Na rodoviária, um pai entretinha o melhor que podia o curioso deslumbramento do garotinho que, olhando a todo movimento, disparava suas perguntas. E eu, sentado ao lado e na minha espera e cismas, resolvi distrair a mente do que tinha comigo e prestar atenção no diálogo.
O garoto, então, esgrimiu um “pai, por que o ônibus faz barulho?”. Confesso que não prestei muita atenção no esforço que o cidadão faria para responder e comecei a reagir como se fosse meu filho, e eu o desafiado a respondê-lo. No começo, fiquei feliz com a primeira pergunta, que é de coisas técnicas, e eu sou bom nessas coisas, posso dizer com facilidade porque um ônibus faz barulho: faz barulho porque tem lá dentro um motor e um motor é uma máquina que transforma um tipo de energia, nesse caso óleo diesel combustível, em outros: som, movimento e calor.
Mas responder uma criança assim não é batalha ganha. Não porque você levanta outras questões (eu adoraria, daí em diante, ir de item a item dando as definições), mas porque a resposta acaba alheia demais ao que, eu acho, um guri vá entender. E, depois, se o guri fosse esperto, poderia desarmar todo esse raciocínio com “mas então porque um ônibus elétrico não faz barulho?”.
E aí me encontrei com a dureza desse desafio de paternidade, que está no diálogo, na forma pela qual estabelecemos as pontes pelas quais trocamos ideias e sentimentos, ou mesmo definições de mecânica, física e química.
Não sei se minha resposta seria adequada para um filho meu. Não sei, também, se quando ele nascer, eu não vá virar uma outra chavinha cá comigo e ganhar todo um novo vernáculo dedicado a como construir conversas com essa criaturinha de sorte que minhas definições e respostas sobre a vida, o universo e tudo mais façam-lhe qualquer sentido.
O que eu sei, crianças, é que espero ter sempre paciência e a calma para responder, para pensar, para dar a vocês somente o melhor de mim. Seja na hora do carinho, da brincadeira, da bronca, do afeto e da hora de dizer porque ônibus fazem barulho.
domingo, 23 de julho de 2017
Diálogos e crianças
às 09:28 Marcadores: Cartas aos meus filhos

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