terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Gira il mondo

Gira il mondo. No espaço sem fim, que eu bem poderia arriscar um italiano insuspeito para completar o verso, mas eu não sei como escreve, eu sei que spazio é espaço, e escreve assim, porque spazio é nome de um modelo de carro dos anos 1980, pequeno, mas os italianos da Fiat achavam que nele cabia o nome de spazio de tal sorte que, década depois, quando eu era garotinho e ia à pé para escola, ou de casa para a casa da vó, e de lá para casa, ou da rua para casa, enfim, sempre em passinhos apressados, colecionava os nomes dos carros estacionados pela rua, tinha Gol, Vo, Voy, Voyage. Passat, Santana, que era carro de rico, Chevette, Versalhes, Opala, carro de mafioso, dizia minha mãe. Caravan. 147? 147 é nome de carro? Nome de carro pode ser número? Fusca. E tinha uns Spazios também.

Nada disso conta porque nomes de carros hoje são uma pequena curiosidade. De lá para cá, girou muito il mondo no spazio sem fim e hoje eu, que até ando bastante à pé, não reparo nos nomes dos carros porque eles não reservam mais mistério nenhum. Vai ver que viver é isso, uma constante eliminação dos mistérios: um dia, andar é um mistério. Se assomar às proporções gigantescas dos nossos pais, quando nos agarramos às suas pernas, é outro. Em algum momento, o escuro, depois os ruídos da casa à noite, então são os nossos avós, o primeiro contato com outra criança. Depois são os nomes que departamentos de marketing, investindo milhões, escolhem para automóveis. Precisam ser modernos, desafiadores, interessantes, emocionantes, nome de carro tem que ser, no fim das contas, um motivo para que você o compre.

Outros mistérios chegam com o tempo, para uns eles aparecem antes, para outros depois, mas no geral, a escala segue uma mesma programação, determinada por condicionantes sociais, temporais, antropológicos, porque todos nós vemos o mistério da primeira paixão, da escolha de uma carreira, dos talentos que desistimos de ter, daqueles que cultivamos, das coisas que acreditamos, das que vamos perdendo no meio do spazio sem fim por onde desfila, inconsequente, em sucessivas elipses sem destino, esse globo, que nem é globo, taí outro mistério, andaram mentindo pra gente esses anos todos, o planeta não é redondo, é meio achatado nos polos e barrigudo pelo equador.

E tem sempre um mistério, uma crescente complexidade nas coisas que, de forma bem contraditória, se não mesmo misteriosa, nas ciências da computação se chama de abstração: medida do quão distante da linguagem de máquina, medida em pulsos binários, está cada informação. O mistério, hoje, é então muito mais abstrato que o nome Spazio, impresso em acrílico brilhante, colado ao aço bege de um hatch italiano dos anos 1980, mas nesse caso não quer dizer que abstrato seja simples porque o mistério, hoje, é o maior de todos até aqui.

Meu grande mistério não é único, capaz de você vê-lo ecoando no coração e cérebro de 11 em cada 10 pessoas da minha idade, já foi cantado em prosa e verso, meu mistério anda na filosofia e na literatura há séculos, e não há redução melhor para ele do que a frase: “nossa maior tragédia é não saber direito o que fazer da vida”.

Porque eu sei que eu não sei, e saber que não sabe, mais do que ironia socrática, é uma decisão, uma escolha emancipatória que lhe coloca no centro de controle ilusório da sua própria vida, esse que nós achamos que nos dá vezes de pilotos do destino que nos carrega para cá e para lá. Mas eu nunca soube. Hoje eu até desconfio, tenho bons planos, ando de boa vontade e cheio dos otimismos todos que, à força de doença, andei conservando ao longo da vida: minha energia e estoque de pensamento positivo impressiona, andei economizando muito, hoje eu invisto com vigor, que o saldo é largo o suficiente para que eu me recupere mesmo dos piores negócios. Mas parece que falta algo, falta uma resposta, falta preencher uma incógnita ou constante, falta fechar essa equação porque o cálculo, toda vez, retorna valores inconstantes e que não se verificam na frieza da realidade dos fatos. Meu mistério, esse de não saber direito para onde ir, é agravado por não saber direito como as coisas hão de terminar.

Gira il mondo no spazio sem fine, já passou um ano de mistérios, um ano inteiro de saudade, um ano inteiro de vontade, um ano inteiro de incógnita, de dúvida, de perdão e tristeza inocente, um ano inteiro desse vazio que você tenta tapar à força de todas as coisas boas que consegue encontrar, dessa transmutação em buraco negro que engole alegria, sorriso, boa vontade e as pequenas vitórias de quem vai se reinventar para não deixar que a sombra do que foi, da lágrima e das dores, venham aqui se fazer convidadas, tomar lugar na sala, venham me calar e me afogar em tristeza, dores e remorsos.

Não que seja difícil, mas também não é fácil. Apenas é: não há escolha, o único caminho é apertar o punho, fechar os olhos e esperar tudo passar. E espera. Porque tudo volta, quando você menos espera, e para falar a verdade, menos quer, volta. E dói. E aí você se fecha, e reconstrói, e vence, e engole mais alguma coisa boa, e volta. E aí você tem força, não sabe direito de onde, mas tem. E passa, e aí você pacifica, porque as coisas são o que são, você é quem você é, o passado é o passado, o presente você tem a ilusão de que escolhe, e o futuro é onde moram os teus sonhos e os novos mistérios.
Gira il mondo. Vai continuar girando, não importa o que façamos, indiferente. Como, aliás, e como corta perceber isso, você precisa aprender mais a ser em 2018.

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