segunda-feira, 10 de julho de 2017

Anatomia do fim em 13 capítulos

Primeiro capítulo

Nós brigamos. Ela me colocou numa situação impossível e, sim, eu perdi a paciência. Mas ela também perdeu o limite, e isso horas antes. Mas, antes que eu perceba, a coisa toda gira em torno dos MEUS erros, da minha culpa, do meu comportamento. Do nada, como num passe de mágica, a parte dela nessa tragédia some: ela pode, eu não. A culpa então é toda minha e eu me abraço, como de costume, ao papel do errado, do culpado.


Infelizmente, demorei muito tempo para perceber que não houve, daquele momento em diante, nós: houve eu e as minhas culpas, e ela, suas fugas e omissões. Não houve um casal corrigindo seus problemas e só isso, só a percepção desse detalhe, teria me polpado muito.

Segundo capítulo

Suporto olimpicamente a indiferença, distância de quem num dia te ama e quer viver a vida ao ser lado, no outro te evita e não quer ouvir o que você tem a dizer. Vou ser calmo, pensei. Ela tem o direito de se sentir assim, é natural, eu argumento no meio do meu delírio de que ela ainda me ama. Respira fundo, segura a onda, deixa passar uns dias.


Passam os dias, renovo minhas intenções e deixo bem claro o que pretendo para o novo ano e, penso, OK, brigamos, já entendi onde errei, espero que ela tenha enxergado os erros dela. Vamos, então, para a conversa que ela tinha me prometido.

Terceiro capítulo

Não há, nem nunca houve, conversa. Porque os meus argumentos já não importam, o que eu sinto, menos ainda: já fui julgado, já estou condenado. O que, somado ao comportamento do capítulo anterior e a total omissão de empatia e de percepção de participação na criação do problema, já devia ter acendido o meu sinal de alerta. Mas, assim como no primeiro capítulo, eu me abraço ao sentimento de culpa: eu errei, eu sou um monstro, eu sou imaturo (sim. Aparentemente, dizer que se diverte horrores com os seus amigos, como quem esfrega sal na ferida dos outros, enquanto reforça o quanto é fácil me odiar, jogando responsabilidades que eu nem sabia que tinha nas minhas costas, é sinal de maturidade). A gente sempre aprende com esse povo avançado da sétima série.

Mas eu sou romântico e eu realmente amo, então eu não percebo as hipocrisias e as falhas nessa argumentação que quer me fazer culpado, que quer me por contra a parede, que quer me exilar. E mesmo me derramando de amor, ainda encontro lucidez para escrever que eu sei onde isso vai dar, que amor não vive em inanição e que esse é só um método redução de danos certeiro para me deixar em alguns meses. Spoiler: eu tinha razão, acertei até a quantidade de tempo, previ todo o comportamento dela durante cada passo desse processo. Só nunca, nunca, nunca teria adivinhado o método do fim.

De tudo nesse capítulo, o que mais doeu foi saber do ódio, porque dessa vez eu não agi sozinho, eu reagi ao que me foi posto, doeu se sentir abandonado no meio da crise e da oportunidade que ela enseja. Não tive espaço para defesa e acabei com a culpa toda nas minhas costas, enquanto tive que, no auge do meu amor por alguém que já não existia, ler “que sou boa em te odiar/você é imaturo”. Passo a entreter a mente, e a rir, pensando na situação inversa: e se fosse eu que tivesse batido a porta e fosse indiferente à carência dela?

Quarto capítulo

Apesar de, sempre tardiamente, identificar essas hipocrisias todas, ponho em marcha uma promessa que tinha feito a essa mesma criatura, dizendo que 2017 seria o ano de começar a vida, de por as coisas em ordem e de crescer. Decido por tudo em ordem, não necessariamente por nós, mas especialmente por mim. Vou para o divã, começo a fazer exercícios físicos puxados e a pintar o cabelo: descubro muitas coisas no divã, emagreço 12 quilos em poucas semanas e me vejo sem cabelos brancos, pela primeira vez, desde os 17: numa paulada só, sou lembrado da minha força (eu sempre fui duro na queda, lembrar disso, saber como e por que isso se perdeu de mim durante um tempo foi como nascer de novo), resgato todas minhas qualidades, lembro que sou um cara atraente. Me divirto com os flertes de algumas garotas, que abato em pleno voo, porque meu coração, destino e alma têm dona: sim, é ela, só pode ser ela. Mas, de couro fustigado pela rejeição da mulher que eu amo, me sinto bem em ser desejado porque fugir da depressão também é construir autoestima. Começo uma nova faculdade, me sinto feliz em me encontrar com novas aptidões e perspectivas excelentes de uma carreira nova. Amo aprender coisas novas, conheço gente e me sinto forte, revigorado e pronto. Fico sem saber se devo compartilhar minhas boas notícias com ela, mas opto pelo silêncio. Ela quis distância. Talvez devesse tê-la apenas comunicado: estou colocando tudo em ordem e pondo todos os meus compromissos em prática. Mas, não acho que tivesse feito alguma diferença porque o mesmo interesse que eu tive em contar as boas novas teria que ser dela em sabê-las e a mulher me exilou completamente.

