Qual a sensação de acordar numa manhã de sol com o som de marmanjos urrando e fazendo escândalo na mesma proporção que o faria um esquilo se estuprado por um elefante? Horrível. Muito pior se você fizer parte do bando de marmanjos. Muitíssimo pior se você não sabe distinguir se há um esquilo, o que nos daria o direito de supor um elefante de libido desregulada, na mesma cena.
Logo que acordei disse pra mim mesmo que o domingo seria um dia de bizarrias. Começara mal, ou bem, questão de ponto de vista, com o transcendental show do Reginaldo Rossi, para o qual encontrei tempo e lucidez para algumas linhas já compartilhadas por aqui - apareceu até no CQC, o show, não as linhas. Mas não. O domingo não parou por aí, fui muito mais longe no que poderia suportar esse meu velho corpo carcomido, esse meu espírito ressabiado e essa minha índole decadente.
O show deu-se no Largo do Arouche, região conhecida do humorístico Sai de Baixo da Rede Globo, e permissiva a todos os trocadilhos de caráter sexual e de duplo sentido que o ser humano foi capaz de criar na longa história da linguagem - sabe-se que a região é fértil em mulheres liberais e mesmo de mulheres de gênero duvidoso, a tal ponto que é possível se dizer que no "Largo", hum, do Arouche abundam enorme fauna de mulheres de pinto. Pois é.
Ir e voltar incólume de uma região como essas, sobretudo bêbado, é sempre uma vitória. Não vale dizer que bêbado faz coisas que não se lembra e, portanto, é injusto duvidar do que fiz neste episódio. Eu tenho inúmeros lapsos de memória dessa madrugada, mas graças ao Deus dos bêbados, afianço-vos que da excursão ao Largo eu lembro tudo e não fiz qualquer bobagem, tendo de lá retornado com toda a dignidade.
Mas os marmanjos continuam gritando e vomitando desesperadamente. Que se fodam, poderia eu dizer. Mas não consigo dormir com gritos, e morro de medo que vomitem em mim. Sou sensível a essas coisas.
E aí me vem na mente a lembrança meio turva da noite. Os botecos da Rua Augusta. Coisa feia, barra pesada, cara. Eu lembro de alguém dizendo, ou teria eu lido nalguma parede?, que "mais vale uma teta na mão, do que duas no sutiã". Não há dúvidas quanto a isso, a questão é sempre a propriedade das mamas, e os humores da proprietária - parto sempre do princípio de que quem as tem é uma mulher - e disputá-las, as mamas, é sempre complicado.
- Cara, teta quem tem é vaca... - disse alguém. O que me deixou confuso, porque de tetas e de vacas entendo lá eu alguma coisa, de seios, parbleu, nem se fala. Particularmente, sempre gostei de ambos, seios e tetas, sobretudo quando nas minhas mãos. "Mas de que vaca falamos?" disse eu, porque é sabido que há aí uma enorme variedade de vacas, das mais leiteiras e das mais faceiras, o difícil sempre tem sido distingui-las propriamente umas das outras - e no meio de tudo ainda há as mulheres de fato, cada vez mais raras.
Lapso. Não sei em que caminho deu-se a discussão sobre tetas, vacas, seios e suas distinções. Não sei. É possível que tenha exemplificado um exemplar de vaca bípide, que são as de modalidade faceira, e a quem se pode classificar como portadoras orgulhosas e tetas, assim como suas pares ruminantes e quadrúpedes. Lembro de uma em específico, coisa antiga, tempos de faculdade de Engenharia Civil. Lembro de suas portentosas tetas e um dos amigos, que conhecia a parelha, condescendeu, lembrando do espécime em detalhes a ponto de dar o veredito: era, indisputavelmente uma vaca de duas enormes tetas a fulana. O que testifica para todo o sempre que, no fim das contas, não importa a qualidade de vaca, é certo que todas possuem tetas.
- Teta ou seio, é a mesma coisa, os têm as vacas de todas as qualidades e as mulheres também...
Generalizações nunca foram comigo, democrata subdesenvolvido libertário que sou, motivo pelo qual me senti compelido por um zelo ridículo em relação aos matizes femininos para defendê-las ferozmente. Vim a saber na discussão que, na verdade, em certa fase da vida todas as mulheres são portadoras de seios, em geral dispostos na parte superior do tórax e na quantidade de dois. A questão é o tempo, que como eu adoro repetir nos meus poemas ruins e nas minhas filosofias redundantes, é a medida da precariedade de qualquer coisa. Tudo oxida, evapora, esmaece, decai, some, morre. Dá-se o mesmo com os seios e com a índole de boa parte daquelas que os carregam. E é a decrepitude, segundo o parecer da distinta sociedade que discutia o tema, que torna seios em tetas. Não sei. Ainda acho que o que nos foi sempre seio tenderá a continuar assim para o resto dos tempos. É verdade que sou idealista demais, porém.
