sexta-feira, 22 de junho de 2012

Fernando Lugo

Digam o que disserem, mas presidente de esquerda de um país tão peculiar como o Paraguai, não pode se dar ao luxo de deixar pontas soltas, ou no caso, uns cadáveres pelo caminho. Aliás, nenhum presidente devia ter esse luxo que, no entanto, alguns transformam em prerrogativa.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Automobilismo é o meu esporte

Provavelmente, um dos assuntos que mais discuti na vida foi: "o automobilismo é ou não esporte?". Os mais obtusos, que dizem que não é, fiam-se na tortuosa linha de raciocínio de que o carro faz maior parte do trabalho e, portanto, não é esporte, porque não se mede capacidade física do piloto, mas sim, recurso técnico do automóvel que dirige.

Raciocínio rasteiro. Primeiro porque não é exclusividade do automobilismo usar um aparato tecnológico. Quem desce de bobsled faz a mesma coisa. Nadadores com aqueles maiôs nadam mais rápido que os que não dispõem do recurso. Skatistas dependem do melhor skate. Ciclistas tiram partido da bicicleta moldada em fibra de carbono. O mesmo para quem rema, desce corredeiras e assim por diante.

Segundo que o carro, até aqui, independende se kart, fórmula, stock, turismo ou protótipo, não se move sozinho. É preciso uma porção de sangue e carne razoavelmente doida dentro deles para que se movam, disputem freadas, passem uns pelos outros, encarem curvas cegas, retas alucinantes e assim por diante. Digam o que disserem, mas para encarar uma corrida, vá lá, de Fórmula 1, é preciso: espírito de competição, força de vontade, perícia, talento, sorte e resistência. Todas qualidades encontráveis em qualquer esporte.

Terceiro. O automobilismo exige do piloto e do time por trás dele. Pilotos de Fórmula 1, para ficar no referencial comum, encaram curvas que os submetem a forças de 4, 5 vezes à gravidade. Pode parecer distante, confinados que estamos aos nossos modestos 10 m/s² de todos os dias, mas basta dizer que uma pessoa sem preparo, submetida a acelerações desses calibres, pode simplesmente desmaiar. Calcule aí o tamanho da besteira se um sujeito sem preparo para o esporte se enfiasse num carro e desmaiasse, a uns bons 200 por hora, na saída de todas as curvas.

Equipes de qualquer categoria, das grandes às pequenas, demandam talento, recursos e trabalham mirando algo que é o cerne de qualquer competição esportiva: o aperfeiçoamento. No automobilismo de ponta (Fórmula 1, NASCAR, Indy, Mundial de Rally, Mundial de Enduro) falamos de pentelhésimos de segundo. Do detalhe aerodinâmico, aquela fração a mais de pressão do turbo, o regime de trabalho do motor, que significa mais economia de combustível ou desempenho.

Automobilismo é um esporte, com suas particularidades, mas ainda assim, esporte. O carro e a equipe desempenham um papel muito grande na performance final, isso não se discute. Mas o que faz diferença, ainda, é o homem. Do contrário, qualquer Felipe Massa seria um Alonso. E nós sabemos que não é, porque em última análise, o diferencial entre um e outro, ainda é o talento. Ou para ficar num referêncial mais justo: Lewis Hamilton anda de McLaren, é campeão do mundo, e é um tipo de showman. Corrida com ele é espetacular. Ele não desiste nunca, divide freadas, corre com sangue no zóio. Jenson Button, também de McLaren, poupa o equipamento. Conduz com fineza e delicadeza a ponto de que seus pneus ficam conservados por mais tempo, o que o coloca em posição privilegiada na hora de definir uma estratégia para a corrida e, não raro, o deixa melhor calçado que todos os concorrentes naquele momento em que as corridas se decidem.

Neste último fim de semana não tivemos Fórmula 1, mas tivemos algo melhor. As 24 Horas de Le Mans. Uma corrida realizada há quase cem anos, em estradinhas vicinais do Le Sarthe, região da França, onde se dá o evento. Leva o nome de Le Mans porque Le Mans é a maior cidade das que envolvem o percurso de 13 km. É uma corrida que mistura quase 60 carros, entre protótipos avançadíssimos, como os e-tron da Audi, que venceram a corrida, e carros de turismo, como Porsches, Ferraris e Corvettes. Os e-tron são carros híbridos, com motores elétricos e a diesel, tração nas quatro rodas e tecnologia tão alta quanto os F1.

