sexta-feira, 8 de maio de 2009

Minha mente vai melhor de metrô

"São Paulo vai melhor de metrô", é o slogam que a Companhia do Metropolitano de São Paulo usa. Tudo vai melhor de metrô, e a vida iria muito melhor se tivessemos como embarcar em estações, cruzar o caos que ferve na superfície e desembarcar-mos rapidamente nos nossos destinos. A vida seria mais fácil, como São Paulo é porque tem, pouco é verdade, metrô.

Andei por três linhas, num horário mais sossegado - qualquer um que não conheça São Paulo ficaria chocado com o número de pessoas - de modo que cheguei rapidamente a rodoviária pra comprar a passagem de volta ao Paraná. Foi uma viagem sem incidentes, não topei com nenhuma pessoa interessante, não puxei conversa com estranhos, só pude, mesmo, ruminar alguns pensamentos.

Não sou de fazer balanços a respeito da minha vida. É um hábito que nunca tive e que, no fundo, julgo inútil: encontrar muito mérito nas nossas realizações passadas é como admitir a incapacidade de fazer melhor lá adiante. Mas me peguei pensando no que, aos 24 anos, posso dizer que realizei.

E é muito pouco. Com 22 anos Alexandre, o Grande, já havia conquistado todo o mundo conhecido daqueles tempos sanguinolentos, o que é muita coisa. Eu não tenho a menor pretensão de conquistar o mundo, é verdade, mas à luz do que tanta gente já fez com a minha idade, sinto, minha vida parece tão incidental, tão insignificante, tão miserável que, desconfio, não mereça nem a dignidade dessas linhas. Sequer o tempo que algum desocupado venha a gastar com esse texto.

E pensando nisso, sobre o acaso das coisas, percebi, e lembro de ter pensado nisso quando descia na estação da Sé pra trocar de linha, que minha vida é uma sucessão de acidentes. Aliás, tudo é uma sucessão de acidentes. O fato de meu bisavô ter escolhido o Brasil, e não os EUA. De minha mãe ter se apaixonado, de meu pai ter correspondido, de eles terem ficado juntos pela vã crença de que se amam e de que isso é o certo. Mesmo antes, o que levou as amebas a se unirem em organismos maiores, o que, enfim, deu origem a primeira célula, esse inesgotável, grande, maciço e incrível "Por quê?" que nos rodeia, que pode ser, pura e simplesmente, obra do mais impressionante acaso, acidente.

A sucessão de acasos incríveis que fizeram com que esse planetinha possa suportar - ainda - a vida. O acaso que fez você que lê me conhecer, e daí ter a questionável necessidade de ler meus escritos. Ou então o incidente binário que fez com que uma inocente busca no Google te encaminhe para esse escrito que inunda a sua tela agora. É tudo tão insuportavelmente casual na nossa vida que não encontro muito sentido em buscar sentido nela - e isso explica minha paz de espírito. Só o fato de algum tropeço evolutivo ter feito com que eu seja capaz de escrever este texto e ser lido já é tema para questionar, e muito, tudo o que nos damos direito de pensar sobre nós mesmos nesse mundo. Somos, não tem jeito, acidentes.

E é provavelmente por ter consciência disso que me ocupo em vivê-la, a vida. Se me expremessem a troco de extrair de mim uma gota de sabedoria, acho, que o que mais próximo disso encontrariam seria a lição de entender que a vida é um fenômeno instrinsicamente incidental, atrozmente esporádico, que o meu hoje é o que importa e que, "cada dia tem o seu mal". Minha maior qualidade não é a calma. É a compreensão da vida como um trânsito, e do fato de que na verdade ela é um porre de cicuta, que a gente vai bebericando aos golinhos, aqui e ali.

E é o contraste que vejo nos vagões e estações do metrô que me fascina tanto e me faz pensar tão profundamente sobre bagatelas. Observo as pessoas que se obcecam com horários, compromissos. O cidadão que xinga se você tiver a desdita de lhe interromper a ascensão na escada, as pessoas que caem no sono no sacolejar barulhento dos vagões porque estão estafadas de um dia pra lá de puxado. Eu me compadeço deles, sem dúvida, mas muito mais os lamento porque não são capazes, a meu ver, de medir a vida pelo que ela é. Parece que as pessoas tomam a vida, medem sua importância, não pela altura real que tem, mas pela sombra que projeta, que é sempre muito difusa, enorme, e que está muito distante da verdade das coisas. É como medir o poste pela sombra que ele marca na terra, você sempre vai superestimar a importância das coisas e sempre conhece-las-á distorcidas.

E isso talvez tenha a ver com a fuga, o medo, as tensões ridículas que interpomos entre nós e o que sabemos nos fará bem, nos fará felizes. O medo de encarar verdades, seguir a luz das coisas que valem à pena, o medo, enfim, de olhar para vida pelo que ela é, não pelo que queremos que seja. O maior dos males que a herança cultural judaico-cristã nos trouxe foi incutir na mente e no subconsciente das pessoas que há algum tipo de mérito na auto-flagelação, no sofrimento e na privação auto-impingidos.

Sofrer é ruim, ainda que inevitável. E é por isso que escolher o sofrimento é uma grande bobagem.

*Na foto a estação Brigadeiro do metrô. É a velha conhecida dos tempos de Curso A. e ainda bastante usada por mim.

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