sexta-feira, 7 de abril de 2017

Pensamento positivo

Eu sempre desdenhei da ideia de pensamento positivo porque estava em descompasso com a verdade das coisas e de percepção embotada por uma doença. Mas hoje sei valorizar essa capacidade, a capacidade de olhar o lado bom das coisas e de encarar as dificuldades e durezas da vida de uma forma sadia: não é abstrair-se de senti-las pelo que elas são, mas de escolher a forma pela qual você vai permitir que elas impactem no seu dia. E eu aprendi a usar essa coisa de pensar positivo para não deixar que nada me desvie do que eu quero, do que estou fazendo, do que eu sei e preciso.

É um ensinamento bem zen, um dos poucos que absorvi, porque eu não tenho mais idade para ser hippie, quando me interessei por um outro recurso das filosofias orientais. Ao lado da meditação, esse talento de contar até 10, usar empatia e deixar que tudo exploda à sua volta é incrível.

O que eu ainda não aceito muito bem ou, na verdade, desconfio, é da ideia de pensar que tudo tem que dar certo porque sim. O mundo é cruel, a vida é dura, a existência é algo assustadoramente injusto e não há razão nenhuma para otimismo: as guerras continuam, o planeta se degrada, as pessoas se odeiam, crianças morrem de fome, há doenças incuráveis destruindo a vida de tantos e tantos, o poder e o dinheiro não apenas corrompem, como seguem aqueles preceitos físicos das coisas que se aglutinam sobre a água em pequenas porções, inacessíveis a todos. E no fim de tudo, os seus dramas pessoais se acumulam e fazem as grandes mazelas da humanidade parecerem minúsculas em comparação: é conta para pagar, o futuro para resolver e as incógnitas impressas no sangue tépido do coração que ama e pulsa em compasso de espera, sem o sincronismo daquela doce verdade científica da pulsação de dois amantes que entra em harmonia. Não há como escapar da dureza de todas essas coisas e apenas olhar para elas com olhos inocentes e umedecidos esperando que elas darão certo por algum fatalismo reverso é infantilidade.

Mas cada uma das mazelas que se abatem sobre você podem, e devem, ser absorvidas e encaradas de forma positiva no sentido de que é a maneira pela qual você escolhe encará-las que vai lhe dar os melhores subsídios para superar os problemas. Eu tenho escolhido paz e aceitação e qualquer outra resposta que me permita ter equilíbrio diante de humilhação, indiferença, agravos, obtusidade e o que mais aparecer por aí. Eu mato de peito, respiro, sorrio, e de coração leve, resolvo o que eu faço em seguida. Eu tenho me sentido mais leve, mais em paz por conta dessa nova forma de lidar com o mundo. Eu nunca fui assim. Nunca.

O pensamento positivo em relação ao futuro é enganoso e pode levar a amargas decepções. Mas pensar positivo sobre o que te atinge, seja isso algo originário de pessoas, de coisas, do banco, do trabalho, dos colegas, da família, enfim, ajuda, muito, a evitar cair em depressão, a policiar pensamentos negativos, a tristeza que pode aproveitar qualquer brecha para te puxar para aquele niilismo destrutivo e imbecil. E é incrível como uma mente sã, disposta a se libertar, dá esse chão firme para que você se sinta em paz, resiliente e num equilíbrio em que tudo começa a se encaixar: meditação, o cuidado com a forma pela qual você reage, a capacidade de entender como sua mente funciona, os pensamentos ruins esperando na esquina, tudo, fica mais na mão, mais fácil de entender, de seguir. Aí, até as músicas que falam de redenção e vitória dominam a playlist e o videogame, essa deliciosa válvula de escape dos problemas da vida, fica ali, empoeirando, enquanto você faz seus planos, resolve problemas e gasta tempo aprendendo a programar em C# por um curso à distância da Microsoft: algo para que você jamais pensou ter a menor disciplina.

O ano de 2017 está longe da metade. Mas eu já fiz muito por ele, aprendi, parei, reexaminei, busquei ajuda e me proibi de antigos vícios.

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