprado por um elefante? Horrível. Muito pior se você fizer parte do bando de marmanjos. Muitíssimo pior se você não sabe distinguir se há um esquilo, o que nos daria o direito de supor um elefante de libido desregulada, na mesma cena.
Logo que acordei disse pra mim mesmo que o domingo seria um dia de bizarrias. Começara mal, ou bem, questão de ponto de vista, com o transcendental show do Reginaldo Rossi, para o qual encontrei tempo e lucidez para algumas linhas já compartilhadas por aqui - apareceu até no CQC, o show, não as linhas. Mas não. O domingo não parou por aí, fui muito mais longe no que poderia suportar esse meu velho corpo carcomido, esse meu espírito ressabiado e essa minha índole decadente.
O show deu-se no Largo do Arouche, região conhecida do humorístico Sai de Baixo da Rede Globo, e permissiva a todos os trocadilhos de caráter sexual e de duplo sentido que o ser humano foi capaz de criar na longa história da linguagem - sabe-se que a região é fértil em mulheres liberais e mesmo de mulheres de gênero duvidoso, a tal ponto que é possível se dizer que no "Largo", hum, do Arouche abundam enorme fauna de mulheres de pinto. Pois é.
Ir e voltar incólume de uma região como essas, sobretudo bêbado, é sempre uma vitória. Não vale dizer que bêbado faz coisas que não se lembra e, portanto, é injusto duvidar do que fiz neste episódio. Eu tenho inúmeros lapsos de memória dessa madrugada, mas graças ao Deus dos bêbados, afianço-vos que da excursão ao Largo eu lembro tudo e não fiz qualquer bobagem, tendo de lá retornado com toda a dignidade.
Mas os marmanjos continuam gritando e vomitando desesperadamente. Que se fodam, poderia eu dizer. Mas não consigo dormir com gritos, e morro de medo que vomitem em mim. Sou sensível a essas coisas.
E aí me vem na mente a lembrança meio turva da noite. Os botecos da Rua Augusta. Coisa feia, barra pesada, cara. Eu lembro de alguém dizendo, ou teria eu lido nalguma parede?, que "mais vale uma teta na mão, do que duas no sutiã". Não há dúvidas quanto a isso, a questão é sempre a propriedade das mamas, e os humores da proprietária - parto sempre do princípio de que quem as tem é uma mulher - e disputá-las, as mamas, é sempre complicado.
- Cara, teta quem tem é vaca... - disse alguém. O que me deixou confuso, porque de tetas e de vacas entendo lá eu alguma coisa, de seios, parbleu, nem se fala. Particularmente, sempre gostei de ambos, seios e tetas, sobretudo quando nas minhas mãos. "Mas de que vaca falamos?" disse eu, porque é sabido que há aí uma enorme variedade de vacas, das mais leiteiras e das mais faceiras, o difícil sempre tem sido distingui-las propriamente umas das outras - e no meio de tudo ainda há as mulheres de fato, cada vez mais raras.
Lapso. Não sei em que caminho deu-se a discussão sobre tetas, vacas, seios e suas distinções. Não sei. É possível que tenha exemplificado um exemplar de vaca bípide, que são as de modalidade faceira, e a quem se pode classificar como portadoras orgulhosas e tetas, assim como suas pares ruminantes e quadrúpedes. Lembro de uma em específico, coisa antiga, tempos de faculdade de Engenharia Civil. Lembro de suas portentosas tetas e um dos amigos, que conhecia a parelha, condescendeu, lembrando do espécime em detalhes a ponto de dar o veredito: era, indisputavelmente uma vaca de duas enormes tetas a fulana. O que testifica para todo o sempre que, no fim das contas, não importa a qualidade de vaca, é certo que todas possuem tetas.
- Teta ou seio, é a mesma coisa, os têm as vacas de todas as qualidades e as mulheres também...
Generalizações nunca foram comigo, democrata subdesenvolvido libertário que sou, motivo pelo qual me senti compelido por um zelo ridículo em relação aos matizes femininos para defendê-las ferozmente. Vim a saber na discussão que, na verdade, em certa fase da vida todas as mulheres são portadoras de seios, em geral dispostos na parte superior do tórax e na quantidade de dois. A questão é o tempo, que como eu adoro repetir nos meus poemas ruins e nas minhas filosofias redundantes, é a medida da precariedade de qualquer coisa. Tudo oxida, evapora, esmaece, decai, some, morre. Dá-se o mesmo com os seios e com a índole de boa parte daquelas que os carregam. E é a decrepitude, segundo o parecer da distinta sociedade que discutia o tema, que torna seios em tetas. Não sei. Ainda acho que o que nos foi sempre seio tenderá a continuar assim para o resto dos tempos. É verdade que sou idealista demais, porém.
