Morreu hoje o poeta uruguaio Mario Benedetti. Frio, direto, conciso, até objetivo, dirão alguns idiotas da objetividade. É o "abre" perfeito para um lide estoico, mas em regra, para uma matéria que diga que, afinal, morreu aos 88 anos o tal poeta uruguaio. Nelson Rodrigues diria: "uma merda. O fato em si é uma merda."
Não conheço, em absoluto, nada do poeta Benedetti, e a isso peço que ele, estando por hora onde esteja, me perdoe. Meu consultor particular em tudo quanto é tema vinculado a cultura de língua espanhola, que atende pelo nome de Júnior, sobrenome, Melhor Amigo, disse que conhece, de seu lado, algo do tal poeta, e que o tal é bom, tendo ele lido um livro de autoria do uruguaio quando de seus dias pelo Chile. Fico com seu julgamento, que normalmente converge com o meu, amigos que somos. De qualquer forma me constranjo um pouco a vir aqui falar dele de quem nada sei.
De toda forma, imagino que sentiria sua morte, caso fosse um leitor recorrente seu. Por certo que sentiria, eu chorei quando morreu Porthos, na caverna de Locarna (ou Locmaria? A conferir) no Visconde de Bragelonne - e ele era um personagem! Uma imaginação, um sonho, uma ideia, algo como O Cavaleiro Inexistente de Italo Calvino, Agilulfo, aquele que era feito de vontade, sequer existia de verdade. Porthos, assim como tantas figuras queridas, só vivem porque os lemos. Mais ou menos como em Emília no País da Gramática, de Monteiro Lobato, onde descobrimos que as palavras são mais saudáveis e vivas na medida em que as usamos. E esse parágrafo todo, à luz de A Arte de Escrever de Schopenhauer, é uma merda, porque parece que não escrevi nada usando ideias minhas, o que é o cúmulo do opróbrio de um autor na visão do filósofo tedesco. Em partes. Foi preciso algum fosfato para condensar isso tudo, afinal.
Chega de falar de livros e autores. Morreu o poeta, eis tudo, diria a perversa "objetividade" - sei - dos nossos tempos. Diria. Porque se você for agora neste link, e acessar o blogue de José Saramago, lerá toda a singeleza de um belo epitáfio, toda a leveza de um panegírico sincero, de belas palavras, bem colocadas. Um lide, sim senhor, lide que nenhum repórter de qualquer conglomerado seria capaz, porque é um lide que se dá ao direito de sentir e de lamentar uma perda. E a morte é isso, por mais que nos queiram dizer o contrário.
José Saramago.
Dá até vontade de dar uma morridinha para ganhar palavras assim: havia, agora não há mais.

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