domingo, 17 de janeiro de 2010

Um filme sobre a realidade

Descobri Network, filme de 1976, aqui no Brasil rebatizado para "Rede de Intrigas" e me impressionei pela riqueza da peça. O roteiro, o discurso, o nível de consciência dos nossos tempos sendo mostrado consistentemente há 34 anos.

O filme trata a respeito da desmoralização do negócio de mídia, e do jornalismo no bojo disso tudo, ao mostrar o cenário de caos que se instala, a falta de regra e de limite que advém de um mundo onde o único objetivo aceitável é a audiência e o lucro.

Tudo começa com a ameaça de demissão do personagem Howard Beale. Beale era um âncora de sucesso na tv, mas que recentemente estava perdendo números importantes de ibope e, em vista das dificuldades pelas quais passa a emissora em que trabalha, é anunciado que será demitido em duas semanas. Beale, literalmente, surta.

E na esteira do absurdo do âncora sisudo do jornal noturno de família que anuncia que irá se suicidar em público, frente as câmeras, todo um roteiro de caos assustadoramente presumível emerge. Beale antes de ser direcionado para tratamento, como seus amigos e superiores defensores do padrão de qualidade de jornalismo dentro da emissora defendem, é transformado numa celebridade, num profeta do caos, do absurdo. Sua loucura e eminente suicídio deixam de ser problemas da esfera pessoal de Beale e transformam-se em chamarizes para a audiência.

Um absurdo verdadeiro, diga-se. A capacidade de Beale mobilizar as pessoas dando voz às frustrações coletivas contagia qualquer um e tem paralelos com "Um Dia de Fúria", clássico oitentista do cidadão de bem que se revolta contra o estabilishment.

Só que Network é um grande filme porque não pára por aí. Beale e sua odisséia é uma parte fundamental do filme, mas mais que isso, encontramos dilemas morais e éticos de uma transição praticamente constante no jornalismo. O idoso e renomado jornalista, por exemplo, envolve-se num caso com a mulher que transformara o demissionário Beale, seu amigo, doente e carente de cuidados, como uma estrela. Os diálogos entre essas duas personagens têm em si qualquer coisa de geniais.

É sintomática após a primeira explosão de fúria de Beale ao ar (na qual ele entra no estúdio de pijamas e sobretudo, depois de ter tomado chuva pelas ruas - veja no vídeo abaixo) que o noticiário tenha se tornado num programa de notícias. Na lógica programa de auditório, as notícias perdem qualquer apego ao senso de informação e transformam-se em apelos idiotizantes de um programa que ainda conta com o histrionismo de Beale. Não precisa ir muito longe para encontrar semelhanças com a proposta aqui mesmo, no Brasil.



Outra trama decorre quando a personagem maquiavélica de Faye Dunaway conduz a produção de uma série de documentários sobre um grupo ultra radical de esquerda que aje sequestrando e roubando bancos - numa pura e consistente lógica de reality show, que poluem as tvs do mundo hoje em dia. Os documentários no filme industrializam noções e ícones de forma sensacional. Algo que, mais uma vez, nos traz aos dias de hoje.

Network é um filme sensacional. Pouco conhecido, ao que consta, mas que deveria compor a cinegrafia obrigatória de qualquer jornalista e, mais que isso, de qualquer um que um dia já se incomodou com "essa caixa que só diz mentiras", segundo Beagle em uma das suas messiânicas e impactantes explosões. Todos esses componentes kafkianos, esse absurdo do cotidiano, leva o filme a um desfecho impressionante e sombrio - sobretudo dados os paralelos com a mídia de hoje que o filme, a exemplo do personagem Beagle, conseguiu profetizar com invejável acurácia.

Apenas para concluir: outro momento genial e inesquecível dá-se no diálogo de um desvalido Beagle com o executivo da rede de TV, que lhe afiança que o mundo, a democracia, a sociedade, a política, a ideologia, nada disso, existe. O que existem são as corporações e o dinheiro - você pode acompanhar isso aqui, mas apenas em inglês - isso tudo em 1976, anos antes de Reagan e do Consenso de Washington. Incrível.

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