Emocionalmente, separo as coisas: sim, eu a amo e posso identificar com precisão a extensão, profundidade e importância desses sentimentos; e consigo enxergar que o que ela fez de ruim foi por defesa, e eu perdoo porque eu também já fui inseguro e com medo e eu sei que tudo o que aconteceu foi bem ruim: não me eximo do que fiz de errado, lamento que o tenha feito, mas já fiz minha paz, pedi as minhas desculpas e sinalizei minha intenção de conversar, virar a página e construir algo ao lado dela. Me sinto forte, feliz por saber do que sinto e preparo um documento lindo sobre o que devemos fazer para acertar a nossa vida e andar juntos. Crio um tumblr secreto só para falar do que sinto por aquela criaturinha e para dar espaço aos textos que evito postar aqui por não querer que ela me veja me derramando de amor enquanto ela me ignora: nesse momento, eu me sentia injustiçado. Pelo sim e pelo não, engenho planos mirabolantes de demonstração de amor para adoçar os dias daquela mulher menininha e brinco de imaginar a surpresa que provocaria com essas coisas - mas não consigo ter a coragem.


Racionalmente, com uma série de conclusões sobre os capítulos anteriores, me preparo para o fim e, nessa de tempo, faço o que qualquer pessoa ajuizada faria: me isolo e dou a ela o espaço e tempo que ela quiser. Mas tudo com a certeza de que mais dia, menos dia, ela vai terminar comigo. Sigo mantendo meus esforços para não perturba-la, mostrando respeito, confiança e controle, baseado nas minhas convicções: amo você, mas não posso te alcançar nesse lugar onde você se colocou, você precisa dar, ao menos, o primeiro passo.

Iludido, faço planos. Planejo tudo para prazos flexíveis, um ano, dois anos, três. Começo a definir metas e pensar em formas de alcançar objetivos práticos. Ainda hoje, rio da minha ingenuidade. Eu mal sabia.

Quinto capítulo

Quando percebo que de lá não volta nada, intensifico a preparação para o fim. Enviei um poema doce e amistoso, e sequer obtive resposta: ela poderia ter dado um fim a tudo, poderia ter respondido de forma amistosa e interessada, reatando o contato. Mas ela escolheu a coluna do meio: nada, nada, como se não tivesse recebido, ou eu não existisse, ou como se estivesse tudo dito, e não estava. Passei uns dias rindo do ponto a que chegamos depois de tanta besteira, sem saber o que ser ignorado significava na minha situação. Só sei que foi muita maturidade. Fim à vista, começo a desencanar e a me preparar emocional e mentalmente para encarar o término.


Entretenho a mente pensando, mais uma vez, na situação contrária: e se fosse eu que não respondesse nada a um e-mail bonitinho dela?

Apazíguo o juízo lembrando que nunca, jamais, ela me deu motivos para desconfiar de suas inclinações e sentimentos, que ela sempre teve um comportamento inquestionável e correto e dou, sem nenhum esforço e remorso, um voto íntimo de confiança porque ela merece.

Sexto capítulo

É domingo. Chove pela manhã e aborto o acampamento no meio da serra porque me desanimo com o prognóstico de chuva ao longo da segunda-feira, feriado. Na estrada, enquanto meu irmão dirige, saco o celular para passar o tempo. Há meses que não consulto o Instagram da indigitada, mas dessa vez me bate curiosidade porque sinto muita falta dela. E dos cães.

Ela não está mais entre meus seguidores. Hum.

