Eu acho muito curiosa essa minha mania de precisar falar tudo, mesmo quando não devo, essa minha tendência a achar que as pessoas, de alguma forma, vão valorizar o que eu digo de mais sincero simplesmente porque eu sempre presumo que todos têm uma empatia natural pelos sentimentos que eu exponho. Mas, verdade seja dita, nem sempre é o caso, quase nunca é o caso, porque, no geral, são as pessoas mesmas que nos instigam a esses grandes sentimentos que nos impedem de vive-los. Eu devia calar mais, devia falar muito menos, devia lutar pouco e ser mais racional. Mas eu não sou, eu nunca sou.
Se você estiver mesmo comprometido com os seus valores e com os seus grandes projetos para a vida, isso não chega a assustar porque chega uma altura em que, ou você aprende a contornar esses vícios, ou então resolve mudar dramaticamente de comportamento – o que é muito difícil. Eu consigo me encher de ótimos argumentos para mudar coisas ruins, porque, bom, elas são ruins, mas algo que eu vejo como inocência é difícil de desarmar.
E é difícil porque eu gosto de me entender. De processar, de falar como eu me sinto, de dizer, mesmo, o que vai lá no fundo, sejam nas páginas secretas de um outro blog, sejam nas desse, sejam nos rascunhos que eu guardo por aqui. Nos quilômetros e quilômetros de textos que eu escrevi, li e apaguei como forma de terapia, de paz, de aceitação e de reconstrução. É difícil mudar porque eu gosto do meu conflito interno, é difícil porque, no geral, eu tenho lado toda vez que as minhas metades pegam em armas: em geral, eu sempre torço para o coração.
Eu gosto de não me esconder do que eu sinto, de apaziguar as facções que, no meu interior, escaramuçam, travam batalhas históricas e tentam puxar o pêndulo de Foucault das minhas escolhas para o lado frio da razão, ou para o lado emocional, cheio de pureza, dos meus sentimentos de menino.
Eu poderia arbitrar todos esses conflitos, criar uma Otan para cada metade, poderia instituir uma ONU para ter um Conselho de Segurança que se esforçasse para criar mais consenso e menos conflagração. Eu poderia armar os dois lados com ogivas nucleares, tudo com o incerto intuito de impedir conflitos, sempre nessa obsessão pelo consenso, e viver dessa forma tão bobinha, que parece encantar toda as outras pessoas, de se impor perante seus próprios conflitos, não ouvir nada do que sente e reagir de forma embotada diante dos desafios da vida bandida.
Mas consenso, ao menos no que tange o eterno e terno rebuliço das minhas emoções, é algo ruim: me impede de observar, de sentir, de me conhecer, de me ver como eu realmente sou, como eu realmente funciono, o que é que faz o meu sangue correr quente pelas veias. No conflito, eu depuro tudo e, no meio dos escombros de cada uma das lutas, só sobram as verdades universais que bombardeios, peças de artilharia, demolição, explosões, metralhadoras e as inclemências gerais das batalhas não conseguem destruir. A cabeça sempre entra com vantagem nessa eterna guerra, mas sempre perde. A mente não quer reconhecer verdades, quer destruí-las e desmenti-las. O coração quer que as verdades sobrevivam e que os sentimentos governem tudo. E que bom que é assim, que esse coração guerreiro me lembre sempre, sempre do que eu sinto.
Eu morro de amor pelo meu coração, guerreiro espartano.

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