E eu digo que o que mais me assusta nessa história, nessa loucura, é que são já seis meses. E seis meses é tempo demais para que sentimentos fracos e sem propósito esmoreçam, para que o ânimo acabe, para que as verdades frias e duras cortem fundo na carne, tempo mais que suficiente para que a distância, a indiferença, o desinteresse, enfim, se assentem na alma, nessa essência nossa que diz o que somos e como somos perante a vida, e passem a martelar, sem trégua, que acabou. Que não era nada disso, que era tudo um engano, que foi melhor assim, que, veja só, eu sobrevivi e, agora, já fico aqui do meu canto sem sentir nada por você. Até logo e muito obrigado.
Mas não tem sido assim, ao menos na minha metade do muro, e eu não sei explicar o porquê. Porque esforços não faltaram no sentido de dar ao juízo essa folga, o conforto dessa certeza, de instruir o coração dessa acidez corrosiva da velha máxima do “quem não te procura, não sente a sua falta e quem não sente a sua falta, no fim das contas, não te ama”. Houve lutas, houve conflagração, houve esforço, houve cinismo, houve dúvida, houve razão, reflexão, muito amor próprio e, sobretudo, houve tempo e distância e, ainda assim, tenaz, segue no meu coração essa qualquer coisa que chamamos de amor e saudade, temperada com os contornos da esperança, do carinho e da felicidade leve, leve de entender o que sente e aceitar os fatos.
Me esconjuro, mas não tenho mais recurso, e tento conviver com a verdade do que eu sinto e, de minha parte, venho sendo bem-sucedido porque há paz na admissão da beleza de um sentimento tão resiliente, ainda que, em última análise, inútil. Há uma alegria em ser capaz de reconhecer essas coisas, de entender como elas funcionam, de poder dizer que ama uma pessoa à essa intensidade. Eu, hoje, não luto mais contra o que eu sinto, eu aceito, eu vibro com a vida, eu me deixo em paz, sentindo só coisas boas, na esperança de que, eventualmente, me canse; mas na torcida de que não, de que esse amor todo não seja em vão. E nesse tênue equilíbrio, eu vivo feliz porque eu me recuso a sofrer. Se o preço para matar tanta coisa bonita são lágrimas, ódio, se é a depressão, prefiro viver iludido, cultivando apenas coisas boas porque sentimentos bons me deixam leve, calmo, me pacificam e eu gosto de sossego.
Mas são seis meses de escuro, seis meses em que brilha, sempre fugidio e distante, aquele farol que me ilumina o rumo, como que me conduzindo novamente a todas essas coisas, à ela, sempre. Mas toda vez que persigo aquela luz elusiva, acabo eu encontrando o mesmo ponto de saída dessa verdade inescapável do que eu sinto e de que eu não tenho mais nada para fazer. É tão frustrante, é tão triste essa mistura de vontade e de impossível, de querer dizer tantas coisas, mas não poder por instinto, por medo, por necessidade de sobrevivência. E nessa espera, antes de começar a vagar por esse escuro em busca de tropeçar com algum vestígio dela, me confronto com o fato de que, nesse universo sem luz que abandonamos, fico eu sozinho.
Não posso mais dar murro em ponta de faca, porque dói e corta a alma esse esforço que não é mais humanamente possível. Porque são seis meses. Seis meses de desencontro e de uma bobagem, seis meses lutando contra a maré vermelha do que eu sinto, seis meses me convencendo da inviabilidade de algo que o coração, que agora deu para arquiteto, planeja e edifica em sonhos e planos que muito me dão, ainda, o que pensar (dia desses, apagava uns arquivos, e achei o Grande Plano, The Tertuliano* and Maria da Paz* Conspiracy, que escrevi em fevereiro, 18 páginas, tinha até planilhas com previsão de quanto devíamos poupar em x meses para compra de um terreno de y alqueires, tinha o meu projeto de empresa, dependendo da cidade que escolhêssemos. Foi uma das coisas mais incríveis que eu escrevi na vida; contingências, soluções projetos, técnicas de diálogo e de desenvolvimento de intimidade, estava tudo lá. Eu imprimiria esse documento em papel nobre, guardaria num baú e o mostraria aos meus netos: "vê? Aqui, foi aqui, nessas páginas, que eu e sua avó começamos a construir essa casa"). É tempo demais e se fosse mesmo todo esse sentimento incidental, eu não teria mais amor nenhum para confessar, mas mesmo assim, está tudo aqui, estão todos aqui suspirando possível, suspirando vá, suspirando fale, suspirando, grite.