Sétimo capítulo

Me sinto profundamente humilhado. Ela terminou comigo e não me avisou? É isso mesmo? Checo os e-mails, nada. Dou uma olhada nos apps de mensagens e descubro que estou bloqueado em tudo e, me pergunto, há quanto tempo? Lembro do poema: ela já tinha “terminado” comigo naquela altura e não teve a gentileza de me avisar? Sério? Ela me odeia tanto assim, mas por quê? Eu não mereci uma despedida? NADA? Ou o conceito de tempo, que ela fez questão em não explicar, consiste nisso: separação unilateral até que um dia, quem sabe, ela tenha vontade?

Paro, respiro, e penso: claro que ela terminou, era o que eu estava prevendo, mas gostaria de saber como é possível que ela tenha tão pouca consideração. Talvez tenha acontecido alguma coisa e, enfim... vamos dar o benefício da dúvida, ela sempre foi correta e sensata.


Ainda incrédulo pelo método (não pelo fim), fico pensando: e se fosse o contrário? Ou E se eu não tivesse olhado o Instagram por mais alguns meses, ficaria tudo assim? Ela, seguindo a vida dela, e eu a esperando? Me gela a espinha imaginar o constrangimento que sentiria eu quando, depois de mais algum tempo, fosse tentar falar com ela novamente e fosse mal recebido. Como ela pôde achar OK conduzir as coisas assim?

Sétimo capítulo

Em casa, escrevo um e-mail, leve, mas direto e sincero, cobrando uma posição. Porque até onde ela tinha me dado a saber, era um “tempo” (haha). Nada de resposta.

Oitavo capítulo

A resposta chega, dois dias depois, acho. Duas linhas, aparentemente é o que eu mereço, afinal, sou só um casinho de balada que se prolongou por algumas semanas. Alguma coisa sobre não termos paz e sobre cansaço. Fico aborrecido em saber que os motivos são tão vagos, mas eu a respeito: não tenho direito nenhum de contestar o que quer que ela sinta, ou não sinta, sobretudo depois do que ela fez, depois de meses na geladeira fica bem claro que a mulher, se não me despreza e odeia, sente indiferença a meu respeito e onde há indiferença, de fato, não cabe amor. É bem ruim engolir essas razões e esse buraco enorme de quem vai embora porque simplesmente esqueceu você, e o fez porque o quis, mas eu fico em paz porque previra exatamente esse desfecho e porque, preparado, aceito o fim que ela escolheu pelo motivo que for. Sem qualquer tipo de rancor, mágoa e ressentimento, mando um e-mail cordial e delicado, agradecendo por tudo e, acho, dou uma bela lição de educação, gentileza, gratidão e respeito a quem me tratou com tanta falta de consideração e cordialidade ao terminar comigo sem ter a sensibilidade de me avisar. Epíteto ficaria orgulhoso.

Como achei que era a última correspondência da minha vida com a criatura, evitei cobrar satisfações pela forma pela qual fui tratado. Afinal, se alguém se dispõe a se comportar dessa forma para com o outro, é essa pessoa quem tem problemas. Não eu.

Extremamente treinado para o episódio, me sinto bem e sem trauma, sem tristeza e sei por no lugar cada uma das sensações: frustração, tristeza, saudade e o amor que eu sinto. Porque a desolada e magnífica desgraça dessa coisa toda, a verdadeira tragédia, é o fato de que eu amo ela de uma forma bonita, indolor, entregue. Então, ela me ferir, me ignorar, me humilhar, me abandonar é, no fundo, irrelevante porque amá-la é um tipo de rebeldia, de liberdade: ela não pode me impedir, por mais que me deteste, que me despreze, que tenha raiva ou pena, ou até a mais gelada indiferença. Pela primeira vez em meses, posso dizer que me sinto realmente em paz: estou insatisfeito com a situação (amor, os sonhos, desejo e a saudade, e tudo mais), mas estou leve porque há um ponto final numa história que eu não conseguia mais prolongar no limbo e no vácuo. Perdoo a maldade e a injustiça, aceito que ela não me queira mais, e bola pra frente porque eu tenho um coração enorme para cicatrizar e cuidar.

Nono capítulo

Ciente do fim, desenterro textos que escrevi, além de cometer muitos outros, sobre essa pessoa e começo a postá-los no meu blog porque agora não há mais perigo, agora posso mandar berrar o dia inteiro que ela é meu máximo denominador comum nesse pedaço da minha vida que não interessa a ninguém, a não ser eu e o meu futuro. Preciso escrever porque a escrita e a leitura são importantes, ajudam, muito, a equilibrar meus sentimentos. E, agora que acabou, nada mais justo que liberar esses sentimentos, esses coágulos, todas essas coisas maravilhosas que vivem aqui dentro, porque ela pode me desprezar à vontade, mas eu a amo e eu acho o amor uma coisa preciosa, misteriosa e bonitinha, então vivo bem com o que eu sinto; meio que admirado como o garoto que descobre o primeiro beijo. Também me dou ao direito, como tinha me preparado, a sentir cada coisa a seu tempo: me dou uns dias para tristeza, para saudade, para amor e carinho e, com calma e consciência, vou me deixando sentir e cicatrizar cada coisa na forma de textos e ponderações sinceras e em completa harmonia com meus sentimentos. Um bom tempo de preparação e meditação, enfim, mostra como compensou ser racional.

