Foi um amigo que me recomendou a leitura desse texto, ele também órfão de pai em idade precoce, e o artigo é um registro de um filho que também perdeu o pai em situação talvez mais dramática que a minha, ainda que as dores nossas cabe a nós medir e dizer o quanto pesam, que meu pai foi morrer de outro jeito, mas doeu tanto quanto, quem sabe mais, quem sabe menos, quem sabe. O que importa é que doeu, feriu, marcou. O autor conta que encontrou-se com seu pai no universo da escrita de Philip K. Dick. Eu fui me achar com o meu nos bang-bangs, em Ennio Morricone e Red Dead Redemption.
Teve uma porção de coisas que me pegaram no texto, como a obsessão em se dizer forte na esteira da perda, mostrar que a morte não abala, que você é grande, adulto, muito macho, que não treme e está pronto para arcar com as responsabilidades que você inventa e acha que virão. Essa forma de reagir às tragédias, porque depois dessa me vieram outras, me machucou de formas que eu só pude entender depois de anos, deitado num divã e abrindo a minha vida a estranhos. E tudo começou no jeito atrapalhado com que eu fui reagir à perda do meu pai.
João, o autor desse texto, passou por isso também mas foi outra passagem sobre a sua relação com a perda que me resgatou. Em certa altura do registro, ele conta que percebeu que não tinha muito do seu pai consigo, eram algumas lembranças e um certo vácuo difícil de ser sanado e suprido dos mistérios deixados por quem simplesmente pára de existir de uma hora para ou outra e, ao fazê-lo, rende nós todos confusos com perguntas para as quais não vão aparecer respostas: como você era como adolescente? Quem foi a sua primeira namorada? O que você queria mesmo ser quando crescer? O que você gostava de fazer quando era criança? Como ia na escola? Como eram os seus professores? Como foi a primeira viagem para Curitiba? Como você conheceu a minha mãe? Pai, me conta, a vida fica fácil? Pai, o que te fez mais feliz nesses anos todos? E mais triste? Quais eram seus sonhos? Pai, me explica, por que você gosta tanto desse filme? Pai, quem é seu escritor preferido? Você acha que há vida no universo? Pai, você foi do PDS, que era partido da ditadura, poxa pai, você apoiava? Por que você gosta de bang-bang?
Eram, são e serão sempre tantas e tantas perguntas.
João conta que encontrou a trilha sonora de Blade Runner entre as coisas de seu pai e se imbuiu numa missão para entender o que esse filme tinha de importante, por que seu pai gostava dele, de que forma a adaptação cinematográfica da obra de Philip K. Dick explicaria alguma dessas lacunas que ficam da morte de quem amamos. Blade Runner virou uma ponte para estabelecer um vínculo entre pai e filho, suprir uma lacuna, responder algo e permitir que uma parte de quem era o pai de João se manifestasse no filho.
Eu me encontrei com algo assim no dia em que me dei à tarefa de ver todos os grandes westerns da história do cinema a troco de um interesse que, só fui admitir um tempo depois, tinha origem nessa fascinação que o gênero provocava em meu pai. Fascinação mesmo. Meu pai não dava muita bola para cinema, ele assistia TV para ver futebol, para ver F1 se algum brasileiro tivesse prognóstico de vitória, para ver novela e Jornal Nacional, além do programa do Jô, que me rende tantas boas recordações de começos de madrugada discutindo política e cultura. A única coisa relacionada a entretenimento audiovisual capaz de motivá-lo a transparecer alguma empolgação perceptível eram os westerns. E quando digo que me dei à tarefa de ver todos os westerns, eu não estou sendo deliberadamente exagerado, eu estou dizendo todos, todos os westerns que alguém um dia colocou em listagens de 100 maiores do gênero, eu assisti: dos spaghetti dos anos 1960 aos preto e branco com John Wayne. Assistir a essa massa toda de longas era a forma que encontrei de cobrir todas as bases, porque eu não sabia se meu pai gostava do western mais tradicional, dos spaghetti italianos dos anos 1960 e 1970, da fase áurea, mais antiga do gênero, ou da sua decadência revisionista que, não obstante, ainda foi render coisas maiúsculas na forma de "Os Imperdoáveis", por exemplo. Meu objetivo era compreender porque aquelas histórias de homens brutos em um contexto de atraso e rebeldia interessavam ao garoto nascido no interior do Paraná, filho de guarda-linha da RFFSA. Afinal, por que os bang-bangs e não, sei lá, filmes de pirata, outro gênero caído em ocaso, ou suspenses, ficção-científica, terror, filme policial ou de espião?