Quarto. Automobilismo move paixão. E esporte precisa ter paixão. Tudo na vida, aliás, precisa de paixão. Talvez um pouco mais que paixão, é algo intangível, que tem a ver com a nulidade de se buscar ser mais rápido que o outro, correr, correr, correr e não chegar a lugar algum. E mesmo assim, arriscar o pescoço tentando. Algo como Bruce McLaren definiu: "Fazer algo bem feito vale tanto a pena, que morrer tentando fazer melhor não pode ser loucura. A vida é medida por realizações, e não por anos" (e ele morreu numa pista). Automobilismo é a busca desenfreada e escamoteada da morte por aquele que, temerário, a desafia. Mas há muitas formas de compreender a paixão que as corridas movem em que se sensibiliza por um V8 gorgolejanto reta abaixo.

Mas poucas resumem tão bem o espírito desse esporte como as imagens abaixo. Aconteceram nesse fim de semana, nas 24 Horas de Le Mans. Na primeira delas, o Dumas, um dos pilotos do Audi #3, perde a frente em uma curva boba. Ali eram ainda 4, 5 horas de prova. Erro bobo. Outros poderiam ter desistido, outro tipo de competição, que não as 24 Horas, seria fim de prova. Para Dumas, não. Ele desce do carro, remove os escombros da parte dianteira, dirije até os boxes com um carro esbagaçado e uma das rodas dianteiras, das que definem o rumo, se equilibrando em braços de suspensão bastante avariados. O Audi #3 é reparado em uns 30 minutos, retorna à pista e encerra sua participação, no domingo, com um honeston quinto lugar na classificação geral.



E a outra, aí sim, mais simbólica. Motoyama conduzia o inovador DeltaWing da Nissan, quando foi defenestrado por Nakajima, que andava de Toyota. O regulamento de Le Mans permite que o piloto mexa no carro em caso de necessidade, mas proíbe qualquer auxílio externo de fiscais e mecânicos. Mecânicos só podem operar reparos nos carros quando eles chegam aos boxes.

Não era o caso. Por conta disso, o time mandou uma comitiva de mecânicos para perto de onde deu-se o sinistro. É comovente vê-los instruindo Motoyama por duas horas, embora o vídeo abaixo seja editado para poucos minutos. Motoyama tenta de tudo para fazer o carro voltar a funcionar, o que o permitiria guiá-lo aos boxes, onde reparos mais substanciais seriam feitos.



Motoyama não teve sucesso na empreitada e chorou copiosamente. Foi aplaudido pelo público. Vale o registro de que o DeltaWing não disputava a vitória geral e em sua categoria. Era mais ou menos um figurante. Mas as 24 Horas de Le Mans são tão enormes em termos de competição esportiva que o que realmente vale para a maioria é terminar a prova. Motoyama chorou porque o inovador carro da Nissan abandonara a prova, e não porque perdia um troféu.

terça-feira, 12 de junho de 2012

O melhor 2

Escrevi ali sobre o quão impressionado fiquei ao encerrar a campanha de Red Dead Redemption. Faltou dizer que vou me afogar no meu próprio veneno, corroído pelo rancor e pelo ódio inexorável se a Rockstar não providenciar uma continuação.

Que venha o novo Red Dead Revolution. Ou Revenge. Ou Ressurection.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Rádio: Ennio Morricone - The Man With the Harmonica

Ennio Morricone é um gênio. Na composição abaixo, que irrompe toda vez que o personagem de Charles Bronson, o homem sem nome que todos acabam chamando de "Harmonica" (Gaita), surge em cena em "Era Uma Vez no Oeste" há um cuidadoso esboço da personalidade e características do personagem. A música é tão perfeita em esmiuçar a figura do Harmonica que chega a parecer que o personagem foi construído sobre a música, e não o contrário. A distorção da guitarra, a orquestração crescente, vibrante, efusiva, a gaita soando como uma voz a lamentar-se por uma grande tristeza. "The Man With the Harmonica" é uma canção redentora, da mesma forma como o personagem no filme.