Me sinto bem, em controle, em paz, conformado e apaziguado com o passado e com o futuro que, infelizmente, não vem mais. Começo a fazer meus balanços e admito, pra mim mesmo as minhas culpas, e que, no fundo, ela é igual as outras: cansa, vai embora, que ela quis isso, talvez estivesse bem cansada já há um tempo e a briga foi a desculpa para acabar com tudo. Que ela, no fundo, nunca me perdoou por nada de ruim que eu fiz (o que é direito dela e culpa minha), e essa carga sempre a seguiu e por isso, qualquer coisa que eu fizesse, mesmo que não fosse grave e culpa minha, ia somar nessa lista de pecados que ela guardou no coração e que, sem diálogo, essa pressão iria mesmo estourar eventualmente. Recordo que o episódio todo não foi para tudo isso, que não foi culpa exclusiva minha e que, no fundo, ela já andava de saco cheio de nós. O que eu fiz foi dar uma desculpa para chutar o balde, porque caso ela me amasse mesmo e estivesse comigo pelo longo prazo, nada explicaria essa falta de compromisso com seus erros e a omissão no processo de cura e de correção dos nossos rumos. Lembro que eu fiz o que eu pude, dentro das estreitas margens de manobra que ela me deixou.


No fim, a verdade do “quem não te procura, não sente a sua falta, e quem não sente a sua falta, não te ama” liberta. Não tenho mágoas, sigo amando e me sinto em paz porque me convenço de que amei uma miragem e que, afinal de contas, tive culpa no processo que levou ao fim. Lembro dela com saudade, gratidão e carinho e, mesmo que tente, não consigo sentir ódio, raiva, crucifica-la e, em vez de me sentir frustrado por não ter esse recurso fácil à mão, me sinto orgulhoso em ser capaz de me afastar de quem eu amo tanto sem essa carga. Leio incerteza, dúvida, cansaço no comportamento dela e, por já ter encarado coisas assim, sei como esses sentimentos pegam e a respeito pelas suas escolhas, embora discorde. Toca combater o platonismo pelo fantasma da mulher que não existia há tempos e seguir a vida.

Décimo capítulo

Aí percebo uma coisa. Ela tem acessado meu blog diariamente, várias vezes ao dia: houve ocasiões com cinco acessos. Ela lê algumas das coisas mais abertas, sinceras, doces e profundas que escrevi na vida sobre amor, sobre ela. Lê sobre as minhas descobertas e meu processo de descobrimento. Do nada, vou de 0 a 100 e perco o sossego. Começo a alimentar esperanças, resgatar meus planos de gestos apaixonados e demonstrações loucas de amor, começo a tentar entender o que se passa. O coração bate mais forte, o amor me assalta, me inunda, me toma.

Mas uma voz grita no meu peito para parar, para desligar, para dar com a cabeça nas paredes até que essa coisa toda morra, para arrancar o coração do peito eu mesmo porque se eu deixar, é ela quem vai fazer isso de novo, vai arrancar, cuspir, chutar ele na sarjeta outra vez (e adivinha...); a voz grita para tirar o bendito blog do ar. Não tiro. Escrevo, em cinco páginas, o que poderia ter escrito em 50 e, mais uma vez, envio. Sei que não vou ter resposta, quem sabe apenas mais um gelado pisão no meu coração. Mas eu não seria eu mesmo se não tentasse e eu gosto de ser eu mesmo.

Ela recebe e, lá dos Estados Unidos, ainda vê meu blog mais dois dias, e silêncio. Como fez, aliás, na véspera de terminar: leu e leu, e demorou por esses posts, provavelmente se convencendo de A ou B - porque o jeito maduro de decidir se você gosta de alguém é ler nuances da vida da pessoa num blog, não conversar com essa pessoa para avaliar a situação. No meio do turbilhão de sentimentos despertos e da esperança, não sei mais o que pensar, apenas que a conta não fecha e que nada disso vai terminar bem pra mim no curto prazo porque eu me sinto indefeso, vulnerável e em exposição à violência de quem não sente nada, sequer respeito pelos meus sentimentos. 


