Na fila do banco, eu ouvi de uma mãe contando a uma amiga das dores que passava naquele momento o filho, criança, do que pude deduzir, e que teve que recentemente encontrar na perda do cachorro da família a sua primeira experiência com a morte. De como vinha sendo difícil explicar que o bicho não volta mais, que a vida dos cães é assim, tão mais curta, que o menino chorava e chorava, que na cabecinha dele não entrava a ideia desses absolutos, do pra sempre, do nunca mais, da ausência, da impotência diante das circunstâncias. Que nenhum brinquedo ou agrado substitui o cachorro.
O relato ainda foi longe, a fila era das demoradas, e prestava atenção curioso na forma como aquela criança precisava enfrentar essa dureza, de como a dor que o garoto encara em tão tenra idade afligia a mãe, que não sabia mais o que fazer. Me peguei, eu mesmo, engolindo as lágrimas, quando, por cima do ombro da interlocutora, flagrei a foto de guri e cão abraçados. Criança feliz, sorridente, de dentinhos ainda pequenos, sorriso de covinhas, olhinhos apertados. Cão marrom grande, não saberia dizer de que raça, eu basicamente vejo labradores e pastores em tudo, que são tão carinhosos esses labradores que, tenho certeza, se fui eu cachorro em uma vida passada, de certeza que fui eu um desses.
Engoli as lágrimas porque, acompanhando a fotografia disposta na tela de celular, veio a sequência do relato da mãe, que informada do veterinário do destino inevitável do bicho há algum tempo, preparou uma semana de agrados para criança e cão, dando aos dois todos os mimos que, de ordinário, seriam vetados. Então o bicho dormiu na cama com o menino, teve livre acesso ao interior da casa, ganhou carne de boa qualidade e todas as coisas que gostava de comer como forma de despedida de toda a família, como carinho, como zelo por essa vida que se finda, que leva tanta lembrança e encerra, já agora, tanta saudade. A dor da perda é esmagadora, por certo, tanto mais que achata as costas estreitas daquela criança, mas que inveja dá essa virtude da morte dos cães de família cujo fim pode ser antevisto, preparado, cuidado. Na nossa vida de pessoas esse tipo de luxo é uma raridade e, nem sempre bem vinda porque, do alto da nossa pretensa lucidez, gostamos de achar que somos por demais importantes e apegados à vida. O cão não presume seu destino, não questiona a finitude da sua existência e quando se dá uma semana de regalos e folgas, como no caso dessa família, apenas aproveita. Deve ser feliz a vida dos cachorros.
Não conheço o garoto, e me compadeço enormemente da sua dor e do seu sofrimento. Depois que chegou a vez da mulher, e não tive mais como ouvir a conversa, desejei intimamente que essa criança colha dessa experiência apenas boas lições. Que decaia esse sofrimento com o remédio do tempo e que, no futuro, fique a recordação de bons momentos compartilhados com o cão, dessa semana de despedida e festa em que tudo foi possível. Nunca fui diretamente afetado por morte de cães, embora já tenha perdido muita gente, mas mesmo assim, hoje, eu finalmente entendo o que li uma vez sobre a crueldade que é essa coisa de morrerem os cães tão cedo.
Criança nenhuma no mundo merece perder um amigo desse jeito. Cachorros de crianças deviam ser imortais.

0 comentários:
Postar um comentário