Aproveitei hoje o dia livre e fui numa chapelaria com um amigo. Enfiei na cabeça (ahn? ahn?) a ideia de comprar uma boina. E comprei uma bem bacana, acho que ficou legal. Tinha pensado num chapéu à la Gay Talese, mas desisti. Pouca gente conhece Talese e diriam que é coisa de emo, sabe como é. Vamos, neste caso, de boina.
Mas um episódio curioso, que já me aconteceu outras vezes aqui, deu-se na hora de pagar a conta. Entrei na fila do caixa pelo lado errado, inadvertidamente, mas me coloquei, afinal, no lugar certo para esperar. Poucos segundos depois, pelo lado certo, um homem de uns 35 anos entrou e foi direto ao caixa, ou seja, ele tomou minha vez.
Uma das mocinhas do caixa sorriu e vi seus olhos brilharem, pensei "putz, devia ter comprado essa boina há mais tempo". Pentelhésimos de segundo depois de o sujeito me roubar a vez, outro caixa folgou, o da mocinha, no exato instante que ela começava a sorrir. Me aproximei e ela me disse, em referência ao meu comportamento:
"O mundo precisa de mais gente como você!" - porque o paulistano comum provavelmente teria causado um pequeno escândalo por ter sua vez surrupiada. Devolvi dizendo que provavelmente é verdade, mas seria o caso de admitir que, muito mais que o mundo, São Paulo precisa de pessoas gentis - não como eu, tivesse o mundo mais Tertulianos e teríamos aí, meus amigos, um planetinha muitíssimo mais aborrecido e bem digno de pena. Enfim, infelizmente não foi minha boina à escocesa que cativou a mocinha. Mulheres.
Não foi a primeira vez que algo assim me aconteceu. Parece que ser gentil aqui em São Paulo é sinal de um refinamento e de uma índole inatacável. Penso que todos somos assim, na verdade, o problema é quanto tempo você fica testando sua resistência a truculência na megalópole. Parece que, com o tempo, as pessoas acabam criando um instinto meio selvagem, que vem bem a calhar nessa selva de pedra.
Eu continuo pacífico, calmo e misantrópico. Por isso me impressiono com gente mal educada nas ruas, nos ônibus, nas filas, em todo o lugar. Rio deles por dentro. Bobos, afinal "eles passarão, e eu passarinho". A vida é muito mais que pressa, que não leva a lugar nenhum, temos todos o mesmo destino.
E eu vou, provavelmente, perder a corrida da Fórmula 1 amanhã cedo, uma merda.

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