Taí, idiota, parabéns.

Décimo primeiro capítulo

Claro que não veio resposta.

Décimo segundo capítulo


Até que veio. Mais frieza, fim, acabou, morreu dentro de mim, não nasceu mais. Como ela diria, "eu truco": morreu nada, mas OK, sua escolha. Ou eu podia ter dito “mas claro que morreu! Era o que você queria, você se esforçou pra isso, você me exilou da sua vida exatamente pra isso. Você fez de uma briga de casal que ainda está se encaixando num cavalo de batalha, desgovernado e incontrolável, que eu passei meses tentando domar de olhos fechados e mãos amarradas. Não importava o que eu fizesse, a letra tava dada no dia em que você pediu tempo pra eu ir 'amadurecer'”. Ela escreve “dessa vez” não voltou, como se fosse igual as outras, o que me agride, porque não teve rigorosamente nada a ver com as outras... mas e daí? Aí eu me dou conta de que, claro, eu tinha razão, eu passei seis meses preparando a vida para uma miragem: a mulher criou uma narrativa toda dela para justificar decisões e, parabéns para ela, porque funcionou, me cortou completamente, acabou com qualquer sentimento que ela tivesse a meu respeito, enquanto eu me enamorava do nosso futuro. Dividindo culpas e responsabilidades, e conjugando tudo a partir do nós, eu nunca tive a menor chance. Foi quando eu mais fui "maduro" no trato com ela que ela me tratou da forma mais imatura.

Finjo que acredito que ela via aquele blog só para ver até onde eu ia falando dela. Finjo que não fico ofendido por isso. Em todo caso, é incrível, eu elenquei uma lista absurda de possibilidades para que ela acessasse aquelas páginas, mas só lá no final eu encaixei vaidade. E era por vaidade, pura vaidade - segundo ela. Se eu soubesse que ela tinha esse Ego todo, tinha caprichado mais nos elogios, que ela sempre desdenhou. Enfim.


Sugerir isso, aliás, é mais uma forma de me ferir: é dizer que meus sentimentos por ela são tão frágeis quanto eram os dela por mim, é admitir que em questão de poucos dias, ela esperava que eu me comportasse como ela, que esquecesse, quem sabe substituísse, que "morresse" aqui dentro - haha, ela ainda não entendeu, faz mais de seis meses e eu estou aqui, fazendo profissão de fé no sentido de que a amo, ela não aprendeu nada. É calcular que o meu "pra sempre" é tão fugaz quanto esse dela. É, enfim, me medir com a mesma régua pela qual ela mediu a si mesma.

Me sinto mal, pela primeira vez em meses, porque as esperanças todas morreram, porque me deixei iludir quando estava bem. Agora sim, dói. Penso comigo se ela não planejou tudo para me fazer sofrer, assim que percebeu que eu estava em paz. Tento entender por que complicar tanto as coisas, por que tanta falta de sinceridade, por que tanta indiferença, tanto medo, como é possível que eu sinta tudo isso e ela nada disso? Como é possível? Ainda me sinto humilde perante um amor que não morre. Mas, no fim, até entendo que ela tenha tentado ser mais correta, dar um fim mais digno, fechar as portas como forma de me impedir de ter esperanças.

Tento resgatar a minha preparação para o fim, que tinha me deixado tão sereno e equilibrado, tão em paz com meus sentimentos e com a escolha dela. Não funciona mais: porque eu me deixei ter esperança, e esperança não é algo que você tem de pouco, esperança vem num tsunami de paixão, carinho, saudade, amor e me pego infeliz, machucado e em desespero. Começo a fazer planos e a me torturar toda vez que o romance salta na minha mente. A sensação que eu tenho é a mesma de coração cortado ao meio que eu sentia quando precisava vê-la voltando a São Paulo, ou eu vindo de lá, só que bem pior: é essa coisa o tempo todo, meu coração ao meio, aos pedaços, estilhaçado por ela sei lá quantas vezes, jogado ao lixo, espezinhado.

Morro de medo de voltar a me deprimir. Penso que é irônico que justamente o objeto de afeto que me salvou da doença em momento de amor, tenha me condenado à ela novamente no ódio. Juro com toda a força do meu coração que eu não vou mais sofrer por ela e que já chega. Que eu fiz tudo que era possível e só não fiz mais porque ela não deixou.

