terça-feira, 28 de agosto de 2012

Matemática explica meu gosto por Reckoner, In Rainbows e Radiohead

Tudo é matemático nesse universo em constante transformação. Para Newton, Deus era um grande matemático, noção essa que o puritano extraiu de seus princípios matemáticos e não houve o que o demovesse dela. Para Einstein, Ele não jogava dados com o universo. Já para o grego Euclides, o mesmo que inventou a geometria, havia uma relação muito profunda entre existência e os números. E sendo a arte aquilo que dá à existência timbre e permite ao artista a fuga da equizofrênia, nada mais justo que haver matemática em tudo que é belo, que todas as manifestações artísticas acabem transbordando matemática de uma forma ou de outra.

Tanto é assim que foi a Euclides que coube a descoberda do chamado Número de Ouro. Trata-se de uma razão universal em qualquer sólido que garante a ele proporcionalidade, fazendo-o agradável de se admirar. O Número de Ouro de Euclides, que é quase que insinto matemático, vem sendo usado nos últimos séculos como boa diretriz para artistas plásticos e para definir os gostos da cristandade. Seu valor é um número irracional - como poderia ser diferente? - 1,618 e foi obtido pela primeira vez quando seu descobridor se viu às voltas com o curioso desafio de solucionar uma questão, naquele momento, definitiva: qual é a proporção idela para se dividir uma reta em pedaços não congruentes? Chegou no tal número, que acabou sendo usado em tudo quanto é arte. Ele está na fachada do Paternon da Acrópole, por exemplo.

Todo o preâmbulo para dizer que encontrei o Número de Ouro de Euclides embutido numa música e num disco. Isso explica porque, em especial, a canção e o álbum me são tão caros.

A canção é Reckoner, o álbum é In Rainbows, a banda é Radiohead. Aos 2:49 de Reckoner, ponto que é precisamente o Número de Ouro do disco, se levar em conta o somatório da duração de todas as faixas, um coro irrompe cantando "In Rainbows" ao fundo. A referência, claro, foi proposital. Sim, eu sou frio e calculista a ponto de me atrair por simetria matemática até em música.

Interessante notar que, traduzindo, reckoner no bom português quer dizer calculista.

Muita gente ignora solenemente a canção que, no entanto, é precisamente um das minhas preferidas. Fico imensamente contente de ter tanto tempo livre, tanta cultura inútil e tanta inquietação para tirar de um gosto puramente subjetivo uma razão puramente matemática. Interessante descobrir tudo isso. De alguma forma, agora, parece que gostar de Radiohead, In Rainbows e Reckoner faz muito mais sentido.

Também é interessante considerar que esse tipo de refinamento estético, infelizmente, vai longe da efervescente, dizem, cena musical nacional, com seu irrefreável mais-do-mesmo temático e sonoro.

Qualquer um dos caros oito curiosos leitores pode, agora, ouvir Reckoner e concordar comigo a respeito da qualidade da música.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A frase de Armstrong

Morreu no último sábado, aos 82 anos, o homem a quem coube a imorredoura honra de ir colocar os primeiros pés humanos no solo da Lua. Neil Armstrong, o astronauta, ficou imortalizado por ter dito na ocasião que era aquele um pequeno passo para um homem, mas um gigantesco salto para o coletivo deles todos, a humanidade.

De minha parte, considero que Armstrong está imortalizado por outros dizeres que fez em seu traje pressurizado, também com os pés apoiados na Lua. Em certo momento da sua excursão de três horas pelo satélite, disse Armstrong: "Boa sorte, Senhor Gorsky". Houve alguma especulação na época, florescida em torno da frase inesperada e um tanto desloucada.

Teve quem a considerasse uma provocação aos rivais soviéticos, vendo no nome Gorsky uma associação aos povos eslavos, nome comum que é por lá. Outros foram mais além, e afiançaram que Armstrong delirava, vítima de qualquer complicação médica insuspeita pela Nasa porque, afinal, até então ninguém tinha ido para a Lua. Também se especulou sobre a possibilidade de que a frase fosse um código previsto na missão, que servisse para afiançar qualquer checklist. Houve até quem expremendo o mais que pôde a sanha conspiratória fosse capaz de dizer que Armstrong encontrara, enfim, o habitante lunar e que ele chamava-se Gorsky. Neste cenário, o "boa sorte" fora, na verdade, mal compreendido em função da má transmissão de rádio oriunda da Lua. Armstrong, em realidade, saudara Gorsky dizendo: "boa noite, senhor Gorsky".

De tudo isso, nada.

Gorsky era, em realidade, vizinho de Armstrong quando Neil era apenas uma criança. Certa vez, jogando beisebol, a bola escapou de Neil e seu irmão, e acabou parando diante da janela do quarto do casal Gorsky. Armstrong se inclinou para buscar a bola a tempo de ouvir uma enfurecida senhora Gorsky: "sexo oral! Sexo oral? É isso que você quer? Isso você só terá quando o garoto do vizinho andar na Lua!".

Uns 30 anos depois, lá da Lua, tudo o que restava a Armstrong era desejar boa sorte a Gorsky.

E essa foi, nas minhas contas, a maior frase que o astronauta foi capaz de eternizar na sua viagem histórica.