Não lembro direito em qual altura dessa epopeia que me consumiu uns 18 meses, os filmes eram difíceis de achar e a Internet não era tão rápida, me percebi interessado emocionalmente pelos westerns. De repente, aquelas histórias tinham aos meus olhos uma fascinação enorme nascida dos conflitos e das poderosas jornadas de superação e redenção que temperam a vida dos caubóis e homens que protagonizam a integridade desses filmes, suas buscas em meio a um mundo inóspito e hostil, seus combates morais, seus dilemas de luta anti-heroica que podem fazer do xerife um crápula e do bandido de bandana na cara e revólver nas mãos o herói de um povo ou de uma revolução. Da superação de condições injustas, da luta pelo amanhã melhor, a redenção saboreada nos pratos frios das vinganças ferozes, do amor improvável no meio do caos embrutecido, tudo em meio a duelos, saloons, enforcamentos, roubos de diligências e gado e muita, muita violência e injustiça. Sem perceber, virei fã de westerns e embora não tenha como responder precisamente o que interessava ao meu pai nessas produções todas, posso ao menos olhar para eles com o mesmo interesse apaixonado de fã e calcular que o que meu pai poderia buscar neles eram essas grandes narrativas de superação, do homem que sozinho dobra e põe no bolso as circunstâncias de uma realidade assaz injusta e cruel. Porque a vida de meu pai pode ser em grande parte sintetizada por essa árdua luta por um amanhã melhor, pelas puxadas de tapete que levou da vida e de ditos amigos, pelo que pode, no maior esforço possível, construir a pleno sacrifício e entrega sem, e aí mora a grande injustiça, ter podido aproveitar um pouco dos frutos da sua cruzada, tal qual um John Marston contemporâneo. Ou talvez tudo seja uma doce ilusão, criada pela minha mente ansiosa de respostas e sentido porque o nosso trabalho enquanto filhos é olhar para nossos pais como heróis, se não invencíveis, ao menos irredimíveis, absolutos: nesse western spaghetti épico da vida, meu pai era o mocinho.
Essa tentativa de diálogo com a memória de quem foi meu pai e das coisas que eu sabia sobre ele renderam uma série de dividendos que são parte do que eu sou hoje: eu conheci o Sérgio Leone, encontrei-me com o filme preferido da minha vida (“Era uma vez a Revolução”, ou “Giù la Testa!”), Ennio Morricone inundou minha existência sem episódios com a trilha sonora da contemplação, da vitória, da emoção, do amor e do triunfo que impregnam as parcerias do compositor com as criações de Leone. “Titoli” é ainda, e sempre será, meu toque de telefone. Eu constantemente ouço “I Figli Morti” e sou transportado para as emoções que o filme me provocou, além de tomado de tantas outras quando ouço "The Man With the Harmonica" e "Ecstasy of Gold", e por aí à fora. No mesmo arco de tempo, lançariam “Red Dead Redemption”, jogo de vídeo-game que fez mais para me aproximar dessa caricatura de quem foi meu pai, da versão bang-bang, do que os anos em que passei me perguntando sobre o que deixei para depois, o que perdemos e essas lacunas teimosas da relação entre pai e filhos que, aos olhos de nós que viramos órfãos antes de resolver essas questões, parecem definitivas. Red Dead Redemption me faria me imaginar mostrando o jogo ao meu pai e a considerar se, ao controlar as ações de John Marston, protagonista do jogo, eu não estaria, de certa forma, vivendo as fantasias que ele alimentara lendo revistas em quadrinhos do Tex e indo aos cinemas ver os bang-bangs. Os filmes ajudaram muito, despertaram o gosto, o jogo me daria a ligação definitiva com essa compreensão da atração que westerns em geral motivam nas pessoas e em meu pai.
