domingo, 30 de abril de 2017

Epifania

Naquele dia da cachoeira, eu tive uma epifania. Eu sempre ouvi de você a sua vontade por uma vida mais simples, o desejo de viver longe da megalópole, de construir uma família num lugar pacato e mais saudável. Mas, às vezes, eu me perguntava até onde essa vontade iria, até que ponto a cosmopolita ia abrir mão do shopping, do mercado que tem tudo, do estádio, do acesso a qualquer coisa que a cidade grande proporciona. Não julgue mal, não estou dizendo que fazia pouco dos seus sonhos, não é isso. Não era uma questão de não acreditar em você, era só um ceticismo natural de desconfiar da sua capacidade de renegar todas as vantagens da cidade grande na hora decisiva de uma escolha para mudar de vida. Porque eu, que cresci em cidadezinha, sei que é legal ter cinema, shopping, restaurantes de todos os tipos, mercados para comprar coisas diferentes de vez em quando.

Aí, naquele dia, fomos até a cachoeira com seus amigos e, na volta, nós paramos para almoçar naquele lugarzinho totalmente isolado no meio da estrada de terra, meio escondido entre as árvores. A simplicidade do lugar me pôs, imediatamente, em alerta: eu fiquei completamente sintonizado nas suas reações.

Eu conheço uma lista enorme de hipongas que fariam cara de nojinho e nunca, jamais, comeriam nada ali. Naquele momento, eu fiquei atento para avaliar o seu comportamento. E não apenas você comeu com naturalidade (a comida era ótima, o feijão cheio de caldo, tudo bem temperado, a salada fresquinha e batata frita inesquecível), como realmente curtiu o momento, a comida, o lugar, o papo, o dia. Somando isso com o restante da viagem, com a alegria que eu sentia naqueles dias, com a felicidade que a sua companhia me proporcionava, foi como se algo estourasse dentro de mim. A sensação física era de calor, como se eu tivesse tomado por algo indizível que me aquecia e me atraía até você.

Eu demorei para entender o que aconteceu comigo naquele instante e nos dias seguintes. Demorei mesmo. Eu demorei porque eu nunca, nunca, nunca, nunca tinha vivido isso. O que eu senti naquele momento, e na volta do passeio foi, pela primeira vez na minha vida, um tipo de paixão. Mas a melhor forma de paixão que existe, que é essa que brota depois que você já ama alguém, porque aí é mais que um sentimento, é uma força da natureza: é todo aquele calor gostoso de gostar de alguém, de sentir falta, de ficar pensando e pensando nessa pessoa, mas temperado com o que você já sente, com o amor que já possui, com o carinho que já tem, com a lucidez que já existe dos defeitos e potenciais. Essa foi a minha epifania, esse amor de verdade, porque o que eu sentia antes, pelas outras que vieram, sempre me pareceu incompleto, sempre soou como se faltasse algo, como se não fosse ideal. Foi algo insano, sim, porque, depois de te conhecer por tanto tempo, depois de tudo, eu me apaixonei novamente por você, eu fui conquistado, mas tudo isso já sentindo amor e eu me senti, sim, a pessoa mais feliz, importante e resolvida da face da Terra. Foi como quando a gente gosta da primeira pessoa na nossa vida e não enxerga mais nada na nossa cara, só que com o detalhe de que eu já te conhecia, já sentia amor, e lendo agora eu vejo que nada disso faz sentido, que você vai rir da minha cara, que não importa mais, mas é verdade, tudo verdade, e que bom poder dizer isso, ainda que à toa, para alguém. Foi como uma certeza, como se eu tivesse ficado totalmente convencido de que estamos condenados um ao outro.

De repente, tudo se encaixava, as promessas deixavam de parecer só promessas e a vida toda se desenrolava diante dos meus olhos.

