sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Blasfemias 1

"... nada disso, não se trata de ateísmo, agnosticismo, má vontade, blasfêmia, magia negra, satanismo, provocação. Nada. Nada mais que meu deboche. Se eu tolero o seu direito de dizer que terei uma morte horrenda, em dor e miséria, permita que eu diga que isso é besteira, e que o sujeito que me impõe esse destino não só desdiz do meu alardeado livre-arbítrio, como também é muitíssimo rancoroso. Insisto, não é maldade, é exercício. Vem-me a mente que muito do que se diz, se prega, se escreve, se interpreta e se expande na nossa sociedade, na nossa cultura, é, na melhor das hipóteses, besteira. E não me venha de hipocrisia, porque diferente de você, eu li na fonte. Você ouviu as versões adaptadas e interpretadas com matizes friamente calculados. Vem-me essa vontade de dizer que é besteira desde a falta de respostas para as várias contradições de texto que encontrei e para as quais nunca atinei solução que desse jeito, por meus esforços e mesmo pela boca dos outros. Uma vez perguntei porque o filho imaculado precisava de batismo, se não tinha pecado original, posto que era rebento de uma virgem, e vinha sem pecado ao mundo. A única resposta foi: mistérios. Mas se é tudo mistério, pra quê livro? O livro não era para trazer o caminho da verdade (é a etimologia da palavra), mas só instila dúvida, contradição e realismo fantástico? Você diz para que eu meça as palavras, fala em castigo, me incute ao temor de algo que, a rigor, nem você sabe onde está, de onde vem, se existe mesmo, ou para onde vai. E outra, se me castiga, não é piedoso, bom, justo. Provavelmente eu sou mais justo que quem me amaldiçoa, porque eu cansei de ser zoado na adolescência e não roguei praga nenhuma, não causei dor, pranto e mágoa, embora possa ter me convulsionado em momentos de ódio e raiva, destilando meu veneno em momentos particulares de auto-comiseração de adolescente, mas sou humano, me dou ao direito de errar, cresci e cresço com isso. Você usou o exemplo do engenheiro do Titanic, que teria dito que nem que quisesse lhe afundavam o navio, e não deu outra, porque na viagem inaugural deu-se o desastre. Mas e aí? O livre-arbítrio não permite uma pretensãozinha? No bojo do Titanic não iam fiéis de nenhuma basfêmia, inocentes tolhidos da vida de maneira agonizante num oceano congelante? Crianças? Talvez um cidadão que impedisse a guerra de poucos anos mais tarde? No meio dessa gente talvez tenha se perdido a linhagem do sujeito que curaria o câncer! Quem vai saber? Convem, então, ceifar indistintamente a vida de 1500 pessoas inocentes e preservar o herege, que blasfemou acerca da segurança de seu navio? É desse tipo de misericórdia que eu abro mão regendo as veredas do mundo e que você não vê, não calcula e, pior, defende. Isso, entretanto, não desqualifica a noção de misericórdia, mas desqualifica a sua noção de deus, e por conseguinte, esse seu horror nas minhas piadas, nas minhas ponderações. Porque seu deus não é bom, não é justo, é simplesmente forte - e tua fé se constrói em medo. Se eu não posso criticar, não é uma doutrina, uma filosofia, um modelo que sirva para mim. Se não posso botar defeito, encontrar e apontar falhas, um dia esse feixe quebra, um dia essa ponte desansa, e afogamos todos como o homem descrito por Hesse. Não me entra na cabeça, no coração, que alguém seja pai, crie, dê-me condições de pensar e não queira que eu pense, que eu discuta, que eu cresça, que eu conheça, e que desafiando, eu progrida. Esse não é pai, é padrasto. É pastor, sempre a nortear o rumo do rebanho, impedindo que este o trilhe por si, e quem precisa de pastor é ovelha. Não sou ovelha, sou homem".

Blasfemai, meus queridos, blasfemai!

Evangelhos de Tertuliano.

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