Dessa forma, o “meu” Blade Runner na relação com meu pai se manifesta num caleidoscópio de cenas e situações, em geral protagonizadas por Clint Eastwood, ou então por James Coburn e aquela voz de barítono, temperados com Red Dead Redemption e uma trilha incidental comandada pelo toque marcial de “Triggernometry”. Entre essa colagem de momentos que me apresentam a Pedro, meu pai, não há nada mais definitivo do que a sensação de presença que “Pat Garrett and Billy the Kid” me provocaram, porque meu pai falava desse filme, a história é real, existiu efetivamente um xerife com esse nome e que matou com tiro nas costas Billy the Kid, que fora seu amigo e era bandido. O cenário de desolação do oeste norte-americano em processo de colonização me faz pensar na cidade pequena em que ele cresceu, dos campos e prados abertos sobre os planaltos, onde abundava espaço, cavalos e as distrações de guri que cresce em comunhão com a natureza. De repente, vê-lo xerife de cidade do interior, à cavalo e com espora na botina, aplicando o jeitão soturno do Coburn aos seus trejeitos me parece a coisa mais natural do mundo. Em algum momento, “Pat Garrett and Billy the Kid”, de Sam Peckinpah e com Bob Dylan no elenco e trilha sonora, renderizaram uma nova imagem do meu pai, de herói do oeste, de herói confrontado com os demônios e das contradições inerentes ao ofício de quem se vê obrigado a caçar um amigo, ou do herói com família para sustentar, baixo salário e traições da vida, tudo em plena harmonia com a imagem do meu pai de bombacha, chapéu e lenço, escrevendo furiosamente poesias e ganhando troféus de declamação nos rodeios tradicionalistas do interior do Paraná.
E aí fazem sentido outras coisas, porque meu pai em alguma altura da vida comprou cavalos, arrendou um pedaço de terra e pôs ali algumas reses de gado cujo único propósito em vida eram o de servir de distração para meu avô, Adelino, com quem, e só agora eu percebo, meu pai talvez tivesse a mesma coleção de impressões e dúvidas para resolver e sua forma de aproximar-se do meu avô, que morreria ainda antes de eu nascer, fora ir com ele “fazer à tropa”, andar à cavalo e atender do gado. Não sei se às outras pessoas é dada a capacidade dessas grandes epifanias em vida, mas eu tenho dessas coisas e lembro do choro que veio ao ver aquele filme e ir encaixando essas coisas e, desse quebra-cabeças inconcluso, que eu nunca vou terminar, ir surgindo os contornos de alguém tão complexo, interessante e incrível, esse cara que era meu pai, de quem eu não pude perguntar muitas coisas e com quem não vou poder andar à cavalo e ir brincar de tropeiro para me aproximar. Pode, sim, ser que todas as ilusões do mundo tenham se tornado navalhas a rasgar a minha mente, pendurando qual armadilhas esses quadros nessa parede da minha memória, mas Coburn como Pat Garrett nesse filme de 1973 É meu pai. Aquele lugar são os campos do interior e aquelas cenas mostram uma versão heroica de Pedro, professor, mestre, formado em economia, história e contabilidade. Pai de três. Poeta, escritor diletante, articulista de jornal. Ex-vereador, amante do futebol, fora inclusive goleiro do glorioso Renascença. O homem que incomodou a Força Bélica de Porto Amazonas, simpático, bom cozinheiro. Melhor churrasqueiro do mundo. Amante das tradições gaúchas, que ninguém é perfeito. Tinha enorme vontade de publicar um livro. Cardiopata que não soube cortar o cigarro à tempo, fraqueza que lhe custaria a vida. Morto no auge da carreira e da vida pessoal. Não arredava pé do portão, todas as noites, até que eu chegasse de viagem da aula do cursinho que fizera em outra cidade. Herói derrotado pela doença, meses de UTI e, desde uns anos para cá, redimido na encenação da jornada de um parente distante norte-americano em longa praticamente esquecido de 1973.
