quarta-feira, 20 de junho de 2012

Automobilismo é o meu esporte

Provavelmente, um dos assuntos que mais discuti na vida foi: "o automobilismo é ou não esporte?". Os mais obtusos, que dizem que não é, fiam-se na tortuosa linha de raciocínio de que o carro faz maior parte do trabalho e, portanto, não é esporte, porque não se mede capacidade física do piloto, mas sim, recurso técnico do automóvel que dirige.

Raciocínio rasteiro. Primeiro porque não é exclusividade do automobilismo usar um aparato tecnológico. Quem desce de bobsled faz a mesma coisa. Nadadores com aqueles maiôs nadam mais rápido que os que não dispõem do recurso. Skatistas dependem do melhor skate. Ciclistas tiram partido da bicicleta moldada em fibra de carbono. O mesmo para quem rema, desce corredeiras e assim por diante.

Segundo que o carro, até aqui, independende se kart, fórmula, stock, turismo ou protótipo, não se move sozinho. É preciso uma porção de sangue e carne razoavelmente doida dentro deles para que se movam, disputem freadas, passem uns pelos outros, encarem curvas cegas, retas alucinantes e assim por diante. Digam o que disserem, mas para encarar uma corrida, vá lá, de Fórmula 1, é preciso: espírito de competição, força de vontade, perícia, talento, sorte e resistência. Todas qualidades encontráveis em qualquer esporte.

Terceiro. O automobilismo exige do piloto e do time por trás dele. Pilotos de Fórmula 1, para ficar no referencial comum, encaram curvas que os submetem a forças de 4, 5 vezes à gravidade. Pode parecer distante, confinados que estamos aos nossos modestos 10 m/s² de todos os dias, mas basta dizer que uma pessoa sem preparo, submetida a acelerações desses calibres, pode simplesmente desmaiar. Calcule aí o tamanho da besteira se um sujeito sem preparo para o esporte se enfiasse num carro e desmaiasse, a uns bons 200 por hora, na saída de todas as curvas.

Equipes de qualquer categoria, das grandes às pequenas, demandam talento, recursos e trabalham mirando algo que é o cerne de qualquer competição esportiva: o aperfeiçoamento. No automobilismo de ponta (Fórmula 1, NASCAR, Indy, Mundial de Rally, Mundial de Enduro) falamos de pentelhésimos de segundo. Do detalhe aerodinâmico, aquela fração a mais de pressão do turbo, o regime de trabalho do motor, que significa mais economia de combustível ou desempenho.

Automobilismo é um esporte, com suas particularidades, mas ainda assim, esporte. O carro e a equipe desempenham um papel muito grande na performance final, isso não se discute. Mas o que faz diferença, ainda, é o homem. Do contrário, qualquer Felipe Massa seria um Alonso. E nós sabemos que não é, porque em última análise, o diferencial entre um e outro, ainda é o talento. Ou para ficar num referêncial mais justo: Lewis Hamilton anda de McLaren, é campeão do mundo, e é um tipo de showman. Corrida com ele é espetacular. Ele não desiste nunca, divide freadas, corre com sangue no zóio. Jenson Button, também de McLaren, poupa o equipamento. Conduz com fineza e delicadeza a ponto de que seus pneus ficam conservados por mais tempo, o que o coloca em posição privilegiada na hora de definir uma estratégia para a corrida e, não raro, o deixa melhor calçado que todos os concorrentes naquele momento em que as corridas se decidem.

Neste último fim de semana não tivemos Fórmula 1, mas tivemos algo melhor. As 24 Horas de Le Mans. Uma corrida realizada há quase cem anos, em estradinhas vicinais do Le Sarthe, região da França, onde se dá o evento. Leva o nome de Le Mans porque Le Mans é a maior cidade das que envolvem o percurso de 13 km. É uma corrida que mistura quase 60 carros, entre protótipos avançadíssimos, como os e-tron da Audi, que venceram a corrida, e carros de turismo, como Porsches, Ferraris e Corvettes. Os e-tron são carros híbridos, com motores elétricos e a diesel, tração nas quatro rodas e tecnologia tão alta quanto os F1.

Quarto. Automobilismo move paixão. E esporte precisa ter paixão. Tudo na vida, aliás, precisa de paixão. Talvez um pouco mais que paixão, é algo intangível, que tem a ver com a nulidade de se buscar ser mais rápido que o outro, correr, correr, correr e não chegar a lugar algum. E mesmo assim, arriscar o pescoço tentando. Algo como Bruce McLaren definiu: "Fazer algo bem feito vale tanto a pena, que morrer tentando fazer melhor não pode ser loucura. A vida é medida por realizações, e não por anos" (e ele morreu numa pista). Automobilismo é a busca desenfreada e escamoteada da morte por aquele que, temerário, a desafia. Mas há muitas formas de compreender a paixão que as corridas movem em que se sensibiliza por um V8 gorgolejanto reta abaixo.

Mas poucas resumem tão bem o espírito desse esporte como as imagens abaixo. Aconteceram nesse fim de semana, nas 24 Horas de Le Mans. Na primeira delas, o Dumas, um dos pilotos do Audi #3, perde a frente em uma curva boba. Ali eram ainda 4, 5 horas de prova. Erro bobo. Outros poderiam ter desistido, outro tipo de competição, que não as 24 Horas, seria fim de prova. Para Dumas, não. Ele desce do carro, remove os escombros da parte dianteira, dirije até os boxes com um carro esbagaçado e uma das rodas dianteiras, das que definem o rumo, se equilibrando em braços de suspensão bastante avariados. O Audi #3 é reparado em uns 30 minutos, retorna à pista e encerra sua participação, no domingo, com um honeston quinto lugar na classificação geral.



E a outra, aí sim, mais simbólica. Motoyama conduzia o inovador DeltaWing da Nissan, quando foi defenestrado por Nakajima, que andava de Toyota. O regulamento de Le Mans permite que o piloto mexa no carro em caso de necessidade, mas proíbe qualquer auxílio externo de fiscais e mecânicos. Mecânicos só podem operar reparos nos carros quando eles chegam aos boxes.

Não era o caso. Por conta disso, o time mandou uma comitiva de mecânicos para perto de onde deu-se o sinistro. É comovente vê-los instruindo Motoyama por duas horas, embora o vídeo abaixo seja editado para poucos minutos. Motoyama tenta de tudo para fazer o carro voltar a funcionar, o que o permitiria guiá-lo aos boxes, onde reparos mais substanciais seriam feitos.



Motoyama não teve sucesso na empreitada e chorou copiosamente. Foi aplaudido pelo público. Vale o registro de que o DeltaWing não disputava a vitória geral e em sua categoria. Era mais ou menos um figurante. Mas as 24 Horas de Le Mans são tão enormes em termos de competição esportiva que o que realmente vale para a maioria é terminar a prova. Motoyama chorou porque o inovador carro da Nissan abandonara a prova, e não porque perdia um troféu.

4 comentários:

Anônimo disse...

esporte? não nego a paixão, nem alguns outros itens citados, mas me basta saber que um cara sem grana alguma não teria chance alguma neste esporte para me impossibilitar de gostar copiosamente.

Liévin disse...

Felipe Massa era entregador de um restaurante em São Paulo. Schumacher é filho de um zelador. Kobayashi precisou vender a casa da família para poder correr. Nelson Piquet dormia no container e comia pão seco no tempo de F-Ford na Inglaterra...

Anônimo disse...

e me diga, com tanto amor ao esporte, porque nunca se candidatou?

Liévin disse...

Nunca tive talento.