Essa facilidade de sintetizar personagens complexos em canções de 3, 4, 5 minutos que Morricone tem é algo que não veremos mais. Ninguém lhe chega aos pés neste talento.

The Man With The Harmonica by Ennio Morricone on Grooveshark

O melhor

Eu joguei, e ainda jogarei, muito video-game na vida. Mas desconfio que já conheci o melhor jogo de todos os tempos. Sim. Red Dead Redemption é tão avassalador que você se sente triste de encerrar o jogo e eu duvido que vá conhecer outra produção tão perfeita, tão esmerada, tão rica e múltipla em possibilidades como Red Dead Redemption.

Ambientação, produção, cenário, História, roteiro, referências, personagens carismáticos, aventura, ação, jornada, reviravoltas, trilha sonora. Cada um desses quesitos já faz de Red Dead Redemption um jogo especial, maiúsculo. Unidos os itens e você tem nas mãos um clássico instantaneo, como "Era Uma Vez no Oeste", clássico esmagador de Sérgio Leone onde o jogo buscou tantas e tantas referências.

Eu queria poder apagar a memória que tenho de Red Dead só para poder jogá-lo novamente, como se fosse tudo inédito e novo.

Farei meus filhos jogarem RDR e caso com a mulher que tenha tanta admiração quanto eu por este clássico que transcende games e cinema.


sexta-feira, 8 de junho de 2012

Foi-se o tempo em que eu me dava ao trabalho de te ouvir

"Foi-se o tempo em que eu me dava ao trabalho de me encher de hipocrisia para ouvir as tuas idiotices".

“Você descobre exatamente o que dizer quando é tarde demais”, disse. É como a feliz descrição que deu Douglas Adams de uma tarde cheia de trovoadas em um de seus divertidos livros. Depois de uns vinte minutos, quando a tormenta já acalmou, você ouve, lá ao longe, o ribombar de alguns trovões retardatários, que soam como aquele sujeito que perdeu uma discussão, mas vinte minutos depois, munido de uma contra-argumentação para lá de sólida, volta dizendo "e tem outra coisa...".

Foi o que aconteceu com Ernando. Dono do pior nome possível já enunciado em má literatura digital, nosso anti-heroi - pudera, com um nome desses - teve a epifania quando ela já era totalmente escusada. Escalou o Everest da discussão, no pico admirou a compreensão do todo e respirou fundo, com a certeza da vitória na discussão. O problema é que já não tinha mais discussão, ela enrubescera subitamente e se fora. Ensombrecido por qualquer desses tropeços financeiros que nos amargam a existência e por uma infeliz discussão que encerrara há pouco, Ernando, o homem a quem muita falta faz um F, por qualquer uma dessas artes do destino que regula as frequências e o ordenado caos das sinapses, foi lembrar dela, justo dela.

E para inundar este texto de referências que o autor não tem, vale colocar mais uma, puxada pelo gancho que é este "justo dela". Num só momento, Ernando, o homem do nome mais esdrúxulo já pensado, lembrou de Humphrey Bogart. Qual era o filme? Ah sim, Casablanca. O portentoso Casablanca, o esmagador, inoxidável “e único filme em preto e branco que vale perder tempo assistindo”, dizia consigo. Era aquela cena em que ela, sempre tem ela, entra no bar e Bogart diz qualquer coisa com "com todos os butecos do mundo, ela entra no meu, justo no meu". A frase pode parecer meio besta, mas é preciso considerar alguns atenuantes. Primeiro, é Casablanca. Segundo, é Bogart. E terceiro, o homem diz o diabo da frase com toda e tanta verve que não há como não considerar este um dos pontos mais altos do cinema no século XX.

Ela não entrou no buteco de Ernando por uma série de motivos, dos quais o principal é fato de que ela não vai a butecos. Ou não ia. Onde ela entrou, e não devia, foram nos pensamentos de Ernando, que podem ter, e provavelmente têm, todos os defeitos deste mundo, mas ainda não estão avacalhados que cheguem ao ponto de serem comparados a um bom boteco de esquina. Ela esgueirou-se para dentro das sinapses com tons de escarlate que não eram seus. Ernando involuntariamente se vê dono da melhor frase que poderia ter dito meia-hora atrás, no calor da escaramuça verbal: "foi-se o tempo em que eu me dava ao trabalho de me encher de hipocrisia para ouvir tuas idiotices".