A sensação que eu tive com aquele filme em especial era de estar assistindo-o ao seu lado, e de no processo entender algo imaterial sobre quem meu pai foi, perceber que talvez quase 40 anos antes ele estava sentado numa sala de cinema, vendo esse mesmo filme porque era bang-bang e porque o personagem principal tinha com ele a singular coincidência do sobrenome. Que a semelhança com os trejeitos do personagem não fosse em absoluto incidental, que talvez de forma inconsciente meu pai projetou algo do filme em seu jeito de ser, ou que talvez ele sempre tenha sido desse jeito e quem está traçando paralelos entre personagem e figura paterna seja eu, hoje, que sozinho ainda tento de vez em quando colar os retalhos das minhas memórias com as minhas especulações de forma a desvendar quem foi, mesmo, o meu pai.
Eu vi "Pat Garrett and Billy the Kid" há uns seis anos e gostaria de abraçar o autor do texto porque ao lê-lo me lembrei de todo esse projeto de investigação e de definição da identidade dessa pessoa tão importante, dessa lacuna e incógnita na minha vida, num processo que acaba também definindo as silhuetas dessa figura que sou eu, das sensações que tive na experiência toda que, agora, postas sob análise com uma perspectiva mais crítica que colhe o benefício da passagem do tempo, me parece ainda mais marcante e definitiva na construção de quem eu sou e do que eu poderei oferecer quando e se couber aos meus ombros a responsabilidade de também ser pai.
Meu pai faleceu há 15 anos. Daqui a pouco, vai fazer mais tempo que estou vivo sem ele do que estive com ele por perto. De ter visto "Pat Garrett and Billy the Kid", faz uns seis. Está na hora de rever porque eu morro de saudades do meu pai.
Teve uma porção de coisas que me pegaram no texto, como a obsessão em se dizer forte na esteira da perda, mostrar que a morte não abala, que você é grande, adulto, muito macho, que não treme e está pronto para arcar com as responsabilidades que você inventa e acha que virão. Essa forma de reagir às tragédias, porque depois dessa me vieram outras, me machucou de formas que eu só pude entender depois de anos, deitado num divã e abrindo a minha vida a estranhos. E tudo começou no jeito atrapalhado com que eu fui reagir à perda do meu pai.
João, o autor desse texto, passou por isso também mas foi outra passagem sobre a sua relação com a perda que me resgatou. Em certa altura do registro, ele conta que percebeu que não tinha muito do seu pai consigo, eram algumas lembranças e um certo vácuo difícil de ser sanado e suprido dos mistérios deixados por quem simplesmente pára de existir de uma hora para ou outra e, ao fazê-lo, rende nós todos confusos com perguntas para as quais não vão aparecer respostas: como você era como adolescente? Quem foi a sua primeira namorada? O que você queria mesmo ser quando crescer? O que você gostava de fazer quando era criança? Como ia na escola? Como eram os seus professores? Como foi a primeira viagem para Curitiba? Como você conheceu a minha mãe? Pai, me conta, a vida fica fácil? Pai, o que te fez mais feliz nesses anos todos? E mais triste? Quais eram seus sonhos? Pai, me explica, por que você gosta tanto desse filme? Pai, quem é seu escritor preferido? Você acha que há vida no universo? Pai, você foi do PDS, que era partido da ditadura, poxa pai, você apoiava? Por que você gosta de bang-bang?
