Meu óculos e eu tivemos um ano de uma relação extremamente desagradável, de aceitação e simbiose mútua por puro interesse: eu preciso deles para enxergar longe e para não agravar os graus de desvio da minha visão e eles precisam de mim para ter uma função, porque do contrário, não existem em si. Só eram óculos porque eu os depunha no nariz. Detesto óculos. E hoje, sem querer, quebrei a armação ao acordar e, estabanado, esbarrar na mesinha de cabeceira e, assim, derrubá-lo inapelavelmente.
Pronto, de volta ao mundo turvo por uns dias. Gostaria que aquela frase do Saramago "por vezes precisamos fechar os olhos para enxergar melhor" se aplicasse ao caso, adaptando para "por vezes precisamos quebrar os óculos para ver mais longe, e nitidamente", porque ando precisando atinar com um rumo e minha miopia não ajuda nada a tentativa de perscrutar o horizonte da vida e ver, afinal, o que vem por lá.

2 comentários:
Em 2006 eu decidi por conta própria que não ia mais ser míope e abandonei os óculos. Não deu certo.
Adoro esse texto teu. Adoro, moço. Bom, muito bom (e isso vai além).
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