Décimo terceiro capítulo

Dois dias depois, a infeliz visita meu blog, como houvera feito no fim de semana que antecedeu a atualização do pé na bunda, quando reforçou que "morreu". A mulher que eu amei virou assombração e eu sou o local das aparições. Provavelmente o fez para alimentar esse Ego incontrolável, esse buraco negro de vaidade, e para medir as minhas reações, para me atingir, para me machucar e se certificar de que eu sofro, de que dói, para prolongar esse ioiô emocional e me fazer de idiota. E foi pena, porque se eu soubesse que ela teria a cara de pau de fazer isso, teria deixado uma mensagem direta dizendo: desculpe decepcioná-la, mas não, não dói. Eu não sofro por você. Eu amo você. Quem sabe um dia você aprenda a enorme diferença que existe entre essas coisas.


E aqui acontece uma inflexão importante: eu havia pedido, de forma cordial, para que ela não fizesse mais isso. Mas, mesmo assim, ela volta. O que significa que qualquer que seja a força que a motiva a vir a essas páginas - vaidade, orgulho ferido, medo, raiva, ódio, pena, ou até esperança (aham, haha) - ela é maior do que qualquer resto de consideração pelos meus sentimentos que possa ter sobrado por lá. Para ela, matar a vontade incentivada pela vaidade é algo mais forte do que não me machucar. É a primeira vez, em toda essa história, que, mesmo me esforçando muito, não consigo defendê-la, não consigo racionalizar um comportamento dela que me machuca. É a primeira vez que admito que ela faz o que faz, se não por pura maldade, por total, fria e esmagadora indiferença: tanto faz se dói ou não em mim, contanto que ela afague o Ego. 

Me sinto mal porque eu pedi, pedi educadamente para ser deixado em paz. Para que ela parasse de brincar com os meus sentimentos. Eu pedi, pedi claramente, e nem isso, nem esse favor menor, que certamente não custaria nada a quem aprendeu a me esquecer e ser tão indiferente a meu respeito, eu tive.

Depois da forma pela qual ela me tratou em todo o processo, esse é o auge do desprezo, é muito ódio, muita tortura, muita crueldade, é uma enorme necessidade de ferir, de impor sofrimento. Eu sinto como se ela risse da minha cara enquanto vê a minha vida descortinada nessa página; porque ela é boa demais para nós, porque ela não me quer, mas quer ler como eu me sinto, ri sabendo que me tortura, que machuca, que me faz ficar confuso porque eu confesso, e confesso, que a amo e que o meu pra sempre não acaba assim, fácil. Sinto como se ela fisicamente pisasse em cima de mim.

Profundamente humilhado, canso. Dou um basta. Cansei de brincar, fecho o blog para estranhos e só lê meus textos quem eu convido, atitude necessária para me defender e que é algo que me aborrece muito. Com isso, ela vai ter que criar um novo método de tortura, quem sabe um bonequinho de vodu, macumba, quem não garante que ela não arruma alguém para me sequestrar e me torturar só para ver meu coração sangrar e descobrir até onde vai o meu pulso e a minha capacidade de amar. Porque não basta terminar comigo desse jeito e por pouca coisa, não, é preciso machucar, é preciso ferir, é preciso fazer sangrar, é preciso me diminuir ao nível dela, tentando converter a minha bondade, o meu sossego e o meu amor em ódio.

Mas, no meio do caos de uma situação fora de controle e do fim de um relacionamento que me parecia tão firme e tão preparado para o desafio do tempo e do futuro, respiro fundo. Os meus sentimentos de amor, carinho, tesão, paixão e saudade são verdadeiros, bonitos, meus. Eu me orgulho deles. A dor, não. A dor não sou eu. A vida já me ensinou o que são perdas, eu já passei por algumas das piores experiências que uma pessoa pode passar, eu já fui para o fundo do poço mais de uma vez, eu caí, sim, várias vezes, mas todas elas em pé e, fazendo das tripas, coração, embora larga literatura médica nunca tenha feito menção dessa capacidade entre nós, eu me levantei sozinho. E com tudo isso marcado no lombo, simplesmente não posso permitir que a rejeição e falta de consideração de uma pessoa que me rejeita, que me afasta, que simplesmente decidiu me esquecer, abale minha paz, meu equilíbrio. Eu não sofrerei por quem me rejeita, por quem não me quer, por quem vai embora, por quem não me ama.

Há quanto tempo eu amo uma miragem?

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