Eram, são e serão sempre tantas e tantas perguntas.
João conta que encontrou a trilha sonora de Blade Runner entre as coisas de seu pai e se imbuiu numa missão para entender o que esse filme tinha de importante, por que seu pai gostava dele, de que forma a adaptação cinematográfica da obra de Philip K. Dick explicaria alguma dessas lacunas que ficam da morte de quem amamos. Blade Runner virou uma ponte para estabelecer um vínculo entre pai e filho, suprir uma lacuna, responder algo e permitir que uma parte de quem era o pai de João se manifestasse no filho.
Eu me encontrei com algo assim no dia em que me dei à tarefa de ver todos os grandes westerns da história do cinema a troco de um interesse que, só fui admitir um tempo depois, tinha origem nessa fascinação que o gênero provocava em meu pai. Fascinação mesmo. Meu pai não dava muita bola para cinema, ele assistia TV para ver futebol, para ver F1 se algum brasileiro tivesse prognóstico de vitória, para ver novela e Jornal Nacional, além do programa do Jô, que me rende tantas boas recordações de começos de madrugada discutindo política e cultura. A única coisa relacionada a entretenimento audiovisual capaz de motivá-lo a transparecer alguma empolgação perceptível eram os westerns. E quando digo que me dei à tarefa de ver todos os westerns, eu não estou sendo deliberadamente exagerado, eu estou dizendo todos, todos os westerns que alguém um dia colocou em listagens de 100 maiores do gênero, eu assisti: dos spaghetti dos anos 1960 aos preto e branco com John Wayne. Assistir a essa massa toda de longas era a forma que encontrei de cobrir todas as bases, porque eu não sabia se meu pai gostava do western mais tradicional, dos spaghetti italianos dos anos 1960 e 1970, da fase áurea, mais antiga do gênero, ou da sua decadência revisionista que, não obstante, ainda foi render coisas maiúsculas na forma de "Os Imperdoáveis", por exemplo. Meu objetivo era compreender porque aquelas histórias de homens brutos em um contexto de atraso e rebeldia interessavam ao garoto nascido no interior do Paraná, filho de guarda-linha da RFFSA. Afinal, por que os bang-bangs e não, sei lá, filmes de pirata, outro gênero caído em ocaso, ou suspenses, ficção-científica, terror, filme policial ou de espião?
Não lembro direito em qual altura dessa epopeia que me consumiu uns 18 meses, os filmes eram difíceis de achar e a Internet não era tão rápida, me percebi interessado emocionalmente pelos westerns. De repente, aquelas histórias tinham aos meus olhos uma fascinação enorme nascida dos conflitos e das poderosas jornadas de superação e redenção que temperam a vida dos caubóis e homens que protagonizam a integridade desses filmes, suas buscas em meio a um mundo inóspito e hostil, seus combates morais, seus dilemas de luta anti-heroica que podem fazer do xerife um crápula e do bandido de bandana na cara e revólver nas mãos o herói de um povo ou de uma revolução. Da superação de condições injustas, da luta pelo amanhã melhor, a redenção saboreada nos pratos frios das vinganças ferozes, do amor improvável no meio do caos embrutecido, tudo em meio a duelos, saloons, enforcamentos, roubos de diligências e gado e muita, muita violência e injustiça. Sem perceber, virei fã de westerns e embora não tenha como responder precisamente o que interessava ao meu pai nessas produções todas, posso ao menos olhar para eles com o mesmo interesse apaixonado de fã e calcular que o que meu pai poderia buscar neles eram essas grandes narrativas de superação, do homem que sozinho dobra e põe no bolso as circunstâncias de uma realidade assaz injusta e cruel. Porque a vida de meu pai pode ser em grande parte sintetizada por essa árdua luta por um amanhã melhor, pelas puxadas de tapete que levou da vida e de ditos amigos, pelo que pode, no maior esforço possível, construir a pleno sacrifício e entrega sem, e aí mora a grande injustiça, ter podido aproveitar um pouco dos frutos da sua cruzada, tal qual um John Marston contemporâneo. Ou talvez tudo seja uma doce ilusão, criada pela minha mente ansiosa de respostas e sentido porque o nosso trabalho enquanto filhos é olhar para nossos pais como heróis, se não invencíveis, ao menos irredimíveis, absolutos: nesse western spaghetti épico da vida, meu pai era o mocinho.
