segunda-feira, 3 de julho de 2017

Eu sou o meu próprio herói

Mas eu não consigo ficar triste. Sinto um tipo de dor, saudade. Mas o que mais me aborrece é essa nostalgia do futuro que não vem, é saber que o amor que nós tínhamos é tão raro, que tínhamos tanto por nós, que atravessamos anos, com distância e tudo, que eu estava tão feliz naquela viagem, tão leve, tão apaixonado. É injusto demais sentir algo assim e não poder curtir isso e é duro ficar lembrando que a vida não é para ser justa e isso que incomoda, essas conclusões que você não pode debater. Mas, no meio de tudo isso, eu não consigo ficar triste. Eu acho isso estranho.

- Mas isso é uma coisa boa, não?

É, sim. Mas é estranho. Eu sei o que eu sinto, o que eu quero, o que eu desejo e o que eu posso fazer. Eu tenho tudo com muita clareza, assim como aceito que nada disso importa no fim das contas, porque eu, sozinho, não faço as coisas virarem. Só que, ao longo da vida, eu me acostumei a, em situações parecidas, me sentir mal, em desespero, a sofrer muito. Eu sempre associei tristeza a rejeição, a abandono. Entende?

- Meus parabéns.


Como assim?

- Você chegou aqui sem saber o que queria, sem saber que tipo de ajuda precisava. Você chegou aqui porque estava numa encruzilhada da vida e se sentiu com medo de errar, de não saber o que fazer, de ter remorsos, de ter tristeza. Você veio pra cá no limiar do desespero porque, no fundo, você sempre soube que havia alguma coisa errada e você não queria cair no buraco novamente. Hoje, você tem clareza, você identifica o que sente, você não está mais com “aquele véu” que cobre a realidade, como nós falamos lá atrás. Na minha opinião, você está liberto, em paz, em equilíbrio e, sendo honesta contigo, conheço casos de pessoas que passam por terapia por 10, 15, 20 anos e não chegam perto do avanço que você teve nesses meses. Você quis, procurou, se permitiu e, mais do que tudo, amou a mudança. Parabéns.

Mas ainda assim me incomoda. Eu tenho medo de que, sem tristeza, sem luto, sem dor e sofrimento, eu não vá superar o que eu sinto.

- Essa é uma ótima questão. Eu não sei a resposta, você vai descobrir com o tempo, mas eu acho que você vai superar sim, e se for sem sofrimento, muito melhor. Porque você está aberto à vida e a vida surpreende, você não está em pé de guerra com você, com as circunstâncias e, como me diz, não está sofrendo, embora se reconheça triste. Pare e pense, há um ano, você esperava todas essas transformações? Você mesmo me diz que não se arrepende de nada, porque você reconhece que, há muito custo, cresceu como pessoa e que não pode nunca abrir mão disso. Acho que é inevitável que você aprenda a conviver com o que sente em paz, até porque já está fazendo isso há um bom tempo. Essa sua impressão sobre tristeza e dor serem o jeito certo têm a ver com o que você foi, não com o que você é. Tem a ver com a depressão, que marcou a sua vida, e se alimentou, de momentos chave e que fez você assumir que as coisas são assim. Você fez esforços heroicos para equilibrar razão e emoção nesses meses todos e acho que devia, acima de tudo, se sentir orgulhoso de tanta força, de ter sido honesto com você mesmo e paciente. De ter sido tão gentil contigo ao mesmo tempo que foi honesto com relação a uma outra pessoa, por mais que isso tenha cobrado de você, tenha doído, tenha posto você sob pressão e em cheque o tempo todo. Nós falamos sobre construir sentido, sobre encontrar coisas das quais se orgulhar, e essa sua história toda, na minha opinião, é uma das suas maiores vitórias nesses meses todos e talvez da sua vida. São poucas as pessoas que podem sair de um relacionamento dessa importância com esse equilíbrio.

0 comentários: