quarta-feira, 1 de março de 2017

Pavão retórico

-Ah, você é formado? Em quê?

- Comunicação, Jornalismo, mas já tem algum tempo.

- Poxa vida, e está fazendo o que aqui?

Há algum tempo, embora respondesse com educação, não evitaria pensar comigo algo nas linhas de “aprendendo a desmafagafar mafagafinhos! O que você acha?”, talvez com alguns palavrões, a depender do humor do momento, e com um juízo extremamente desfavorável a respeito da minha interlocutora, que traçaria dela a caricatura acabada de pessoa desinteressante e de acanhados predicados mentais porque caíra no desazo de me abordar de forma tão pouco inspirada. Acabaria julgando mal a ela porque ela fez a pergunta clichê que todos fazem e respondeu com o mesmo espanto bobo que todos respondem, como se fosse incompreensível que alguém decidisse fazer outra coisa da vida, ir matar o tédio, chutar o balde, reinventar e revolucionar, quem sabe mudar de profissão, saciar uma curiosidade. Cansa. Mas eu não me incomodei, como não venho me incomodando mais com tanta coisa inútil, e simplesmente respondi que, a vida toda, tive uma grande facilidade com matemática (desde que com professores interessados em explicar a lógica das coisas, e não regurgitar regras de como resolver exercícios, tudo sem conexão com o contexto e as razões ocultas dessas coisas maravilhosas que são os números) e física, que ciência e tecnologia são temas que me instigam e pelos quais nutro, desde sempre, um profundo interesse sincero e que nada mais legal que ir em busca de aprender coisas novas, de mudar a vida da gente, porque é mudando o que não funciona que você segue em frente. O que não significa que não continuo lendo romances, poesias e ficção-científica, livros de História, biografias, que não me assombro toda vez que me encontro com um novo escritor de talento que não conhecia, que não continuo escrevendo e tendo interesses nas grandes questões da sociedade, da história, da política e da existência, essas que afligem o homem moderno e pavimentam o couro do brasileiro, em específico. Que, enfim, ser de humanas não impede ninguém de ser de exatas. E poderia também ter dito que estou farto de viver em caixinhas, coberto de rótulos auto-impostos e, em especial, daqueles injustamente colados pelos outros em mim. Diria à ela que afinidade com um não impõe, necessariamente, aversão ao outro. Que antes dessa conversa, estava lendo um livro em inglês, no Kindle, sobre a Batalha do Marne, em 1914; você sabia que Gallieni, o general encarregado de defender Paris, mandou para o front um batalhão inteiro usando todos os táxis da cidade? Que se tivessem perdido a batalha, teriam perdido para o Império Alemão a Primeira Guerra em questão de um mês? Não é fascinante? Em que mundo estaríamos hoje se fosse o outro lado o vencedor dessa batalha? E que esse impresso, ali em cima da mochila, todo respingado de cerveja (tomara), é de cálculo, e que, sinceramente, muitas vezes é mais fácil de entendê-lo explicando lógica e álgebra do que os compêndios de teoria da comunicação e de sociologia, tão herméticos e irrelevantes que, um dia, eu tentei ler? Não devo ter sido tão apaixonado no meu discurso, a gente aprende a parar de ser tão apaixonado na vida sempre da maneira mais dolorida, mas no meio das turvas memórias que sobreviveram à inundação de aldeídos que sucedeu às liberalidades da noite, encontro algo que me faz lembrar de ter deixado escapar um "há espaço de sobra para os dois no meu coração", porque eu tenho esse mal costume, é pior que doença, males do romantismo de meia pataca que acabou-se embutido em todas as minhas revoltas, vitórias e nos meus grandes momentos.


Mas há pessoas, e que bom que elas existem, que se sensibilizam com inadvertidas referências ao coração. Há gente sensível e que, de verdade, parece se encantar quando encontra alguém que compartilha desse defeito, ou qualidade, porque até isso é relativo nessa vida de incertezas e surpresas. E aí ela respondeu.

- Nossa, gosta de humanas e exatas! Que coisa rara, você é a união do útil ao agradável!


E assim eu ganhei a minha noite. Raro, eu sempre soube que eu sou. Mas união do útil ao agradável foi uma novidade para o catálogo, essa coisa de ser admirado como essa mistura incompreensível de mundos e formas de pensar tão distantes. Me senti feliz em não tê-la julgado mal pela sucessão de perguntas clichês e me vi disposto a descortinar a minha vida toda para ela simplesmente para ver se eu colheria mais alguns elogios no processo.

Eu viro um pavão retórico com uma enorme facilidade.

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