Essa tentativa de diálogo com a memória de quem foi meu pai e das coisas que eu sabia sobre ele renderam uma série de dividendos que são parte do que eu sou hoje: eu conheci o Sérgio Leone, encontrei-me com o filme preferido da minha vida (“Era uma vez a Revolução”, ou “Giù la Testa!”), Ennio Morricone inundou minha existência sem episódios com a trilha sonora da contemplação, da vitória, da emoção, do amor e do triunfo que impregnam as parcerias do compositor com as criações de Leone. “Titoli” é ainda, e sempre será, meu toque de telefone. Eu constantemente ouço “I Figli Morti” e sou transportado para as emoções que o filme me provocou, além de tomado de tantas outras quando ouço "The Man With the Harmonica" e "Ecstasy of Gold", e por aí à fora. No mesmo arco de tempo, lançariam “Red Dead Redemption”, jogo de vídeo-game que fez mais para me aproximar dessa caricatura de quem foi meu pai, da versão bang-bang, do que os anos em que passei me perguntando sobre o que deixei para depois, o que perdemos e essas lacunas teimosas da relação entre pai e filhos que, aos olhos de nós que viramos órfãos antes de resolver essas questões, parecem definitivas. Red Dead Redemption me faria me imaginar mostrando o jogo ao meu pai e a considerar se, ao controlar as ações de John Marston, protagonista do jogo, eu não estaria, de certa forma, vivendo as fantasias que ele alimentara lendo revistas em quadrinhos do Tex e indo aos cinemas ver os bang-bangs. Os filmes ajudaram muito, despertaram o gosto, o jogo me daria a ligação definitiva com essa compreensão da atração que westerns em geral motivam nas pessoas e em meu pai.
Dessa forma, o “meu” Blade Runner na relação com meu pai se manifesta num caleidoscópio de cenas e situações, em geral protagonizadas por Clint Eastwood, ou então por James Coburn e aquela voz de barítono, temperados com Red Dead Redemption e uma trilha incidental comandada pelo toque marcial de “Triggernometry”. Entre essa colagem de momentos que me apresentam a Pedro, meu pai, não há nada mais definitivo do que a sensação de presença que “Pat Garrett and Billy the Kid” me provocaram, porque meu pai falava desse filme, a história é real, existiu efetivamente um xerife com esse nome e que matou com tiro nas costas Billy the Kid, que fora seu amigo e era bandido. O cenário de desolação do oeste norte-americano em processo de colonização me faz pensar na cidade pequena em que ele cresceu, dos campos e prados abertos sobre os planaltos, onde abundava espaço, cavalos e as distrações de guri que cresce em comunhão com a natureza. De repente, vê-lo xerife de cidade do interior, à cavalo e com espora na botina, aplicando o jeitão soturno do Coburn aos seus trejeitos me parece a coisa mais natural do mundo. Em algum momento, “Pat Garrett and Billy the Kid”, de Sam Peckinpah e com Bob Dylan no elenco e trilha sonora, renderizaram uma nova imagem do meu pai, de herói do oeste, de herói confrontado com os demônios e das contradições inerentes ao ofício de quem se vê obrigado a caçar um amigo, ou do herói com família para sustentar, baixo salário e traições da vida, tudo em plena harmonia com a imagem do meu pai de bombacha, chapéu e lenço, escrevendo furiosamente poesias e ganhando troféus de declamação nos rodeios tradicionalistas do interior do Paraná.