Mas o caso da índole que converte seios em tetas pode ser entendido no caso da menina que vira uma profissional do sexo, ou uma amadora do sexo, que são aquelas que topam qualquer parada pelo amor ao esporte (as outras topam a preços módicos e anunciam seus predicados por aí). Mas a, hum, digamos, amadora, pode - pode - ser chamada de vaca, o que classifica seus apêndices torácicos como tetas, embora dali saia leite apenas em período de gestação, dificilmente existam pelos, e seja tão bom de apertar como qualquer seio por aí. Características erógenas não encontradas, até aqui, nas versões ruminantes das tetas, salvo se o sujeito possuir uma líbido, a exemplo do elefante tarado do primeiro parágrafo, bastante desregulada.
Saber distinguir tetas de seios, e mulheres de vacas, é uma das marcas do homem bem resolvido, moderno e chorão, desses muitos de nós que se humilham vergonhosamente por mulheres que, na maioria das vezes, querem exatamente o contrário - ou não sabem absolutamente o que querem. Eu fiquei feliz em ver que sempre soube distinguir tetas de seios, embora isso não tenha me levado muito longe. Sempre soube, é verdade, mas mais por instinto de auto-preservação do que por qualquer outra coisa. Não tinha eu o arcabouço teórico no assunto que, doravante, me sobeja e que cá transbordo com todos vocês, meus sete leitores. O instinto de distinção de tetas e seios foi o que me afastou, por exemplo, da carreira de Roberto Carlos de Puteiro, coisa muito comum entre os meus amigos do tempo de ensino médio.
E estava eu feliz por lembrar de tudo isso quando me dei conta de que o escândalo cessara à minha volta. Babacas, me acordaram. Bêbado é foda. Odeio bêbados. Odeio todos os meus amigos bêbados, porque eles são muito idiotas bêbados e isso me irrita profundamente quando estou bêbado/sorumbático. Eu iria embora escondido, como sempre fiz nos anos de faculdade de qualquer festa, mas daqui não tenho pra onde ir. Dado momento, me batia um "ah, quer saber..." e sumia. No começo era divertido, nutria as preocupações de todos, ligavam-me desesperados para conhecer meu destino. Perguntavam se alguém havia me ofendido a tal ponto que eu não via recurso que não fosse pegar meu rumo. Mas com o tempo parou, perdeu o drama. O que só vem a provar que o tempo é o melhor conceito de precariedade já inventado e nos diz que, enfim, eu tenho razão em alguma coisa.
E daqui de São Paulo, nem muito bêbado, dá pra fazer isso, sumir bêbado e voltar pra casa. Não tenho refúgio - ainda - por aqui. Uma merda. Aguentei a zona toda olimpicamente. Vomitaram-se todos, cessou o escarcéu e eu posso agora dizer do que me lembrei ao escrever o parágrafo anterior.
Foi no papo que, depois de muito ponderar, levantei uma importante discussão de caráter científico quanto a viabilidade de uma classificação unilateral dos seios. "E as galinhas?" Que fazemos delas, que sabemos todos - ô! - que são aves, animais que põem ovos e que, sabe-se, em virtude disso, incapazes de amamentar e, em face a essa classificação, absolutamente privados de tetas. "Pois é, o que diremos das galinhas?"
E há muito o que dizer delas, das galinhas, que nos povoam a adolescência e nos tentam durante boa extensão, se não por toda, as nossas vidas. O que me lembra minha adolescência porra-loca, quando meus amigos, dos quais lembro só do nome de um, me chamavam pra ir em algum lugar comer umas galinhas. Eu sempre fui tapado. Nunca sabia precisamente a espécie da bazófia, e olha que gastronomia sempre foi-me um hobby. Freud explica. Há algumas passagens inenarráveis da minha curta e muitas vezes arrependida carreira de cafajeste nessa fase.
Lembro de uma festa de debutante. Era uma daquelas coletivas, reúne-se uma porção de adolescentes no limiar dos 15 anos, esbanjam-se fortunas, chama-se um ator global da Malhação, o que significa que é um babaca bonitinho, e pronto, temos um aniversário de debutante em regra.
A aniversariante era irmã de uma das mais comentadas galinhas de todos os galinheiros por mim frequentados naqueles tempos. Na verdade era uma daquelas festas coletivas. Sempre achei meio bobo o aniversário de debutante porque nunca entendi o que diabos de especial se comemora no evento, mas sempre guardei para mim a pergunta. Na ordem das minhas dúvidas existenciais, a distinção de tetas e seios vinha primeiro. Era uma questão mais profunda. Já resolvida, conforme parágrafos anteriores nos afiançam. No fim das contas era tudo uma questão de procurar nas fontes certas. Neste caso, no fundo das garrafas.