Ernando sempre se considerou um sujeito de péssimo desempenho em confrontações. “Não é comigo, tenho uma sina, um defeito de não saber me defender”. Ernando não é do tipo indefeso, porque o ar blasé de quem parece já ter visto tudo esconde uma mente febril e imaginativa. Quando quer, sabe ser sagaz. Fisicamente, embora não fosse ilustrado em nenhuma dessa brutalidades que se dá o hipócrita título de arte marcial, tinha lá físico aquinhoado o suficiente para opor resistência a quem quer que fosse. O problema de Ernando era não saber dispor corretamente de seus predicados e isso o fazia sempre presa fácil na mão de rufiões da adolescência e, agora, de mulheres histéricas. “Eu não sei discutir, eu não sei reagir, eu não sei me defender”. “Pareço uma menininha indefesa”. Ernando considerava, de longe, este o seu maior defeito e se desafiava pensando como pudera escolher uma carreira no Direito. “Tenho a vantagem de que no tribunal fala um de cada vez. Fosse o tribunal como os meus relacionamentos e as humilhações que sofri na adolescência, onde todo mundo fala e grita ao mesmo tempo, e eu estava bem fodido”. “Não que não esteja especialmente fodido agora”.

"Foi-se o tempo em que eu me dava ao trabalho de me encher de hipocrisia para ouvir as tuas idiotices".

É importante o uso do "tuas", pensou. "Dá um relevo, algo de solene, de definitivo", diz consigo mesmo, para logo se escusar, "agora é tarde. Não há mais nada para ser dito, devia ter pensado nisso antes. Mas nunca penso. Em geral, a gente nunca pensa, nunca está preparado para dizer a coisa certa na hora certa". Ciente de que a peleja verbal com a agora ex estava inapelavelmente perdida, Ernando pegou-se pensando nos odores que os corpos exalam. Vivos, suor, flatos, secreções, pus. Mortos, músculos relaxam e há quem peide e cague depois de morto. Ernando tropeça em relatos desses com frequência quando mete-se a defender casos de assassinos. “A melhor prova de que a vida é uma merda é o fato de que, mortos, a gente ainda tem a liberdade de dar uma cagada”.

Algo fedia no ar.

Ernando, o homem a quem fez muita falta um escriturário responsável, pensava, antes de tudo, nos problemas financeiros e no desazo que teve ao investir na compra do apartamento que vê, agora, estragado para todos os fins e propósitos. "Vai desvalorizar". Ao mesmo tempo, embala suavemente o copo de uísque para ouvir as três pedras de gelo bater no vidro e fazer barulho: “chocalho”. "Essa merda vai desvalorizar pra caralho, aliás". Dá uma olhada para o centro da sala, como quem diz "fodeu". Remata a conclusão com um suspiro e um gole generoso no uísque, que constata, está já aguado demais.

Ernando não tinha planos para acabar o dia meio sentado, meio deitado no sofá, camisa desabotoada, e o uísque de má qualidade fazendo hora extra diante de suas fuças. Nem pensar nela, muito menos armar-se do argumento definitivo para expulsar mais um namoro cancerígeno quando é tarde. “Pior de tudo, foi o tumor que veio me expulsar de sua vida, mas dessa merda eu me livrei, te extirpei”, diz como que falando para ela. Sempre tem ela. Além do amargo encontro, Ernando não tinha a menor intenção de verr o investimento de uma vida desvalorizado. "Pior que doença".

O homem a quem fez muita falta mais sanidade e critério dos pais na hora da escolha do nome calculou que os próximos dias seriam mais amargos e insossos que o uísque que decantava no seu copo todos os seus remorsos. “Meu nome... minha avó morreu me chamando de Fernando. Nunca soube se por algum tipo de birra de gente velha e ranzinza ou se, simplesmente, porque não lhe cabia na cabeçorra que seu filho era retardado demais para batizar uma criança”.