E aí fazem sentido outras coisas, porque meu pai em alguma altura da vida comprou cavalos, arrendou um pedaço de terra e pôs ali algumas reses de gado cujo único propósito em vida eram o de servir de distração para meu avô, Adelino, com quem, e só agora eu percebo, meu pai talvez tivesse a mesma coleção de impressões e dúvidas para resolver e sua forma de aproximar-se do meu avô, que morreria ainda antes de eu nascer, fora ir com ele “fazer à tropa”, andar à cavalo e atender do gado. Não sei se às outras pessoas é dada a capacidade dessas grandes epifanias em vida, mas eu tenho dessas coisas e lembro do choro que veio ao ver aquele filme e ir encaixando essas coisas e, desse quebra-cabeças inconcluso, que eu nunca vou terminar, ir surgindo os contornos de alguém tão complexo, interessante e incrível, esse cara que era meu pai, de quem eu não pude perguntar muitas coisas e com quem não vou poder andar à cavalo e ir brincar de tropeiro para me aproximar. Pode, sim, ser que todas as ilusões do mundo tenham se tornado navalhas a rasgar a minha mente, pendurando qual armadilhas esses quadros nessa parede da minha memória, mas Coburn como Pat Garrett nesse filme de 1973 É meu pai. Aquele lugar são os campos do interior e aquelas cenas mostram uma versão heroica de Pedro, professor, mestre, formado em economia, história e contabilidade. Pai de três. Poeta, escritor diletante, articulista de jornal. Ex-vereador, amante do futebol, fora inclusive goleiro do glorioso Renascença. O homem que incomodou a Força Bélica de Porto Amazonas, simpático, bom cozinheiro. Melhor churrasqueiro do mundo. Amante das tradições gaúchas, que ninguém é perfeito. Tinha enorme vontade de publicar um livro. Cardiopata que não soube cortar o cigarro à tempo, fraqueza que lhe custaria a vida. Morto no auge da carreira e da vida pessoal. Não arredava pé do portão, todas as noites, até que eu chegasse de viagem da aula do cursinho que fizera em outra cidade. Herói derrotado pela doença, meses de UTI e, desde uns anos para cá, redimido na encenação da jornada de um parente distante norte-americano em longa praticamente esquecido de 1973.
A sensação que eu tive com aquele filme em especial era de estar assistindo-o ao seu lado, e de no processo entender algo imaterial sobre quem meu pai foi, perceber que talvez quase 40 anos antes ele estava sentado numa sala de cinema, vendo esse mesmo filme porque era bang-bang e porque o personagem principal tinha com ele a singular coincidência do sobrenome. Que a semelhança com os trejeitos do personagem não fosse em absoluto incidental, que talvez de forma inconsciente meu pai projetou algo do filme em seu jeito de ser, ou que talvez ele sempre tenha sido desse jeito e quem está traçando paralelos entre personagem e figura paterna seja eu, hoje, que sozinho ainda tento de vez em quando colar os retalhos das minhas memórias com as minhas especulações de forma a desvendar quem foi, mesmo, o meu pai.
Eu vi "Pat Garrett and Billy the Kid" há uns seis anos e gostaria de abraçar o autor do texto porque ao lê-lo me lembrei de todo esse projeto de investigação e de definição da identidade dessa pessoa tão importante, dessa lacuna e incógnita na minha vida, num processo que acaba também definindo as silhuetas dessa figura que sou eu, das sensações que tive na experiência toda que, agora, postas sob análise com uma perspectiva mais crítica que colhe o benefício da passagem do tempo, me parece ainda mais marcante e definitiva na construção de quem eu sou e do que eu poderei oferecer quando e se couber aos meus ombros a responsabilidade de também ser pai.
Meu pai faleceu há 15 anos. Daqui a pouco, vai fazer mais tempo que estou vivo sem ele do que estive com ele por perto. De ter visto "Pat Garrett and Billy the Kid", faz uns seis. Está na hora de rever porque eu morro de saudades do meu pai.

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