quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O Inferno de Dante nos joysticks do mundo

Inferno de Dante é um clássico da literatura e compõe uma parte de uma obra maior, chamada de Divina Comédia, escrita por Dante Alighieri nos tempos do Renascimento. É um clássico que trata em verso da criação desse espaço conhecido como inferno, daí o nome, sob um viés épico e teológico.

Tornou-se o poema e a descrição do inferno um símbolo cultural, um ícone. Provavelmente a noção de inferno que as pessoas possuem no geral é muito mais atribuída ao poema de Alighieri do que a descrição presente nos textos bíblicos que, aliás, sobre o assunto se debruçam em redundâncias e contradições. Por certo que Dante trouxe a imagem do calvário que condensou em suas rimas dos versículos bíblicos, mas é inegável que as tintas renascentistas e as penadas suaves da poesia fizeram muito melhor serviço no que tange a condensação do inferno enquanto ícone na cabeça da cristandade ocidental do que a Bíblia.

De tal forma o Inferno de Dante transcende seus limites de época que virou símbolo. Inferno de Dante foi filmado em película, apresentado nos palcos, cantado em música, virou quadro nas mãos de vários pintores (Salvador Dalí, Rubens, Botticelli para ficar em alguns que pintaram o inferno segundo suas interpretações de Dante). De tal sorte a obra de Alighieri cresceu em si que se expandiu nos diversos campos culturais e virou signo. Muita gente diz "o inferno de Dante" para se referir ao inferno numa perspectiva ainda mais cruel que a normal e muitas vezes não têm a real noção do que é a obra. Muita gente acredita que "Inferno de Dante" seja uma pintura e não um poema renascentista, por exemplo, dada a caracterização desse termo como um inferno cheio de dor e sofrimento, e como se sabe, as pessoas tendem a ter mais facilidade a associar ações com imagens, daí a impresão, em muito auxiliada pelos diversos quadros com este nome de pintores famosos, de que Inferno de Dante seja uma pintura.

Sob todos os aspectos, portanto, o Inferno de Dante é um exemplo muito bem acabado de um bem cultural universal. Resistiu ao tempo, influenciou sociedades e culturas ao tornar-se uma noção, um conceito, de inferno; transitou por diversas manifestações culturais e está presente ainda hoje. Um exemplo disso é o surgimento da versão de "Inferno de Dante" enquanto jogo eletrônico. A Eletronic Arts, uma das maiores produtoras do ramo em todo o mundo, resolveu produzir um jogo baseado no poema renascentista, que tem lançamento previsto para fevereiro em diversas plataformas (Play Station 3, X-box 360 e há chance de que usuários de PC's possam descer aos infernos de concepção florentina).

Venho falando há um tempo sobre o surgimento de jogos com perspectivas muito avançadas no aspecto técnico e discursivo. Histórias elaboradas, mecânicas e discursos muito mais evoluídos que o Super Mario que nos acostumamos a vincular como imagem de jogo eletrônico, ou as aventuras em 4 cores no Atari. A adaptação da obra de Dante para os jogos é um sinal disso. A criação da história do jogo, por exemplo, ficou a cargo do roteirista Will Rokos, indicado ao Oscar em 2002 pelo roteiro de "A Última Ceia".

Todo o referencial original do texto de Alighieri está lá. Os Nove Círculos do Inferno, a aventura do cavaleiro Dante que deve descer às profundezas do reino do anjo caído para enfrentar o próprio Lúcifer com vistas a recuperar a sua amada Beatrice. No caminho deverá enfrentar medos, fantasmas, mosntros, bizarrices, medo, terror, o próprio inferno em si, a revelação de histórias e crimes de família que estavam esquecidos. E é esta a história da primeira parte de A Divina Comédia (o livro divide-se em: Inferno, Purgatório e Paraíso).

Pensemos nas possibilidades. Eu não li Inferno de Dante (o único clássico renascentista que tive colhões para encarar e luzes para compreender foi "Decamerão" de Boccaccio), mas fiquei conhecendo inúmeros detalhes da história em virtude de conhecer o game. E pensemos nas multidões que irão jogá-lo, quanta informação será transmitida e de alguma forma ensinada pelo jogo? Alighieri, se tivesse como conhecer a dimensão que sua obra tomou com o passar dos séculos, sem dúvida, ficaria orgulhoso.

E, enfim, jogar também é cultura.

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