Na sala, à luz do fim de tarde lento e sossegado daquela quinta-feira, Ernando foi acostumando o corpo com o lugar e a circunstância. Desafiava-se a si mesmo para ficar imóvel, feito uma pedra, "você tem um coração de pedra", ela tinha dito num dos tentos que logrou na discussão de meia-hora atrás e ao qual não encontrou Ernando resposta. “A merda é que perdi de goleada, se você for pensar”. "Você tem um coração de pedra", pensou Ernando que, se ele tinha um sedimento rochoso fazendo às vezes de miocárdio, era de se presumir que ela carregasse dentro do peito um buraco negro de atenção, fraqueza, frivolidade e total ausência de sentimentos. "Mulheres", disse.

"Foi-se o tempo em que me dava ao trabalho de me encher de hipocrisia para ouvir as tuas idiotices".
"Fora do contexto", pensou, "é só uma frase de impacto, mas que não diz rigorosamente nada". "Porra nenhuma, aliás". "Como aquela vadia, que latia e latia, mas no final não dizia nada que não fosse inútil". À luz das macambúzias ideias da tarde e dos efeitos do uísque disse uma frase, ou variação dela, que já sibilou pelos dentes de qualquer criatura que vista calças e faça a barba: "Amor não é comigo, é pior que doença".

"Pelo menos ela tinha peitões". Ernando lembrou da adolescência e de quando começou a se interessar pelas curvas, apêndices e particularidades anatômicas que determinam o dimorfismo sexual e fazem das mulheres a poesia que são. Lembrou que não tinha muito interesse em seios, gostava deles e daria 10 anos de sua vida para apertá-los todos os pares que se revelavam a seus olhos gulosos nos corredores do colégio, não há dúvida quanto a isso, mas a questão é que não dava aos peitos a importância que hoje dá. Via neles determinantes anatômicos que classificavam as garotas como gostosas ou não, em diversos níveis e patamares, que eram, e ainda são, definidos mediante consenciosa e extensa lista de requisitos, que sopesa aí além dos supramencionados pares de tetas: coxas, textura da pele, tipo de cabelo, bunda, voz, cor dos olhos, espessura da cintura e graça ao sorrir e principalmente, andar.

Ernando nunca alterou sua lista de determinantes, mas o que mudou, percebe-se agora, é a equivalência de cada ítem e a hierarquia deles. Se antes os peitos valiam menos que uma bunda escultural, hoje, reconhece, valem tanto quanto. O que teria acontecido? "Envelheci, foi isso". E, de mais a mais, Ernando reconhece que os tempos de colégio não lhe foram prodigiosos na arte da conquista, fruto das chacotas de que era alvo em virtude do nome ridículo que ostentava, acabou caindo em uma fase especialmente depressiva e isolada do mundo. À ele bastava imaginar-se dedilhando os peitos, bundas, coxas e cinturas que via pela frente naquele tempo de ebulição hormonal que nos devora as entranhas, fazendo de reclame de lingerie justificativa mais que suficiente para uma rápida, sôfrega, lambuzada e gloriosa, punheta.

"Aquelas vadias", pensou. Se houvesse um deus e ele seguisse seus escritos ao pé de todas as letras, com certeza, Ernando já estaria condenado aos infernos antes da maioridade por conta dos litros de esperma que derramou por criaturas rasas, nos casos das vadias da escola, bidimensionais, em caso de fotos e gravuras impressas, e digitais e magnetizadas, por conta dos não poucos VHS que lhe acompanharam a fase e lhe deram toda a sorte de criatividade para todas as horas de solidão. "Pior que doença".

No cômodo, sentado e meio deitado no sofá, Ernando olhava a marca deixada na parede pela ausência do sabre. “Ganhei do meu pai, que era oficial naval”. “Sendo bem prático, gosto do sabre, não gosto de meu pai”. Ernando tinha poucas fotos de família e nenhuma com o pai.

Tornando a pensar na vadia, deu o grito de libertação que irrompe no peito espezinhado e pavimentado de todo homem mais ou menos são depois de um rompimento. “Eu vou avacalhar tudo nesse apartamento. Vou criar ratazanas nos lençóis, vou alimentar baratas na louça. Que se foda, eu vou virar essa merda toda de pernas pro ar. Não vou deixar a janela aberta, aqui não nasce mais sol. Que se foda. Vai brotar mofo na penumbra estéril daquele quarto. Meu desodorante será o formol, meu sorriso decadência.  Eu quero anarquia, desordem, odor”. Ela era tarada por organização. “E eu estou ficando por liberdade”.

