Aí eu faço balanços. E me lembro que eu não sou de jogar fora, que eu sou uma ótima pessoa, que eu realmente me esforcei e que, antes de apontar o dedo na direção dela, abaixei a cabeça e fui cuidar da vida, estudar o futuro e me corrigir, na ingênua expectativa de que ela faria o mesmo. Que exilado e rejeitado conjuguei tudo em função de nós, mesmo lendo os sinais todos que me alertavam do fim, não arredei pé e fiz questão em deixar o coração aberto e os sentimentos todos puros. Que, mesmo desconfiado e ciente do que aconteceria, fiz sucessivos votos de confiança e a esperei de forma justa, ainda que engolindo em seco alguns sapos (quantas pessoas teriam essa postura?). Lembro que sou gentil, romântico e carinhoso, que sou fiel como um cão, que em nada nesses anos todos fui inflexível: nenhuma das minhas restrições, que foram de encontro ao comportamento dela e não foram combatidas de forma honesta e racional, sobreviveram. Eu comecei a adorar cachorros, por exemplo, a tolerar hábitos, encarar com normalidade morar em São Paulo e a não ligar para coisas que sempre achei que me incomodariam; ela ser desorganizada virou até um charme porque me dava espaço para eu contribuir, para eu organizar, para eu mostrar afeto e eu adorava mostrar afeto por ela. Meu esforço e convite a abertura, aceitação e tolerância, além de franco crescimento pessoal e evolução são o maior testemunho do meu compromisso, do meu esforço, da minha disposição de caminhar e de ir em frente - pena que nada disso é suficiente quando o amor da outra pessoa acaba. Isso tudo, pelo menos, redunda em um saldo positivo no fim desse exercício de futilidade (o que não vai a lugar nenhum eu considero fútil): saí dessa história muito melhor pessoa do que entrei.
Mas eu recordo que começamos muito, muito bem e que, de minha parte, estávamos muito, muito bem (é um crime soçobrar às paixões que me despertaram no peito naqueles últimos dias e não ter o privilégio de vivê-las). Acabar tudo assim, naquele auge que antecipa grandeza (porque tínhamos tanto para crescer), é o que machuca mais. Eu fui muito feliz ao lado daquela mulher e estava 100% convicto e investido na ideia de que manteríamos e construiríamos em cima dessa felicidade. Valorizava nossas ambições parecidas, o valor que damos às mesmas coisas, o firme conceito de fidelidade, o companheirismo, o apego à família, a ciência de que a vida pode, e deve, ser mais doce e tranquila. A ideia de morar, viver, de por metas no meio do caminho e estratégias para persegui-las a dois me parecia tão próxima, tão imediata que passei a ver a ideia de morar com ela, de trabalhar, de dar os passos e tomar as decisões que precisavam ser dados e tomadas como inevitável para esse ano: era tudo tão presente, tão possível, tão delicioso, tão excitante. Pena que ela foi tão infeliz ao meu lado, quisera eu ter percebido antes o desgaste.
O que leva à pergunta: o que faltou? Amor? Não de minha parte. Afeto? Não. Princípios e objetivos parecidos? Também não. Valores? Não. Compromisso? Sim, mas não também. Porque não foi falta de compromisso, ou ainda, não foi falta de valorizar a importância do laço, mas foi falta de, de fato, unir as pontas soltas. Faltou, e aí é só opinião e meu ponto de vista, mais abertura de parte a parte, mais diálogo (especialmente do meu lado) e maior clareza sobre como lidar com um compromisso (também culpa minha). Do lado dela, só posso especular, mas estimo que os sentimentos ali já tinham esfriado há um bom tempo.
No começo, criamos um cabo de guerra inocente. Eu testava todos os limites, ela se fazia/era forte e os expandia cada vez mais. As brincadeiras foram saindo do controle e viraram crueldades. Eu era alimentado pela sede dela em provar-se forte e digna das minhas exigências ridículas. Eu achava que, no fim, ela gostava de ser testada, porque ela dizia que era "bruta" e que eu estava aprendendo sobre ela. Não é bem assim: ela sofria, eu não aprendia nada e, anos depois, descobri que ela, de bruta, não tem muita coisa: é toda delicada e sensível. Nada disso, veja bem, é ruim. O ruim foi nunca ter conversado sobre isso, ou eu ter sido mais maduro e percebido melhor as coisas, os limites.
