Agora eu advogo que a maior prova de amor que se pode dar a alguém é o tempo. É o compromisso inolvidável, abnegado, sério e aberto de que o tempo, a escassez do tempo, deve nortear nossas escolhas, nossas necessidades, nossa vida porque o tempo passa, o tempo voa. O tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, como dizia o Caetano, é o que mede as coisas e não se dar conta da sua ação, seja positiva, seja negativa, em todas as coisas é ingenuidade. A maior prova de amor que você pode dar a alguém é conhecer o tempo, dizer que, hey, olha só, eu pus o tempo no bolso, ele é nosso aliado, agora vamos em frente, porque o tempo não vai nos destruir e o resto, bom, o resto a gente resolve.
E, se você quiser, você coloca o tempo no bolso e faz dele aliado. É tudo uma questão de percepções, de aberturas, de entregas e compromissos. De clareza a respeito das nossas circunstâncias e possibilidades nessa aventura tão doce que é a vida.
Em algum lugar do código matemático que explica a realidade, eu tenho plena convicção disso, se esconde uma fórmula que relaciona diretamente tempo e amor.
O tempo é a maior prova de amor que você pode dar a alguém porque a vida se faz no agora. Eu descobri que passei anos remoendo, e sofrendo, no passado e isolei completamente meu futuro numa redoma de aço, em que nada real poderia penetrar para não denegrir os sonhos, os doces sonhos, que me acostumei a ter. Mas, agora, desperto, eu desmontei essa redoma e estou submetendo os sonhos todos aos duros testes da realidade: todos vem sobrevivendo porque são as coisas que eu quero, que eu preciso, que eu almejo.
De certa forma, eu sempre levei a vida numa constante queda de braço com o tempo. Eu queria, por vezes, viver no passado. Por outras, eu andava sonhando no futuro. Mas, como forma de proteção contra os meus fantasmas, como reflexo da depressão e das minhas fraquezas, vivia pouco no presente. A percepção clara desses problemas e erros, hoje, dá paz, ilumina. Liberta.
E essas percepções não são vagas. Você pode ver como o tempo é precioso facilmente: aos 32 anos, um ano de vida equivale a 3,13% da sua vida. Aos cinco anos de idade, o mesmo ano vale 20%. Essa matemática ajuda a explicar porque, nessa altura, o tempo parece voar, andar tão rápido. Há um incrível arrazoado na Internet sobre essa escassez interminável, que quando li, me deu um sentido de urgência sobre a minha vida que eu nunca tinha experimentado e que mostra, de forma absolutamente clara, como temos pouco tempo para fazer o que precisamos, o que queremos, para dividir com quem amamos.
E todas essas coisas ajudam a explicar porque eu ando tão apressado para correr atrás do que eu sinto, do que eu desejo, do que eu preciso. De certa forma, ao brigar tanto com o tempo passado, ao amar tanto o tempo futuro e evitar tanto o presente, aprendi que há uma diferença de escala entre essas três entidades: o passado é vasto, amplo e enorme e dá uma ilusão de felicidade palpável, mas é uma felicidade que não frutifica mais, como se fosse uma estátua, ou um animal empalhado. O presente é, só isso, ele existe, mas é adimensional. O futuro, por outro lado, é estreito, apertado e, de alguma forma aconchegante porque apresenta uma felicidade, mas que não é palpável, que não é real, que esfarela na mão se você tentar tocá-la, o que você vive no futuro, se furtando do presente, são ilusões e miragens. O único lugar dos três em que você pode encontrar alguma forma de felicidade verdadeira, real, é no presente, por fugaz, pequeno e árido que seja, é nele que as coisas, de fato, acontecem, é nele que nos apaixonamos, é nele que amamos, é nele que nos construímos é nele, sempre nele, que devemos nos refugiar, por dolorido que isso possa ser.
A realização dessas coisas não vem de agora, vem de antes, mas como tudo na vida, nessa guerra eterna contra a passagem inflexível do tempo, chegou tarde. Assim como o poder da meditação na minha vida e tantas outras coisas doces, agridoces, que esse 2017, estranho, novo, forte e grande vem me trazendo.
Se não tivesse aprendido nada, poderia encerrar esse texto com um chiste, dizendo que “que pena que meu 2017 não foi em 2013, ou antes”. Mas não brigo mais com o tempo, não brigo mais com nada, chega de queda de braço, que agora não moram mais no peito todos os sonhos do mundo: agora mora um relógio cósmico que, em paz, conta os pentelhésimos de segundos dessa existência para que eu viva em plena harmonia e sincronia com as minhas circunstâncias, com o que eu quero, sinto e preciso.
O tempo, enfim, é o meu grande aliado.


0 comentários:
Postar um comentário