Faltava um mês para que eu completasse 86 anos e, assim, superasse em um ano completo a minha meta, a minha estimativa, o número de anos que, um dia, ainda muito jovem, eu tinha decidido arbitrariamente que seria a quantidade ideal para viver. Para ver o mundo, para amar, para chorar, para vencer, para perder, para construir essa coisa nossa, essa coisa de história, de vida, essa estranha sensação de precisar seguir em frente, de precisar experimentar a vida e o mundo, essa sensação tão estranha de, diante de um universo indiferente, de um universo frio, de um universo que nos faz insignificantes, precisar amar, crescer, sorrir, chorar e ser.
Aos 85 anos, como sempre fiz na vida, não era novidade, portanto, dei-me à tarefa de olhar para trás, de fazer os meus balanços porque, a partir de agora, eu recebo o fim e a morte de braços abertos, porque de agora em diante, o que vier me abraçar é lucro, é sobra.
E nesses balanços encontro tanto para sorrir e me orgulhar que me confunde essa sensação agridoce de quem se vê apresentado ao ocaso e ao fim; me deparo com a alegria que me trazem, hoje, os netos e que senti tão esmagadora nos beijos das minhas crianças. Me deparo liberto de tristezas porque dos meus remorsos fiz escada para procurar novas paragens e construir as minhas moradas em fundações mais sólidas.
Olho para o passado e sorrio, com satisfação, diante dos meus processos, tenho orgulho dessas minhas cicatrizes, do que me cortou profundo, mas me fez mais firme, mais inteiro, mais pronto. Hoje, velho, sem muito que esperar da vida, não me sinto sozinho, não me sinto desamparado, tampouco sou fraco que ainda mora em mim o rapaz que não sabia amar, o rapaz que tinha medo, o sujeito que se deprimiu, aquele que soube desistir, levantar, e começar tudo outra vez. Há uma força enorme que ainda sobrevive na fragilidade estranha desses meus ossos, há uma grandeza e vontade de vida que palpita no coração a cada sístole cansada dessas décadas.
Resta um mês para terminar o primeiro ano, o primeiro ano do resto da minha vida.
domingo, 21 de maio de 2017
Quando eu tinha 85 anos
às 06:36 Marcadores: Cartas aos meus filhos, Contos, Memórias

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