Já razoavelmente embrutecido pelo uísque, desconfiava que lá fora algo muito bonito se desenrolava para quem tivesse a coragem de levantar e ir até a varanda admirar o sol deitar-se. "Aquele ar vermelho em torno da estrela é um espetáculo muito desvalorizado, porque comum demais e gratuito". O ar vermelho lhe comovia a dar uma olhada, porque não o entendia. Sabia que qualquer bagatela ótica explicaria o fenômeno, mas já via-se velho demais para saciar essas curiosidades. Dava-se por satisfeito em admirar o evento sempre que podia.

O que não acontecerá hoje, porque ela lhe estragou o dia. "Mais que isso, essa vadia conseguiu o que todas tentaram, ela me estragou a vida". Ela tinha o costume de ser agressiva demais nas palavras e nos gestos, "mas era fria como um cadáver na cama", e Ernando reputa a esse conjunto de defeitos o desfecho do relacionamento. Na discussão de algum tempo atrás, fora a agressividade dela que selara o destino. Não havia mais tempo, não havia mais jeito de contornar a situação e, muitas vezes, basta uma bem concatenada cadeia de eventos que começa num ataque verbal "você é um canalha, um banana, tenho vergonha de ter um dia te conhecido", passa por um escorregão e uma tentação irrefreável de, por um momento em toda a vida, ver-se na posição de dominante de uma situação de confronto. Alguém poderia dizer que o desfecho da situação toda, com o lapso que trouxe a frase de efeito muito tempo depois, é a sina do argumentador de meia pataca e afiança a pouca prática que Ernando tem na arte. Ele passou muito tempo escondido atrás da vergonha do nome, que o moldou desde a infância, para aprender a exercitar os músculos da fala e da discussão.

O ar vermelho não reluzia pela sala porque a cidade tinha muitos outros prédios separando o apartamento de Ernando do horizonte, onde o sol se escondia. Ainda assim, por outros mistérios de ótica, algo da luz do dia ainda chegava àquela sala, onde Ernando jazia imóvel, fiel a sua determinada resolução de ficar estirado no sofá da forma que desabara, depois do fim do relacionamento e da discussão. "Que merda vai ser quando me der vontade de mijar". "Vou levantar e as pernas não vão funcionar direito, porque estarão amortecidas". "É culpa daquela vadia". Olhou para o chão.

Ali, empapuçando o tapete que viera como presente da mãe uns anos antes, viu o sangue começar a enrijecer à meia-luz do ocaso daquela quinta-feira. A mancha desdobrava-se como um rio que encontrou seu veio, cortando a superfície desta outra Terra qual adaga separando duas metades de uma maçã. Ou sabre, de onde, minutos antes, tinha brotado este outro Amazonas da cor de vinho, mas que já não tinha força para causar marolas, porque o veio de onde nascia o curso estava imobilizado e trespassado peço aço frio. Sabre que reluzia, agora, às últimas luzes do sol desta quinta, sol que sobranceiro, espiava tudo que acontecia naquela sala de suas excelsas alturas e distâncias que orçam em 150 milhões de quilômetros.

"Mira perfeita", pensou Ernando.

O último

Clint Eastwood, o último macho:



"You going to look awfully silly with this knife sticking out of your ass".

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Mais Reversos

Reversos, o filho das minhas ideias confusas, foi pauta da revista Veja São Paulo. E deu entrevista. Estou ficando acostumado e dentro de breve contratarei assessores para cuidar disso.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Arte da beleza

Eu sempre fui meio obcecado com manifestações artísticas que remetam ao pensamento, à densidade e, sim, à tristeza. Nunca entendi a censura que sempre veio acompanhada de um elogio ao Sigur Rós, uma canção de fossa do Johnny Cash ou um livro de retumbante carga dramática, algo do Bukowski, ou uma daquelas inebriantes sucessões de desastres, pranto e rasgos da mais amarga e esmagadora filosofia que advem da leitura de qualquer um dos romances do Herman Hesse.

O rir, a arte que lhe faz esboçar um sorriso é também muito importante. Mas não é bela. A beleza da arte só é dada a coisas que nos façam pensar, sentir e chorar.

