Eu venho escutando muita música instrumental. Orquestras, rock, trilhas, trilhas sonoras, composições aleatórias de gente famosa e desconhecida. Meus dias ganharam os contornos de música que me anima, que me emociona, que me dá coragem, que me faz sorrir, que me lembra do que eu sou, de como eu sou, do que eu busco, do que eu sinto. Música é essa coisa maior do que nós mesmos, que abraça e envolve, que protege e empurra.
E é uma frustração enorme não saber tocar instrumento algum, não ter a menor coordenação motora para dançar (eu tentei), não saber cantar. É frustrante porque, você pode escrever um romance redentor, pode sentar numa cabana numa encosta isolada e, depois de 10 anos, sair com um clássico esmagador da literatura, um volume obrigatório, marco artístico e estético, referencial histórico que será lido, examinado e comentado por gerações.
Mas cada um dos seus leitores, ainda que sejam capazes de simpatizar, desenvolver carinho e emoções em torno das coisas que você tem a dizer no livro, serão incapazes de colocar as suas palavras, de lembrar como o livro começa, em que altura exata a história sofre uma reviravolta, qual é a cadeia precisa de eventos que leva ao desfecho do livro. Todo mundo, ao término da leitura, sai com essas impressões e muitas outras.
Mas é diferente com a música. Mesmo que você não saiba sequer dedilhar as cordas de um violão, é relativamente fácil para que você toque na mente os acordes que começam as músicas que você mais gosta. Basta, aliás, ouvi-los de relance para lembrar da canção, das emoções que ela provoca, das memórias que traz à tona. A música vive numa vantagem enorme sobre a literatura nesse sentido. É fácil testar essa ideia: quais são as primeiras frases do seu livro preferido? Agora, quais são os primeiros versos da sua música preferida?
Não importa o quanto o poeta e o escritor se esforcem, eles nunca terão a capacidade de deixar em alguém uma marca indelével como fazem os músicos e compositores. Não importa o esforço e capricho que você imponha sobre as coisas que escreve porque, no fim, todos esquecem o que você diz, ninguém lembra da exata construção da cuidadosa escolha de palavras que você realizou na vã expectativa de se eternizar e ver seus ditos lembrados.

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