terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Mais uma estrelinha

Eu fiz hoje algo que, acho, só fiz lá no primário, garotinho. Eu terminei um caderno. Da primeira à última folha, todo o caderno está tomado, não há espaço em branco, são 90 e tantas folhas de papel, frente e verso, escritas, apagadas, pouco rasuradas, tensas de tanto folhear, marcadas de anotações, como uma que encontrei agora, da época de Álgebra de Boole: “partindo-se de uma premissa falsa, você pode concluir qualquer coisa”; corolário que, não parece, mas é possível provar matematicamente e que dá um sentido bem interessante para tanta coisa que não entendemos direito na vida da gente. Enfim.

E não é um caderno qualquer, é um caderno de capa dura, de quadrinhos porque eu não sei fazer conta em caderno diferente, é o meu caderno de matemática, que quase venceu todo o ano letivo, que está para terminar por esses dias. Ele se esgotou porque os esforços do professor foram bastante intensos, prolixo, mas também concorreram para o esgotamento o fato de que eu, cioso e interessado, simplesmente refiz à exaustão boa parte dos exercícios para me manter nas pontas dos casos na iminência das provas à tal ponto que, em todo esse ano, meu conceito mais baixo em matemática foi um B.

O que, em si, é outro ineditismo: esse encontro de um sujeito que sempre achou matemática interessante com a própria que, elusiva, era muito mais fonte de sombria e sorumbática preocupação do que de alegria nos tempos da adolescência. Quem diria. Mas brincar com os números e afiar o raciocínio abriu a porta para um exercício de otimismo: afugentei o medo, expurguei traumas passados e me permiti a pensar positivo sobre o pavor de ter dificuldades em matemática. Pus o cálculo no bolso, saí contente da experiência e encantado com a capacidade do pensamento positivo em facilitar os fardos da vida aos quais nos damos.

Eu poderia prolongar esse texto extraindo sentido do episódio do caderno encerrado, quem sabe comparar as duas realidades da minha vida de contraste porque, da mesma forma que eu me orgulho desse caderno, caprichosamente recheado de cálculos e fonte de dedicação e esforço, me orgulho de um outro que cá tenho comigo, que comprei em 1997 e que me serviu, respectivamente, na oitava série do ensino fundamental, nos três anos do médio, no cursinho, no ano de engenharia e nos quatro anos de jornalismo, tudo isso com uma porção considerável de páginas em branco. De um lado, dedicação; do outro a mais completa e bem acabada indolência. Infelizmente, dele arranquei páginas um tempo atrás, mas até então você podia começar a folheá-lo em Biologia, aí passaria por Cálculo Vetorial e Geometria Analítica, chegaria em Física do ensino médio, depois tinha algo de Teorias da Comunicação e assim por diante. Era o meu caos, era a minha indolência, era uma caricatura de quem eu era.

Mas não farei nada disso porque o triunfo não precisa de crônica e de análise: simplesmente é. Direi apenas que vou guardar esses dois cadernos, que me orgulho bastante de ambos, que um dia vou gostar de mostrar para alguém, quem sabe para as crianças. Que esse novo, de matemática, está tão bonito e vistoso que fico contente de tê-lo realizado e que, de todas as minhas pequenas vitórias e grandes mudanças, ter preenchido com sofreguidão essas páginas é uma das minhas mais alegres, e bobas, realizações do ano. Mereço, pois, uma estrelinha na testa.

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