O belo, o bonito, é triste.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Rádio: Eduard Khil - Я очень рад, ведь я, наконец, возвращаюсь домой

A célebre vocalização de "Eu estou feliz porque finalmente estou voltando para casa", em libérrima tradução, levada a cabo por Eduard Khil, em 1976 para a TV soviética. Ele precisou vocalizar a música para não cantar a letra original, que faz uma porção de referências elogiosas aos Estados Unidos. Caso a cantasse, provavelmente, teria sido mandado para a Sibéria.

Descanse em paz, Eduard Khil.

Aforismos - Dor de dente

"Até hoje não houve filósofo que padecesse pacientemente de uma dor de dente".

Shakespeare

Esta é, caros oito leitores, a verdade do universo que temos para hoje.

domingo, 3 de junho de 2012

Poesia é anarquia

Escrevi logo aí abaixo uma gracinha qualquer sobre poesia. A definição, para fazer rir, guarda lá uma certa sensibilidade estética que, no entanto, não vale à pena explicar. O fato é que nesses últimos tempos, de muito verso e pouca poesia, vale sim gastar mais tempo, fosfato, letras e sinapses para dar uma definição mais ajambrada do que é poesia. Ao menos nas minhas contas.

Lembro que nunca fui muito bom com versos e devo salientar, inclusive, que a bem da verdade, hoje, não o sou. E, dada a minha propensão natural à absoluta mediocridade, é bem capaz que nunca o seja. O que acontece é que a poesia é uma forma de expressão, de coagular sentimentos, de transpirar qualquer coisa que caleja a alma. Os requintes estéticos e a qualidade do verso, que no meu caso está muito longe de excelente, são detalhes. Não sei se dá-se o mesmo com todo mundo, mas ao menos no meu caso, fazer poesia é libertar-se.


O fato de que a qualidade dos versos esteja longe dos bons padrões não quer dizer que eu não tenha esmero com eles. Pelo contrário. Há poemas publicados neste blogue que levei meses, mais de um ano, para terminar. E há, no dashboard do blogue, umas duas dezenas de projetos abortados, esperando o carinho de um sujeito que só escreve quando compungido de dor, transpirando paixão, fedendo a derrota, sorrindo abobalhado por uma rima inocente que dê num bom hai-kai.

O que nos leva, aí sim, a uma tamanhuda definição de poesia, essa sim justa com a mais desmerecida das também bastante desmerecidas artes literárias: “os poetas não terminam seus versos, eles os abandonam”. É um caso das frases que invejo. Morro de inveja de uma porção de frases por aí, daria um rim para ter dito “a insustentável leveza do ser”, por exemplo. E também para ter definido poesia, versos e poetas com esse canhoaço de precisão.

Terminar um poema é descarregar-se de um fardo de emoções. É desistir dos versos, reconhecer que por mais que se esprema a criatividade, não pinga nenhuma construção mais bonita, nenhuma metáfora, nenhuma rima.


A frase, de Paulo Valery, veio-me trazida, aí sim, por um brilhante poeta, a quem meus versos escorrem, derretidos, de tanta vergonha por sua inerente mediocridade. O poeta é Junior Bellé, caro amigo, que meio sem querer me fez poeta de meia pataca e concorreu sobremaneira para que meus disparates rimados virassem, vejam só, música. Junior sempre foi poeta, e dos bons, sempre teve facilidade com rimas e alusões a tudo que nos cerca e é questão de tempo para que seu esmagador talento com as palavras ganhe todo os panegíricos que merece.


Comecei esse texto com a intenção de definir poesia na minha vida. De certa maneira o fiz, poesia é uma forma de coagular sentimentos que escorrem feito lava do coração da gente. É um jeito de libertar-se. Poesia é uma forma de revolução, porque preconiza a reinvenção, a criação, a mutação. A anarquia estética com palavras e sentidos. À poesia é dada a licença de não fazer sentido e, ainda assim, nos embasbacar quando revela a compreensão de um sentimento simples, de uma situação corriqueira ou de decepções pueris. Não há má poesia, há maus momentos para certas poesias.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Aforismos - Poesia

Poesia: qualquer porção de palavras que não alcancem direito as margens.

Rádio: Red Army Choir - Kalinka

Kalinka, Kalinka, Kalinka, Kalinka moya!