No meu exercício de construção do homem do amanhã tenho contemplado a minha infância e adolescência de olho nas lições que o percurso, nem sempre bem resolvido, pode me dar quando for a minha vez de, no melhor das minhas capacidades, orientar, guiar e dar condições ao futuro dos meus filhos. Provavelmente penso nisso porque hoje é dia 29 e somaria, caso vivo estivesse, 71 anos o meu pai.
E nesse exercício, um dos capítulos que mais me ocupa a mente é a questão de como se estruturar um futuro cheio de perspectivas para crianças que nascem em um mundo conturbado, à luz de questões ambientais, sociais e políticas que não apontam para um destino assaz alvissareiro. Água vai começar a faltar, nada garante que a dependência dos combustíveis fósseis irá diminuir, a população só aumenta num contexto de automatização e robotização do mercado de trabalho que muito me preocupa.
Mas, olhando a minha experiência, posso encontrar alguns pontos em que posso trabalhar para dar melhores condições aos que terão a honra de ostentar o meu nome, carregar minha informação genética e, com alguma sorte, fazer o favor de potencializar os meus talentos, aptidões e acresce-las de muitas outras. Quero, um dia, me sentir burro diante dos meus filhos.
E um dos pontos que encontrei é de não apenas instigar a curiosidade, coisa que meus pais sempre fizeram, mas tentar alimenta-la. Quero minhas crianças desbravando o mundo, quero que aprendam, entendam as coisas, e tenham mais do que nunca tive: iniciativa, desinibição e um pouco mais de coragem para desafiar os limites impostos – eventualmente até por mim.
Nesse sentido, vou começar uma poupança para ter dinheiro para financiar esse projeto, o da vida dos meus filhos. Vou começar a guardar dinheiro não apenas para poder financiar uma viagem ao exterior, um intercâmbio, educação de qualidade. Vou guardar dinheiro para que eles tenham recursos, que desenvolvam ideias, que as persigam e saibam que o combustível financeiro estará resguardado.
Tenho pensado assim depois de ler muito sobre a vida de grande empreendedores, em especial a de Elon Musk. O homem, com todas as suas excentricidades e perspectivas iludidas, tem grandes chances de mudar o nosso mundo em algumas décadas e, sabendo do seu perfil, de como vê o mundo, de como, sobretudo, cresceu e se tornou o que é hoje, identifico nele alguns traços que eu tive na juventude. Isso quer dizer que eu teria chance de ser um Elon Musk? Não necessariamente, mas apenas que talentos e predisposições mal aproveitados são um grande desperdício e num mundo que fica cada vez mais restrito às pessoas, instigar, valorizar e se esforçar para que seus filhos tenham como potencializar esses talentos é algo de extrema responsabilidade e importância. Paternidade, em qualquer medida, é um grande contrato, uma responsabilidade enorme e eu tenho levado isso muito à sério porque se não for para ser algo feito com atenção, zelo, planejamento e interesse, não faz sentido fazê-lo (até que você engravida alguém por acidente, a garota aborta e a vida nunca mais é a mesma; mas isso é tão 2010, é história para outro dia).
O que não quer dizer que estou jogando às costas de quem sequer existe a responsabilidade de mudar o mundo e virar bilionário. Não. Estou, ao contrário, me obrigando a cuidar do amanhã com o amor e paixão que atendo ao presente, garantindo que, na hipótese de ser pai, essas adoráveis criaturinhas tenham a chance de atingir, na vida, o que de melhor puderem e quiserem ser, seja lá isso o que for: de novo Werner Von Braun a artilheiro do São Paulo FC, de padeiro ou professora a piloto de F1, de oncologista renomada a pastor.
Minha primeira obrigação é zelar, fortalecer e dar todos os meios para que esses potenciais floresçam, amadureçam e frutifiquem.
domingo, 2 de julho de 2017
Construção da paternidade
às 19:25 Marcadores: Cartas aos meus filhos

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