E se são seis meses de frieza, distância, de especulação e ausência, de incerteza e incompreensão, e mesmo assim se agarram em mim esses sentimentos, que força mais eu tenho para vencê-los? Quero mesmo vencê-los? Devo mesmo vencê-los? Não passei eu a vida toda em busca de exatamente esse tipo de lucidez sobre a vida e o que vai no meu coração para, justo agora, despejar tudo no ocaso das desistências? Quem sou eu, em resumo, para brigar contra um amor que, a despeito de tudo que eu tentei, vive forte no meu coração, generoso, capaz de perdoar e disposto a recomeçar, todo bem-dito dia, essa rotina?
Vivi sob a ilusão de que, uma vez sabido do fim, tudo passaria: mesmo o coração não teria mais argumentos para manter essa loucura, esse amor maluquinho, vivo e firme, essa saudade louca que cresce. Além disso, a certeza do fim, do ponto final dessa história, combinada com os esforços sinceros que fiz no sentido de prevenir esse desfecho pareciam ser as armas derradeiras para cortar a cabeça desse monstro, e é ou não é monstro?, que cresce dentro de mim. Afinal, enquanto eu usei o tempo que ela escolheu para melhorar, para crescer, para me construir, para me preparar para a vida ao lado dela, sempre a esperando; ela optou por me esquecer, pela frieza, indiferença, por me deixar.
Mas não. Não acaba. E não esmorece, e segue comigo.
Não há nada que pareça dar jeito. Há, ainda, uma força que mantem tudo vivo, como se houvesse esperança, como se os possíveis que meu coração arquiteto pensa estivessem ao alcance, como se eu fosse correspondido. Há uma força que me diz para ir, para buscar, para fazer algo, para dizer que não há remorsos e ressentimentos, que portas, coração e futuro estão abertos à nossa espera. Há uma força que tenta me convencer de que não há impossíveis, que o que não é possível nessa história é que eu tenha ficado com a metade que não morre nunca desse amor todo, que não há a menor possibilidade de justiça no universo se, do outro lado desse muro, não estiver aquele coração mais ou menos pulsando o mesmo tipo de paradoxo. São seis meses! E, que fique claro, eu não sofro por conta disso, eu fico é intrigado, maravilhado até, porque se deparar com um sentimento tão forte por outra criatura, tão verdadeiro e singelo, é raro, há quem passe a vida sem amar, e eu dei essa sorte absurda. O amor engrandece, e esse que eu carrego comigo, ainda que tristonho pelas suas impossibilidades, é do tipo que me põe em perspectiva diante da enormidade das coisas a que nós, humanos, pessoas comuns, estamos expostos, à grandeza de coisas que dignificam a existência e dão sentido a essa aventura, estranha e desesperada aventura, de átomos, moléculas, matéria, enfim, que se organiza assim e assim, dali a pouco começa a articular sons, quando vê está fazendo pensamentos complexos, mais um pouco sonha, e não passa nada, e está amando, sentindo um amor que, sem sombra de dúvida, é especial e, ainda que abstrato e sem substância física, maior e mais poderoso do que a criatura que o sente, que o mantem, que o tenta matar, que se esforça para compreendê-lo num esforço que, se não inútil, é completamente inviável: somos pequenos demais para a grandeza absoluta de certas coisas que nos envolvem. Tem uma majestade esmagadora todo esse oceano caudaloso de coisas boas que eu sinto por aquela pessoa e essa percepção, ainda que redentora, me intimida: eu nunca vou saber expressá-la em palavras de forma a explicar como me sinto, o idioma é tão limitado nas possibilidades, e nunca mais vou ter a chance de tentar fazê-la ver as coisas como eu as enxergo, sentir o amor que eu sinto num esforço, desesperado como tudo mais nessa quadra da vida, de fazê-la, se não sentir algo parecido, ao menos compreender que nós dois juntos, essa união que não houve, somos como um tempo, uma celebração da vida, uma celebração desse mistério que aniquila qualquer vã pretensão de frieza e distância de que nós dois somos uma forma do universo amar a si mesmo.
