sexta-feira, 31 de março de 2017

Eterno estudante da vida

Coisas que fogem dos padrões ou, vá lá, dos preconceitos com que eu meço o meu mundo me incomodam e me desviam as ideias (o que, claro, é uma definição válida de preconceito, porque se não incomodasse, não seria preconceito).

Ponto, abre parêntesis; eu tenho preconceitos, mas como diria o Louis CK, único comediante em pé que vale a pena, são leves e, a essa altura da vida, é bem provável que eu não mude mais, fecha parêntesis.

Enfim, quando eu me confronto com algo que rompe meus padrões, eu fico fora de prumo porque, cartesiano, não posso explicar valores incongruentes retornando um absoluto, como por exemplo anos de um desempenho horrível em matemática, mesmo achando a ciência e as razões dos números algo fascinante, e, hoje, nadando de braçada, colecionando notas altas e sendo inclusive convidado a oferecer ajuda aos colegas em maiores dificuldades. E há outros casos dessas incongruências ocupando o meu juízo atualmente, eu sou cheio de pensar o mundo. Mas, retornando da digressão, o que explica o sucesso, anos e anos afastado das contas?

Nesse exercício de tentar explicar tudo, venho buscando as razões últimas de cada uma das coisas presentes na minha vida. Para explicar o recém (re)descoberto talento para a matemática e o raciocínio lógico, tenho encontrado respostas: o professor, matemático e phD na área, é excelente porque alia um conhecimento absurdo da matemática com satisfação por dar aula e didática, três grandes qualidades que nem sempre habitam o mesmo professor, em especial os universitários, normalmente de mal com a vida por terem sido expelidos de um mercado de trabalho exíguo e cruel.

Outra explicação igualmente válida é que a matemática que se ensina para aprender engenharia de software está longe das assombrosas dificuldades do cálculo diferencial e integral, esse sim um colosso matemático capaz de fazer empalidecer os melhores alunos do ensino médio quando, de cabeça raspada, aparecem nos primeiros anos dos cursos de engenharia clássica. A Álgebra de Boole, embora rivalize em abstração com o cálculo hardcore de Leibniz e Newton, não goza do mesmo nível de dificuldade. Em geral, dá para dizer que com um bom conhecimento de fundamentos de matemática e um pouquinho de raciocínio, qualquer um aprende esse conteúdo com alguma facilidade.

O engraçado nessas explicações é a minha resistência em dar o mérito a... mim mesmo. Fácil ou difícil, com bom professor ou não, sou eu quem aprende bem, que tem estudado, que vem sentindo alegria com as descobertas. Um dos exercícios de construção de auto-estima e confiança que desenvolvi, com o auxílio de uma querida psicóloga, tem muito a ver com essa quebra de resistência e se dar ao direito do auto-elogio, ainda que em foro íntimo, ou nas páginas de um blogue que ninguém vai ler mais. Porque parece que é mais fácil eu justificar que o professor é brilhante, ainda que isso não seja verdade para outros colegas, e que o conteúdo é fácil, ainda que não seja também para boa parte da minha turma. Tudo vale nesse esforço doente de se puxar para baixo, até mesmo abstrair que, de 30 alunos, uns 20 tiram notas baixíssimas e que muitos deles não conseguem entender rigorosamente nada do que o matemático fala naquela sala de aula.

Eu lembro de um tempo em que essa propensão a se reconhecer como bom em alguma coisa não era nada difícil. Eu sabia onde estavam as minhas qualidades e não tinha problema em reconhecê-las e, verdade seja dita, até de expô-las às outras pessoas. Parei com isso porque fui chamado de arrogante. E acabei, como muita coisa na vida, exagerando a mão e perdendo contato com essa forma de perceber conquistas e vitórias: sim, o mundo externo é parte decisiva de tudo, tudo pode ser relativizado à luz das circunstâncias, mas não há mal algum em ver que você, sim, você mesmo, é agente decisivo das suas vitórias. Então comemore esse 10 em matemática, cara. Porque, tirando o vestibular para engenharia (eu gabaritei a prova de matemática) quando eu ainda era virgem, é o primeiro da minha vida na disciplina.

Então aceitamos que eu, além do bom professor e da relativa leveza do conteúdo, sou responsável pelo meu sucesso na disciplina. Mas, o que explica essa minha capacidade?

Uma porção de coisas. Eu abracei o meu ingresso nesse curso porque estou convicto de que meu futuro profissional e material reside nessa área. Além disso, aprovado no processo seletivo com nota excelente, sem ter estudado nada, me senti vitorioso e realizado num momento delicado da vida, de incertezas. Decidi fazer dessa faculdade o primeiro passo para a construção, dedicada, apaixonada, séria e consciente, da vida que eu quero dar, da vida que eu quero ter.

E essa forma de ver as coisas ajuda a explicar porque, antes de me apavorar com os prognósticos de um curso de exatas, eu resolvi receber todas as novidades de coração aberto: nada me espanta, tudo me deixa curioso e a afinidade natural com o assunto acaba me instigando. Por isso que antes de me preocupar por ter tido alguma dificuldade em entender Diagramas de Venn, eu respiro fundo, estudo, analiso exercícios e dou uma pesquisada e aplico o mesmo comportamento para outras disciplinas. Aí, as notas são boas em tudo, não apenas em matemática. Eu refaço exercícios e estudo por conta, até expandindo o conteúdo que integra a ementa da disciplina, e faço cada uma dessas coisas com interesse absolutamente natural, com curiosidade, com vontade: antes de ser um encargo, uma tarefa, é uma coisa que eu tenho vontade de fazer. Nada me cansa, nada me parece pesar na rotina, como se fossem obrigações, é tudo leve, natural e até divertido.

E eu vejo isso como uma manifestação de maturidade. Toda essa capacidade e interesse por aprender eu sempre tive, mas raramente tirei proveito deles na minha vida acadêmica, ou de estudante. Antes, além de grandes doses de preguiça, me parecia, a perspectiva de precisar estudar para aprender atestava um tipo de fraqueza, de incapacidade da minha parte de aprender em sala de aula. Se eu precisasse estudar, então, estava sendo fraco e ineficiente, logo eu, acostumado a fazer tudo relacionado com estudo sem o menor esforço e dedicação: me bastava ouvir o que o professor falava em sala de aula para ir razoavelmente bem nas provas. Agora, eu enxergo que há prazer em aprender, em aperfeiçoar, em ser bom nas coisas, em melhorar. Que estudar não é feio, não faz de você um chato, que há prazer nesse exercício.

São lições que eu quero levar para toda as faces da minha vida. De agora em diante, o verso "ainda sou estudante da vida que eu quero dar" fará, sempre, um sentido todo novo na minha existência.

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