Nós nunca conversamos, na verdade, sobre nada sério e de forma séria - o que é culpa minha, o meu grande ônus, o meu grande defeito nessa história: eu reagi mais às circunstâncias em vez de ser mais pró-ativo, de me antecipar melhor, de me abrir, de me entregar antes e mais. Foi uma escolha, mal calculada e infeliz. Não fiz por mal, de forma alguma, e não me torturo por essas coisas, mas foi um grande erro. Eu demorei para perceber isso e essa é uma grande, enorme culpa minha, essa inaptidão de colocar as coisas em ordem, de falar, de perguntar, de ouvir, de trocar ideias. De vestir a camisa mais cedo, de encampar as ideias que precisavam ser tidas e praticadas para orientar o nosso caminho. Faltou matar no peito antes, chamar, dizer: vamos.
De resto, houve a depressão que me impediu de me entregar antes ao que sentia. Sem isso, essa entrega, torna-se inviável se abrir, se doar como eu devia ter feito. É uma sensação engraçada essa, de assumir responsabilidades por coisas que, no fim, nem eram exatamente culpa sua, mas de uma forma ou de outra, estavam na sua mão para corrigir.
Mas... não me arrependo de nada. Nesse último ano, eu estava acordando, pronto para a vida, completamente disposto e entregue àquela mulher, cheio de amor, de carinho, de interesse: se ela argumentasse qualquer coisa, eu ouviria e iria em busca do que quer que seja porque estava devotado a essa ideia de nós. E nada dá maior testemunho dessa força de vontade do que a minha revolução, do que a minha fiel espera, do que a solidez dos meus compromissos. Nesse último ano, a imagem de eu e ela, contra tudo e contra todos, conspirando uma vida a dois, nossa, enorme e inteira era algo natural, certeiro, algo que eu queria construir, missão para qual estava me preparando, evoluindo.
Mas, se eu por um lado sempre errei no diálogo, ela também escolheu guardar cargas e rancores diversos para um ponto de ruptura, nós dois fomos omissos por inocência e, no fim, ela decidiu ir embora porque cansou, o que é legítimo e previsível. Eu não a julgo e censuro por ter cansado, por ter ido. Entretanto, me entristece que tenha cansado sem que tenhamos conversado antes, sem que tenhamos tido a maturidade, a abertura, a preocupação de zelar por nossa união mais cedo. É triste que tenhamos nos omitido.
O peso desses desencontros que explica porque, desde que brigamos, não houve mais nós: cansada, ela se omitiu de qualquer diagnóstico e solução para corrigir uma situação trivial de casal que se desentende. No fundo, o que eu fiz de errado nessa história foi ter-lhe dado de bandeja a desculpa para ir embora na forma de uma briga que, a rigor, teve erros de parte a parte, mas dos quais só eu fui penitente. Desde ali, estava dada a letra da metade de um amor morto. Porque aqui, vive.
E eu também acho extremamente revelador o cansaço dela a meu respeito em contraste com meu estado de paixão desvairada no fim do ano, a minha carência dela, a minha sede daquela companhia, daquela mulher, a minha vontade de tocá-la, de abraçá-la, de falar com aquela criatura por meio do meu toque, da minha voz e do meu olhar; minha voz pedindo atenção e o silêncio de quem, se não compreendia o pedido, também não perguntava nada mais para entendê-lo. Infelizmente, a mulher que eu mais amei e que semeou tanta coisa boa na minha vida, já estava esgotada de nós há muito tempo e o que eu fiz de ruim, na verdade, foi ter lhe dado a desculpa para o fim. Tenho impressão que se não brigássemos, nuns meses ela viria com o fatal "estou confusa/temos que conversar" e aí daria tudo na mesma.
