Quando eu paro pra pensar nesse assunto, e confesso que nos últimos tempos ele vem sumindo cada vez mais da minha mente, tenho sempre a sensação de que foi muito cedo. Acabou rápido, de uma forma repentina e impensada, o que significa sempre muita dor. E doeu em mim. Significa também que tudo acaba de uma forma errada, dolorida, surreal. A sensação de que não devia ser assim, de que há algo para consertar. E que tentar valeria à pena.
Lembro que era de manhã. Aliás, era sempre de manhã que compartilhávamos alegrias incríveis. Eu era muito inocente para compreender tudo, mas era feliz e isso que importava. Até que tudo acabou.
E apesar dos precedentes, não era para terminar, afinal, havia ali tanto sentimento, tantas alegrias, tantas histórias, tanta entrega. Olhando em retrospecto o choque foi realmente impressionante, mas de uma maneira geral, já se viu vítimas de traumas maiores saírem andando, sem sequer acusar o golpe. Sem precisar levantar, porque sequer caíram. Mas daquela vez não seria assim, eu estava fadado a sucumbir nas dores das minhas lágrimas.
Lembro que acordei tarde naquele dia. Não conseguira levantar no horário - era fim de semana - e perdi o frescor do acontecimento. Contudo, lembro de tudo que veio depois, a dor, a tristeza, a comoção, a sensação de testemunhar uma história importante, mas amarga demais para ser contada, do fim de tudo e que hoje me parece já tão pueril.
Lembro muito bem de como reagi à notícia: chorei. Como todos mais, derramei as lágrimas, senti que perdia muito, que perdia tudo, uma boa parte de mim. Chorei, chorei escondido, lembro bem, no quarto de minha mãe, porque naquele momento me parecia o local mais isolado do mundo, o mais seguro para dar vazão aos meus sentimentos. Como uma redoma isolada, onde a dor que me consumia diria respeito à mim, que me via ali sumariamente solitário, absurdamente abandonado. Só e infeliz.
Ayrton Senna foi durante grande parte de minha vida um heroi. Aprendi com o tempo que ele era humano, que era capaz de atos mesquinhos, que fora em grande parte um produto midiático, que a sua obsessão pelo perfeccionismo não era saudável. Aprendi que não há heroísmo nenhum em vencer corridas de automóveis. Que suas vitórias eram dele, não do país inteiro em busca de redenção das suas misérias, dos seus fracassos, das suas vergonhas.
Mas não importa. Eu lembro com carinho a sensação de ter perdido um irmão, um tio em 1 de maio de 1994. A tristeza, o choque das pessoas. As freiras do meu colégio, as últimas pessoas que eu imaginaria capazes de comoção por conta da morte de um piloto, discursando com a voz embargada e pedindo orações pela alma daquela criatura que parecia tão forte, tão imune às angustias dos mortais, tão heroico que poderia vencer o tempo, a morte e a velocidade pela qual era apaixonado. Ele, naquele tempo, era um pouco meu também.
Organizaram uma exposição com objetos pessoais e até a Lotus amarela com que Senna disputou o campeonato de Fórmula 1 em 1987. Fotografei. Adoro F1 por conta dele e esse foi o segundo carro de F1 que vi de perto. Tirei fotos e prestei um tributo a um cara que, hoje, me diz pouco, talvez não mais do que um exemplo de desportista brilhante, de talento e competência em estado puro, mas que há uns 10 anos era um ideal de conduta, de comportamento, de vida mesmo, que eu seguia.
E talvez aí é que está o heroi Senna, por tantos buscado e por tão poucos encontrado: o sujeito, construído midiaticamente ou não, que é capaz de dar bons exemplos, inspirar pessoas a bons princípios e a boas atitudes. É um legado, sem dúvida, muito maior do que 6 vitórias em Mônaco, 41 vitórias na carreira e os três títulos mundiais. O sujeito que parecia de aço, que era uma força da natureza de dentro de um cockpit e que, ainda, tinha tempo para ser exemplo.
Muita gente naqueles tempos filosofou em público. Buscaram explicações para o inexplicável. Hoje, 15 anos depois do acidente na curva Tamburello, penso que poucos ainda são os que conseguem enxergar a verdadeira lição por trás do episódio: como diria Saramago, "certos estalos que damos, são para nos lembrar que somos caveiras". Senna parecia tão especial, tão imune, que nos esquecemos disso por um momento. O duro, como em qualquer perda, é o momento em que fomos forçados a perceber que nada, material ou sentimental, é para sempre.
Descanse em paz, campeão.

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