Mas o caso da índole que converte seios em tetas pode ser entendido no caso da menina que vira uma profissional do sexo, ou uma amadora do sexo, que são aquelas que topam qualquer parada pelo amor ao esporte (as outras topam a preços módicos e anunciam seus predicados por aí). Mas a, hum, digamos, amadora, pode - pode - ser chamada de vaca, o que classifica seus apêndices torácicos como tetas, embora dali saia leite apenas em período de gestação, dificilmente existam pelos, e seja tão bom de apertar como qualquer seio por aí. Características erógenas não encontradas, até aqui, nas versões ruminantes das tetas, salvo se o sujeito possuir uma líbido, a exemplo do elefante tarado do primeiro parágrafo, bastante desregulada.
Saber distinguir tetas de seios, e mulheres de vacas, é uma das marcas do homem bem resolvido, moderno e chorão, desses muitos de nós que se humilham vergonhosamente por mulheres que, na maioria das vezes, querem exatamente o contrário - ou não sabem absolutamente o que querem. Eu fiquei feliz em ver que sempre soube distinguir tetas de seios, embora isso não tenha me levado muito longe. Sempre soube, é verdade, mas mais por instinto de auto-preservação do que por qualquer outra coisa. Não tinha eu o arcabouço teórico no assunto que, doravante, me sobeja e que cá transbordo com todos vocês, meus sete leitores. O instinto de distinção de tetas e seios foi o que me afastou, por exemplo, da carreira de Roberto Carlos de Puteiro, coisa muito comum entre os meus amigos do tempo de ensino médio.
E estava eu feliz por lembrar de tudo isso quando me dei conta de que o escândalo cessara à minha volta. Babacas, me acordaram. Bêbado é foda. Odeio bêbados. Odeio todos os meus amigos bêbados, porque eles são muito idiotas bêbados e isso me irrita profundamente quando estou bêbado/sorumbático. Eu iria embora escondido, como sempre fiz nos anos de faculdade de qualquer festa, mas daqui não tenho pra onde ir. Dado momento, me batia um "ah, quer saber..." e sumia. No começo era divertido, nutria as preocupações de todos, ligavam-me desesperados para conhecer meu destino. Perguntavam se alguém havia me ofendido a tal ponto que eu não via recurso que não fosse pegar meu rumo. Mas com o tempo parou, perdeu o drama. O que só vem a provar que o tempo é o melhor conceito de precariedade já inventado e nos diz que, enfim, eu tenho razão em alguma coisa.
E daqui de São Paulo, nem muito bêbado, dá pra fazer isso, sumir bêbado e voltar pra casa. Não tenho refúgio - ainda - por aqui. Uma merda. Aguentei a zona toda olimpicamente. Vomitaram-se todos, cessou o escarcéu e eu posso agora dizer do que me lembrei ao escrever o parágrafo anterior.
Foi no papo que, depois de muito ponderar, levantei uma importante discussão de caráter científico quanto a viabilidade de uma classificação unilateral dos seios. "E as galinhas?" Que fazemos delas, que sabemos todos - ô! - que são aves, animais que põem ovos e que, sabe-se, em virtude disso, incapazes de amamentar e, em face a essa classificação, absolutamente privados de tetas. "Pois é, o que diremos das galinhas?"
E há muito o que dizer delas, das galinhas, que nos povoam a adolescência e nos tentam durante boa extensão, se não por toda, as nossas vidas. O que me lembra minha adolescência porra-loca, quando meus amigos, dos quais lembro só do nome de um, me chamavam pra ir em algum lugar comer umas galinhas. Eu sempre fui tapado. Nunca sabia precisamente a espécie da bazófia, e olha que gastronomia sempre foi-me um hobby. Freud explica. Há algumas passagens inenarráveis da minha curta e muitas vezes arrependida carreira de cafajeste nessa fase.
Lembro de uma festa de debutante. Era uma daquelas coletivas, reúne-se uma porção de adolescentes no limiar dos 15 anos, esbanjam-se fortunas, chama-se um ator global da Malhação, o que significa que é um babaca bonitinho, e pronto, temos um aniversário de debutante em regra.
A aniversariante era irmã de uma das mais comentadas galinhas de todos os galinheiros por mim frequentados naqueles tempos. Na verdade era uma daquelas festas coletivas. Sempre achei meio bobo o aniversário de debutante porque nunca entendi o que diabos de especial se comemora no evento, mas sempre guardei para mim a pergunta. Na ordem das minhas dúvidas existenciais, a distinção de tetas e seios vinha primeiro. Era uma questão mais profunda. Já resolvida, conforme parágrafos anteriores nos afiançam. No fim das contas era tudo uma questão de procurar nas fontes certas. Neste caso, no fundo das garrafas.