O que eu senti foi tão forte e íntimo e eu não tive tempo para processar e, como nós dois não somos bons de se abrir e conversar sobre sentimentos com o outro (o que, se você parar para pensar, é um potencial incrível), acabei não sabendo extravasar, não soube como expressar o que eu sentia e que não cabia dentro de mim, eu não tive o sangue frio de dizer, “olha só, aconteceu isso comigo hoje! O que que eu faço? Eu quero te esmagar num abraço!”. E antes que você corra a me rotular de imaturo, você precisa levar em consideração o quanto eu considero os momentos que eu passava com você preciosos porque a nossa realidade era de duas pessoas distantes fisicamente, então eu precisava aproveitar a sua companhia como se não houvesse amanhã e aí não só eu estou sempre interessado no seu corpo como, nesse momento em específico da viagem, eu precisava demonstrar e dar vazão às manifestações físicas do meu afeto por você o tempo todo. Nessa onda de serotonina, eu passei a olhar para você de outra forma, eu não via mais você, a gostosa, a interessante, a que é boa de conversar, que se interessa por tudo, que se faz de durona, mas é delicada, que é calma e sossego, que quer tudo, mas nunca impõe, que é essa incógnita, esse mistério a resolver, a que me sufoca, que cozinha tão bem, que é a melhor companhia de viagem que eu conheci, que me motiva, que rouba minha atenção, que vive nos livros que eu leio, que não sai da cabeça, que me fez gostar de cães, a que eu queria para mãe dos meus filhos, que me fez conhecer melhor o mundo e a mim mesmo, que me curou da depressão. Não. O que eu passei a ver, dali em diante, foi a mulher que eu amo, com quem todos os planos – não mais sonhos – são possíveis porque ela vale a pena, com ela dá pra caminhar, dá pra confiar nessa pessoa, dá para ver ela como constante nessa equação da vida, tão cheia de números negativos, de variáveis. A pessoa com quem eu sei que eu posso ter coragem de contar meus segredos que ninguém mais sabe, a pessoa com quem eu quero contar até o fim da vida. Naquele dia, ao se mostrar tão você, normal e feliz, sendo simples, naquele lugar simples, sendo plena e completa, você redefiniu os meus paradigmas todos porque você rompeu todas as barreiras que eu ainda tinha. Você me reconquistou, você colocou o meu coração no bolso, você me tirou o chão e você me confrontou com a verdade de que quem constrói o nosso destino somos nós, então toca a por mãos à obra.

Como eu te amei naqueles dias, eu te amei de tremer as pernas.

Eu precisava te fazer carinho, tocar em você, porque é a única forma imediata que eu conheço de expressar afeto, de te mostrar, “hey, olha só, estou estourando de paixão e amor por você, sinta aqui na palma da minha mão, veja o quanto eu te quero, o quanto eu amo você”. Se nós dois não tivéssemos construído de forma inocente essa ilusão de que nos conhecemos tão bem, eu saberia que você não gostaria, ou você teria a porta aberta para dizer “o que foi? Por que você está assim?”. Mas nós não nos conhecemos bem, tínhamos problemas de intimidade e diálogo e isso foi porta de entrada para um monte de problemas.

Eu não quero falar no passado porque aí o texto ficaria longo, mas queria falar do futuro e do presente, queria falar desse incomodo de não entender, de se preparar para tudo e para nada. Queria, mesmo, entender. Queria me explicar, queria alcançar, queria, queria e queria.

Poderia lhe dizer que as mudanças que fiz são sólidas, que eu tenho planos, que tudo dá pé, que de mãos dadas, a gente fecha os olhos e pula nesse abismo de deliciosas aventuras e incertezas que é a vida, convictos de que caímos no macio. Que eu transfiro a faculdade para o IF daí, que a gente aluga uma casa aqui, que a gente faz, a gente se abre, a gente se entrega, a gente resolve porque agora dá, porque agora é, porque agora precisa, porque o tempo é fugaz, porque esperar não é saber, porque te quero, porque te encanto com meus planos e os uno aos seus, porque é você, só pode ser você, porque eu te amo, amo ainda de me tremerem as pernas, porque não te esqueço, porque te perdoo, porque te entendo.

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