Acabou, infelizmente, porque ela cansou e os rancores todos nunca foram tratados. Eu devia tê-la acalmado, tido a clareza de fazê-la me entender melhor, de estabelecer formas de diálogo mais profundas e íntimas de sorte que ela percebesse melhor as coisas que se passavam comigo, de ter dito o que eu via no futuro imediato, de quão sério eu estava sendo, construir essas pontes de conversa mais amplas para ter dito ainda antes daquela viagem que eu estava me acertando intimamente para que 2017 fosse nosso grande ano de mudanças, de evoluções. Mas para ter abordado essas questões todas, eu precisaria da estrutura emocional que eu tenho hoje e que me era inacessível naquela altura porque eu sequer reconheceria que havia um problema, há toda uma letargia associada a esse piloto automático de um relacionamento que me parecia tão natural, tão condenado a funcionar, tão firme e pronto para o amanhã e a eternidade. É um paradoxo irredutível: para consertar os erros, eu teria que ser o homem que sou hoje, ciente deles e dos problemas, e das ferramentas disponíveis; conhecimentos todos que só nasceram em mim depois de profunda, sincera e ponderada análise a respeito da crise criada pela ausência dessas percepções todas. É tão triste se despedir desse amor com a lucidez de que os erros foram tão pueris, os problemas tão fáceis de ser arrumados, os sentimentos tão intensos, os objetivos tão parecidos, os inícios de convivência tão doces e promissores, a verdade das minhas entregas tão honesta. É a maior desgraça nessa história: ao menos de minha parte, era tudo tão possível, verdadeiro e tão apaixonante.
Mas, claro, tudo isso é só o meu ponto de vista. Provavelmente, estou sendo injusto numa porção de coisas, se não mesmo completamente incorreto (e eu sei, sim, que em diversas ocasiões fui injusto, duro e abjeto no trato com ela, especialmente naquele começo de testes e crueldades, que cavei uma das covas em que ela nos sepultou e nunca, nas minhas ponderações, me omiti dessa penitência). Mas, opiniões, afinal. Entretanto, o que fica dessa história, além de uma porção de lições importantes e que carrego comigo, é um amor enorme e muita gratidão. Eu a respeito e amo, mesmo, apesar de tudo, e ainda sinto só coisas boas por ela porque, ao menos no que se refere à mim, acabamos naquilo que eu reconheço como um dos momentos mais felizes da minha vida que só não brilha completamente redentor sobre a minha cabeça porque há uma mancha e essa mancha é o buraco que ficou quando me arrancaram o coração do peito. É frustrante porque eu estava absolutamente pronto para a vida ao lado dela, estava completamente apaixonado por aquela criatura e sorvendo as delícias das memórias que me vinham dos excelentes momentos que tivemos juntos em 2016 e das coisas que eu planejava e via no amanhã. É uma grande perda, uma grande pena porque - mais uma vez, é um ponto de vista pessoal - tudo saiu do controle no auge, no melhor momento, na fase que antecipava os passos decisivos em direção ao futuro.
Se eu não me sentisse assim, talvez esse texto nem existisse e tudo estivesse bem resolvido há meses. Mas é o ônus de amar, muito, uma pessoa que não existe mais e que não está nem aí - infelizmente.
Eu fiz tudo que podia, dentro da exígua margem de manobra que ela me deixou para sobreviver no limbo desse tempo e não perdê-la. Isso me conforta. Assim como me conforta lembrar que, no começo de tudo, setembro de 2012, eu disse: daqui um tempo, você cansa dos meus defeitos, as minhas fraquezas deixam de ser bonitinhas, aí você escolhe uma desculpa qualquer e vai embora. Todas vão sempre embora. Ela, apaixonada, respondeu que era diferente, que nunca, que com ela era para sempre. Ela foi a primeira a usar o para sempre.
E sobre essas palavras bonitas, esses pra sempre, fica mais uma lição: é muito fácil sair prometendo mundos, dizer essas coisas no auge da paixão. O difícil é manter de pé essas coisas nas crises, depois que as falhas e defeitos do outro ficam evidentes, depois que o turbilhão do coração inflamado passa e a realidade se assenta. Eu, com todas as culpas (e não são poucas) e defeitos que tenho, ao menos posso dizer que depois de toda essa confusão e de todos os problemas, ainda vejo meus votos de até o fim da vida como firmes e verdadeiros. Na equação da vida, eu fiz dela uma constante, diretamente proporcional a coisas boas, a amor e felicidade. Na equação dela, eu era uma variável que, no fim, tendia a zero: no resultado dela, eu sou irrelevante.
Mas, no fim, ela cansou, escolheu uma desculpa e foi embora.
E é uma desgraçada pena que eu tenha, sem querer e de forma bastante infeliz, contribuído para que ela tenha cansado, escolhido uma desculpa e ido embora.

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