Ah, a TV. Eu sou muito inocente, confesso. Aliás, embora debochado, tenho o mau vezo de ser lá algo idealista, o que me reserva sempre desgraças. Quanto maior a projeção, a idealização, maior o tombo. Enfim, cá comigo entendo-me eu.
Mas e o que dizer da TV? Eu, podem rir a bandeiras despregadas, conforme dizem os antigos livros que as pessoas riam, e se parar para pensar, em bandeiras despregadas, de fato, deve ser esse um riso bem gostoso, daqueles soltos, abanando de alegria. Dá até para dizer hoje, à luz do progresso, que as pessoas riem como bonecos de posto, aqueles ventilados, que animados por uma intensa corrente de ar, parecem fazer as maiores estripulias. É o mesmo princípio das bandeiras. A vantagem está em modernizar um pouquinho, na onda dessas reformas ortográficas, a expressão. Riam-se, portanto, a bonecos de posto da minha inocência.
Eu acreditava que não dava pra piorar depois do BB, o fenômeno do Big Brother, que sabemos todos, brotou lá na Holanda. País simpático. É comum que fiquem os holandeses às voltas com seus diques, com sua prostituição legalizada, livre comércio de maconha, moinhos, suas vacas leiteiras que, consta serem as melhores na arte, bem como outros etcéteras. A Holanda não fede e nem cheira, em resumo sem eufemismos. Sequer afunda, eles têm os diques.
John de Mol é o nome do sujeito que bolou o "programa". Na sua concepção seria uma novela da vida real. Sei. Se for da vida real não é novela, mas não vale à pena discutir isso, ainda mais com um sujeito desses. O oceano de ridicularias que brotou do primeiro Big Brother, lá em 1997, restrito ainda a Holanda, deveria ter me avisado do que viria pela frente. Eu deveria ter me preparado. A fórmula, curiosamente ainda longe do desgaste, todos conhecem: escolhem-se babacas à dedo, todos marcados por diversas insuficiências morais, mentais - mas nunca físicas - fecha-se a distinta sociedade composta nalgum espaço, espalha-se as câmeras e vê no que dá. De brinde você leva um apresentador babaca, "celebridades" e as intermináveis, e tão agressivas ao meu fígado, discussões pelas ruas sobre quem merece vencer. O resto é história. Das bem bestas, inclusive. "De se perder a fé na humanidade", como diria um querido professor.
Ponto, parágrafo. Jamais confiarei num holandês novamente.
E, convenhamos, eu já tinha visto Ratinho espetacularizar deformidades físicas. Depois veio o BBB. Aí teve o Pânico na TV e eu ali, achando que nesse buraco ninguém poderia ir mais fundo - já tinha até me conformado com o Milton Neves. Bobagem. Das grandes, aliás. Há sempre tempo para alguma bobagem maior. E não falta, aí é que está o busílis, gente para promovê-la. E pior, achar legal.
É o caso do veterano Silvio Santos. Todos gostamos do Silvio Santos. Uns mais, outros menos, é verdade, mas o fato é que se há uma criatura perto da unanimidade neste país, esta é Silvio Santos - por mais que "toda a unimidade seja burra", conforme nos adverte Nelson Rodrigues. Tão icônico é Silvio que não consigo, cá com essas desgastadas teclas, imaginar um domingo sem o conforto de ver Silvio Santos repetindo os mesmos bordões, apresentando os mesmos programas, tudo sempre igual e repetido à exaustão, para deleite dos aposentados, seu público mais fiel - experimente falar mal de Silvio Santos ao meu avô.
Mas isso não quer dizer que ele esteja imune a burrice dos nossos tempos, sobretudo aquela que se irradia pelas ondas da TV. Me refiro à pequena Maísa que, vim a saber há pouco, completa hoje, 22 de maio, sete anos de idade. Putz. Eu com 7 anos fazia muitas coisas, mas nada que chegue perto a me expor em cadeia nacional. E, pior, da maneira com que se expõe essa menina.
Nada contra. Ela tem pais, eles lá que se resolvam, porque ela vai crescer. E vai ser adolescente. Azar o deles. O que me incomoda, e muito nessa história, é ver a que ponto chegamos na tolerância ao ridículo. Nas últimas três semanas a menina foi vítima, e vítima é a palavra certa, de situações de extrema vergonha e humilhação, levadas a cabo pelo patrão. E só agora começam a se incomodar. Os pais? Não. Pelo menos não publicamente.
Tem acontecido de tudo naquele palco, sem que muita gente tenha se incomodado com os limites. Coisa brava, do tipo colocar a criança aos gritos numa mala e arrastá-la. Aterrorizá-la com um menino maquiado pelo prazer de fazê-la gritar. Lendo aqui e ali, a direção do "Programa Silvio Santos" esclarece que não há roteiro para as situações que surgem, não diga, espontâneamente entre Silvio e Maísa. Ok. Mas não há limites?
Silvio Santos perdeu o juízo? Aterrorizar uma criança hoje em dia dá Ibope? Fazê-la passar por situações extremas - ela tem 7 anos hoje! Até os 6 crianças não distinguem o real do falso - vale à pena?
Não chego ao reacionarismo (existe? Perdoem o neologismo, em todo caso) tacanho que nos diz que a TV influencia. Não acho que crianças serão carregadas em malas porque Silvio Santos acha legal. Aliás, sou muito contrário a este tipo de discurso: fossem, por exemplo, os jogos de vídeo-game tão capazes de influenciar pessoas, estaríamos todos na minha geração que jogaram Pac-Man andando em salas escuras, tomando pílulas mágicas e escutando músicas repetitivas. Ok. Fui mal de exemplo, porque há quem faça isso em "raves". Mas vocês me entenderam.
No final das contas, o que me impressiona é a quantidade de gente disposta a assistir ao programa passivamente, como se fosse carne de vaca torturar uma criança ao vivo. Curioso que tanta gente assista ao programa para ver a menina dizer bobagens e o patrão fazê-la passar por situações assim. Vou eu por aqui perdendo a fé na humanidade. "Esses tempos bocó de mola", diria meu saudoso pai. Porque assusta.
E agora estou vacinado: nada mais me surpreende vindo da TV.

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