sexta-feira, 15 de maio de 2009

Por que dente tem nervo?

Ok, provavelmente há uma excelente resposta, mas não há meios de que eu me convença, de que eu tolere um bom motivo para que dentes tenham nervos. Afinal, eles não são imóveis? Sua função não é apenas triturar o alimento? E não fazem isso através de movimentos voluntários da mandíbula? Diante de tudo isso, pergunto, pra quê ter nervo?*

Era o que me perguntava há dois dias. E na verdade ainda me pergunto, mas em menor intensidade. Sentando na sala de espera do dentista, o mesmo de uns 12 anos, pensava em qual seria a razão para que os dentes tenham nervos. Não a encontrava. Mas sentia que precisava dela antes que chegasse a minha vez de consultar. Sou um sujeito muito curioso.

O dente, um dos molares superiores do lado esquerdo, doía em virtude de uma quebra. E doía, meu Deus, como doía. Eu dizia a mim mesmo que o arrancaria sozinho se a dor não parasse. A dor de um dente, vim a saber depois pesquisando no Google, é comparável, em alguns casos, a dor do parto. Particularmente não acho que tenha me doído tanto assim, sempre achei de um heroísmo incrível as mulheres suportarem o parto, e emparelhar meu dente zoado nesse patamar me pareceu presunção. E herdo de minha mãe a característica de ser bastante tolerante a dor física, motivo pelo qual só fui procurar o dentista depois de quase enlouquecer de dor. Ingênuo, achei que passaria por si.

Mas o fato é que doía miseravelmente. Eu tinha vontade de dar com a cabeça nas paredes, não podia dormir direito e três comprimidos de paracetamol não tiveram o menor sucesso em sequer diminuir a dor. Foi uma noite longa. Percebi que diminuindo o fluxo de sangue para a região do dente, diminuia um pouco a dor. Passei, portanto, a deixar a cabeça levantada, o que acabou com minha noite.

Sozinho na sala de espera, pude me observar no espelho e finalmente compreender a expressão que diz que determinada pessoa tem o hábito de fazer "cara de dor de dente". Rosto franzido, cenho carregado, olho expremido e uma sensação de gravidade, seriedade estampada no semblante. É essa a cara de dor de dente.

Pensava ainda no porquê do dente ter nervo. E cheguei à resposta: pra doer. Só pode ser por isso.

Sentava na cadeira do dentista. Sujeito simpático, gosta de conversar, mas sempre me sinto mal nas suas consultas, porque adoraria conversar com ele, cordial, articulado e inteligente - fez especialização na Sorbonne, em Paris - mas é impossível responder com a boca escancarada e isso me faz sentir mal. Parece que mato a conversa; enfim.

Temos uma longa história, o dentista, eu e sua assistente. Ambos, a assistente e o dentista, parecem não envelhecer. Fernanda e Duílio. Pela diferença de idade é, ainda que preconceituosamente, difícil imaginar um enlace romântico. Mas como só os conheço dentro daquele espaço exíguo do consultório de esquina, me parece, muitas vezes, que ambos habitam ali. Como se vivessem no consultório, fossem autômatos, e não pessoas que têm famílias, memórias, projetos e vidas.

Lembro de uma consulta de rotina, há uns 8 anos atrás, talvez até mais, que o dentista implicou com a boa quantidade de cistos sebáceos na minha face e se ocupou em furá-los. Fiquei emputecido, externei, como todo adolescente babaca minha revolta em casa. Ele ficou sabendo. Hoje, sempre que me vê, lembra do episódio e eu me sinto um babaca. Acho que ele sabe disso e justamente por isso não me deixa esquecer a história. Contudo quero deixar claro que eu tinha razão: dentista mete-se com a boca. Quisesse eu uma limpeza na face, teria ido numa clínica de estética, ou num dermatologista. E folgo muito que, dessa vez, quando ele lembrou do evento, tenha dito algo assim. Posso dizer que, enfim, venci. Chupa, babaca.

Sentado ali, com a anestesia, me senti livre. Parecia que a dor, enfim, poderia ser vencida. Parecia que eu poderia esquecer o sofrimento que ela me causava. Eu me sentia como o personagem do filme "Como fazer carreira na publicidade?", que conta a história de um publicitário que um dia se depara com um furúnculo. O furúnculo cresce e toma sua vida, ganha personalidade. Parece ruim, mas é um excelente filme, uma mistura de comédia de humor negro e non-sense com um toque filosófico, profundo mesmo, da discussão dos valores dos anos 1980, sobretudo na ótica dos yuppies. Curiosidade: o filme era fruto de uma produtora de George Harrison, meu beatle favorito, que se ocupava em filmes alternativos e legais.

Me sentia como o personagem do filme, parecia que aquela dor profunda e latejante começaria a criar vida, a interagir comigo. O latejar incessante parecia me lembrar algo, querer discutir alguma coisa. Era uma sensação bizarra e claustrofóbica que teve fim em três agulhadas de anestesia.

Mas, como tudo na vida, a anestesia também teve seu fim. E eu de dente reconstruído, voltei a sentir dor. Em menor intensidade, é verdade, mas ainda dói. E só hoje, no terceiro dia, os analgésicos conseguem fazer algum efeito. Estou, pasmem, sentindo falta da dor. É como se eu quisesse conversar com ela, como se ela estivesse passado por aqui para dizer algo. E eu não perguntei, porque estava ocupado demais a expulsando e me lamentando miseravelmente, esperando a morte chegar.

Paciência. A vida é feita de palavras não ditas, verdades ignoradas. Sentimentos escondidos. A gente vive assim, se enganando. É inevitável. E só é ruim quando nos damos conta de que fazemos isso e que, por termos ido tão longe no enganar a si próprio, talvez, seja já demasiado tarde para uma verdade que conserte tudo.

Acho que o dente ainda vai doer, contudo. Mas sem a mesma intensidade, como se a dor agora fosse outra, mais administrável. A dor verdadeira, acho, não volta mais. Assim como a palavra não proferida, como vim a descobrir recentemente.

*Ah sim, a razão para que dentes tenham nervos, diz-me o dentista, é porque assim podem regular o crescimento de dentina, que é o tecido que compõe o dito cujo. Ainda acho que é só para doer. Unhas não têm nervos e crescem também. Idem para os cabelos.

1 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom!!!! Concordo!! rss...