Provavelmente bebi demais naquela noite, não nesta, na da referida festa, porque fiz uma das minhas maiores besteiras. Sou pródigo em protagonizar asneiras monumentais, só que normalmente me orgulho delas - eu sou estranho, diria "um teorema", como definiu uma guria que foi capítulo de uma quase-asneira em janeiro de 2005 ou 2006, não lembro. Aliás, curioso, mas minhas asneiras sempre tem mulheres envolvidas. Isso devia me ensinar alguma coisa. Mas eu dizia, normalmente me orgulho das bobagens que fiz. Dessa particularmente, não. Teve significados e lições muito profundas, que mudaram muita coisa em mim. Pra melhor? Pra pior? Não sei. Já acreditei nas duas possibilidades.
A besteira em questão foi tirar pra dançar a supra mencionada galinha - e antes fosse só dançar com a ave. Ela deve ter voltado nas minhas sinapses alcoolizadas quando da classificação de seios, porque é um exemplo de aberração científica, a dar-se todo crédito à teoria das tetas, afinal tratava-se de uma galinha muito bem provida delas. Pareciam querer pular do decote. Provavelmente caberiam nelas todo o volume de uísque por mim ingerido naquela noite e, pensando no assunto agora, tantos anos depois, seria divertido beber dali... enfim. O que interessa é que a dança foi o evento inicial de uma série de desgraças na minha relação com as mulheres, e com as vacas, que parece não mais ter fim.
Juliana me ensinou a dor. Juliana me levou para a cozinha do clube. A cozinha não estava sendo usada naquela noite, ou pelo menos não aquela porção dela, que estava numa penumbra violenta. Meus instintos me avisavam, daí saíra merda, mas eu não ouvi. Ouvi o chamado das selvas, segui-a com o meu terno amassado, enquanto suas saias roçavam o chão e faziam um ruído que só poderia ser comparado ao andar de um fantasma naquela escuridão toda. Um fantasma que, fosse eu um apaixonado, poderia dizer que flanava sobre o chão, me conduzindo a um encontro romântico, único, apaixonado e inesquecível. Nada disso. Inesquecível foi, mas foi por conta de não ter sido romântico, único e apaixonado.
Chegamos lá. Amassos, nada de novo no front. Excitação, o lugar, o clima. O sentimento... que sentimento? Eramos dois estranhos, continuamos sendo-o para o resto de nossas vidas e duvido que o quadro se altere. Eu não sentia nada por Juliana, como não sinto nada pela gota de orvalho que rola por aí, sempre a esmo, mas sempre pelos mesmos rumos e sempre com as mesmas consequências, embora tenha sentido pela nuvem que a criou.
Enfim, Juliana sumiu numa volta no destino, sorte que parece reservada a todas as mulheres da minha vida, vacas inclusas. Nada demais, é assim com a maioria, sobretudo hoje que relacionamentos afetivos são roletas russas, com a diferença de que nesse jogo de morte você tem 6 chances em 7 de ser baleado, ao contrário do jogo tradicional, onde é 1 pra cada 7 tiros. Hoje em dia, meu amigo, relacionamento que dá certo, que não acaba, é exceção, não regra. Olhem as estatísticas.
E eu não sei porque gasto tanto verbo com Juliana, de quem sequer lembro a cor dos olhos. Poderia escrever sobre tantas outras coisas, igualmente desimportantes, mas com o mérito da sobriedade. Assim como não sei porque comecei a falar de bêbados escandalosos, das disparidades entre seios e tetas, bem como entre suas portadoras. E acabei em Juliana, por certo portadora de dois, mas de quem mal lembrava, de quem tenho a lembrança de uma troca de carícias sem sentido, sem sentimento, casual e tão banal como qualquer outra, porque hoje, à luz dos fatos, parece-me que foram mesmo todas assim.
Eu disse que Juliana me ensinou a dor. Me ensinou, na verdade, vários tipos de dor. A dor do sexo vazio, sem sentimento, banal, a idiotice de usar as pessoas como um instrumento hedonista vago e descompromissado. Com Juliana aprendi que era homem de coração, por mais que as consequências disso sempre tenham sido desagradáveis. Com Juliana aprendi que sexo, de qualquer natureza, é uma experiência eminentemente solitária e que a maior das alegrias é poder ao fim abrir os olhos e encontrar a pessoa amada - e privar-se disso dói. Com Juliana resolvi mudar minha concepção do amor, e isso sempre terminou mal - outra dor que lhe devo. Com ela senti a dor de não dizer "eu te amo" quando tenho vontade pela primeira vez - só que no caso dela eu não sentia nada, eu tinha a necessidade de dizer que amava em função do que acontecera. Juliana me ensinou muito mais coisas, nenhuma delas impublicáveis, fiquem tranquilos, mas que guardo pra outra ocasião, porque bêbado de olhos umedecidos é clichê demais até pra mim.
E, só para não perder o costume, vem a gata branca roçar-me as pernas. E só para não perder o costume do fecho da crônica, por mais que hoje já tão sem sentido, para não perder a chance do belo chiste, posso olhar para ela e dizer que sou uma pessoa profundamente feliz(?).

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