Provavelmente bebi demais naquela noite, não nesta, na da referida festa, porque fiz uma das minhas maiores besteiras. Sou pródigo em protagonizar asneiras monumentais, só que normalmente me orgulho delas - eu sou estranho, diria "um teorema", como definiu uma guria que foi capítulo de uma quase-asneira em janeiro de 2005 ou 2006, não lembro. Aliás, curioso, mas minhas asneiras sempre tem mulheres envolvidas. Isso devia me ensinar alguma coisa. Mas eu dizia, normalmente me orgulho das bobagens que fiz. Dessa particularmente, não. Teve significados e lições muito profundas, que mudaram muita coisa em mim. Pra melhor? Pra pior? Não sei. Já acreditei nas duas possibilidades.
A besteira em questão foi tirar pra dançar a supra mencionada galinha - e antes fosse só dançar com a ave. Ela deve ter voltado nas minhas sinapses alcoolizadas quando da classificação de seios, porque é um exemplo de aberração científica, a dar-se todo crédito à teoria das tetas, afinal tratava-se de uma galinha muito bem provida delas. Pareciam querer pular do decote. Provavelmente caberiam nelas todo o volume de uísque por mim ingerido naquela noite e, pensando no assunto agora, tantos anos depois, seria divertido beber dali... enfim. O que interessa é que a dança foi o evento inicial de uma série de desgraças na minha relação com as mulheres, e com as vacas, que parece não mais ter fim.
Juliana me ensinou a dor. Juliana me levou para a cozinha do clube. A cozinha não estava sendo usada naquela noite, ou pelo menos não aquela porção dela, que estava numa penumbra violenta. Meus instintos me avisavam, daí saíra merda, mas eu não ouvi. Ouvi o chamado das selvas, segui-a com o meu terno amassado, enquanto suas saias roçavam o chão e faziam um ruído que só poderia ser comparado ao andar de um fantasma naquela escuridão toda. Um fantasma que, fosse eu um apaixonado, poderia dizer que flanava sobre o chão, me conduzindo a um encontro romântico, único, apaixonado e inesquecível. Nada disso. Inesquecível foi, mas foi por conta de não ter sido romântico, único e apaixonado.
Chegamos lá. Amassos, nada de novo no front. Excitação, o lugar, o clima. O sentimento... que sentimento? Eramos dois estranhos, continuamos sendo-o para o resto de nossas vidas e duvido que o quadro se altere. Eu não sentia nada por Juliana, como não sinto nada pela gota de orvalho que rola por aí, sempre a esmo, mas sempre pelos mesmos rumos e sempre com as mesmas consequências, embora tenha sentido pela nuvem que a criou.
Enfim, Juliana sumiu numa volta no destino, sorte que parece reservada a todas as mulheres da minha vida, vacas inclusas. Nada demais, é assim com a maioria, sobretudo hoje que relacionamentos afetivos são roletas russas, com a diferença de que nesse jogo de morte você tem 6 chances em 7 de ser baleado, ao contrário do jogo tradicional, onde é 1 pra cada 7 tiros. Hoje em dia, meu amigo, relacionamento que dá certo, que não acaba, é exceção, não regra. Olhem as estatísticas.
E eu não sei porque gasto tanto verbo com Juliana, de quem sequer lembro a cor dos olhos. Poderia escrever sobre tantas outras coisas, igualmente desimportantes, mas com o mérito da sobriedade. Assim como não sei porque comecei a falar de bêbados escandalosos, das disparidades entre seios e tetas, bem como entre suas portadoras. E acabei em Juliana, por certo portadora de dois, mas de quem mal lembrava, de quem tenho a lembrança de uma troca de carícias sem sentido, sem sentimento, casual e tão banal como qualquer outra, porque hoje, à luz dos fatos, parece-me que foram mesmo todas assim.
Eu disse que Juliana me ensinou a dor. Me ensinou, na verdade, vários tipos de dor. A dor do sexo vazio, sem sentimento, banal, a idiotice de usar as pessoas como um instrumento hedonista vago e descompromissado. Com Juliana aprendi que era homem de coração, por mais que as consequências disso sempre tenham sido desagradáveis. Com Juliana aprendi que sexo, de qualquer natureza, é uma experiência eminentemente solitária e que a maior das alegrias é poder ao fim abrir os olhos e encontrar a pessoa amada - e privar-se disso dói. Com Juliana resolvi mudar minha concepção do amor, e isso sempre terminou mal - outra dor que lhe devo. Com ela senti a dor de não dizer "eu te amo" quando tenho vontade pela primeira vez - só que no caso dela eu não sentia nada, eu tinha a necessidade de dizer que amava em função do que acontecera. Juliana me ensinou muito mais coisas, nenhuma delas impublicáveis, fiquem tranquilos, mas que guardo pra outra ocasião, porque bêbado de olhos umedecidos é clichê demais até pra mim.
E, só para não perder o costume, vem a gata branca roçar-me as pernas. E só para não perder o costume do fecho da crônica, por mais que hoje já tão sem sentido, para não perder a chance do belo chiste, posso olhar para ela e dizer que sou uma pessoa profundamente feliz(?).
às 00:07 0 comentários Marcadores: Memórias