Eu sou, antes e acima de tudo, grato por esse amor todo.
Meu maior risco não é a perda do equilíbrio, que eu ando mais forte, não é a tristeza, eu me recuso a sofrer por quem não me quer, meu maior medo é sucumbir ao que eu sinto, é correr atrás, é perseguir essa ilusão, é não me conter, é ir em busca de uma pessoa que, infelizmente, já não me ama mais. Meu maior risco é por o coração na frente da mente, é não me comportar com razão, é me submeter, aí sim, a sofrimento por pura ingenuidade. Meu maior risco é não apaziguar essa paixão, esse amor maluquinho que me quer lá, que quer acreditar que eu tenha qualquer retórica sentimental para dizer a ela que tudo está a nosso favor, que sente-se aqui na minha frente e entenda, por favor, que há jeito para tudo, me permita explicar, você vai entender, que não é pressa que eu tenho, tempo se arranja, o que eu tenho é urgência. Entenda que eu não tenho mágoa, que eu te recebo na vida de braços abertos, que eu entendo, e o que eu não entendo, eu perdoo, porque amor é a generosidade que temos com as falhas do outro na certeza íntima de que é essa generosidade que nos torna análogos, solidários, unidos e compreensivos. Sente-se, me ouça, abra seu coração, e entenda. Diria que essa minha intensidade toda é trunfo, não é para assustar, que eu já morri de medo dessa mesma coisa, especialmente se viesse ela toda de você, mas que hoje eu entendo, sentir intensamente essas verdades dá força, dá clareza, energiza a mente, purifica a alma. Que eu derrubo a minha metade do muro, você derruba a sua, nós conversamos e começamos tudo juntos porque nossos erros todos não foram fruto de maldade, de falta de carinho, de falta de amor, de infidelidade, de todas as monstruosidades que se comete por aí. Que, se depois de seis meses, ainda é tudo isso, então toca a viver e dar a esses sentimentos a vida que eles buscam, porque nada assim é grande e intenso por acaso e que me angustia lutar contra coisas tão fortes, ser artífice da morte de tanta vida.
É essa tensão entre esperança e paixão que me faz pensar que não há justiça num universo que permite que uma criatura sinta essa dimensão de sentimentos por outra sem ser correspondida, que é preciso que, no meio da aleatoriedade caótica da existência num universo vasto, infinito e indiferente, uma coisa precisa ser sagrada e inviolável, uma coisa precisa ser exceção, uma porção da vida precisa funcionar, precisa ser justa, ser equilíbrio, e essa coisa só pode ser amor, e se assim é, então não fazer nada é o mesmo que fazer tudo para sepultar esses sentimentos: um tipo de crime, de sacrilégio, de atentado.
Mas, em socorro desse meu coração maluco e sempre disposto, vem a mente. Há um equilíbrio presumido no universo que diz que para cada positivo há um negativo. Então, se há esse amor todo comigo, por certo, em algum lugar, se esconde a mesma proporção de ódio. Tivesse eu sorte, esse ódio e indiferença estariam todos no peito de um alienígena a milhões de anos-luz daqui. Mas, que sorte desgraçada essa a minha, porque o oposto do que eu sinto foi crescer justamente na mulher que eu amo.
São seis meses. Fossem imaturos, fossem comuns, fossem fracos, esses sentimentos não tinham atravessado as primeiras semanas, não tinham resistido a nada.

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