... e tudo dá, tudo pode, porque nós temos tudo ao nosso favor: os sentimentos, a vontade, a clareza do que é a vida, os sonhos, os valores, os princípios, nós só precisamos um do outro nessa deliciosa aventura de se aprender, de por paz, de dar um ao outro o afeto e o sossego que nós precisamos. Eu queria te contar como eu tive essa epifania, o que fiz e onde fui, por onde estive e a que não me permiti, queria dizer que nesse verão que vai acabando morre no meu peito e me deixa acalorado, porque aqui fica, aqui sobrevive o amor que é feito de calor, esse amor apaixonado que eu tenho, que é tão você, que é só você, que é por você. Esse amor que me lembra das suas mãos, tão impossíveis, dos seus olhos, tão adocicados, dessa pele, que é delicada como a primeira pétala da primavera, o jeito que o teu cabelo cai quando você o prende, o teu acordar sensível, ah que medo, e dos seus gostos, dos seus jeitos, da sua voz, dessa verdade irremovível do que eu sinto, do que temos, do que podemos, do que devemos.
Eu queria criar uma nova forma de linguagem, inventar o nosso idioma, porque aí a barreira das ideias que se diluem na torrente de palavras vivas e mortas não estaria no meu caminho, aí eu poderia, enfim, te mostrar, te dizer, te fazer entender. Eu poderia versejar sem medo, compor sem receio, escrever e te falar sobre as coisas todas, sobre os dias, as noites, sobre as idas e vindas, sobre as vidas remidas, sobre as vidas abortadas, sobre as desistências e vitórias. Eu poderia, à força das nossas palavras, te explicar e mostrar do que é feito esse meu coração, esse meu jeito, essas minhas epifanias, essas minhas cismas. Você me leria, porque eu deixo, eu peço, eu quero, eu preciso da sua leitura do que eu tenho, do que eu te ofereço, do que eu te entrego. Eu poderia dar ao meu corpo e ao meu peito essa coragem, essa coragem que anda me faltando, essa de atravessar esse muro e cair, cair no lado de lá e te contar, do começo ao fim, sobre esse mistério da minha Epifania, desse meu jeito de te amar e me apaixonar por você o tempo todo, como se eu fosse um paradoxo do tempo, do eterno retorno, do amante que se apaixona, e que ama, se apaixona, ama, apaixona, amapaixona para sempre.
Eu te quero, te quero como quis naquela viagem, te espero como te esperei ansioso e impaciente por aqueles dias de agosto e setembro que me diziam que algo, algo grande, algo de importante estava para acontecer, te espero porque é hora, é hora de ir em frente, de sairmos os dois unidos desse mês de setembro, esse mês de setembro que durou quatro anos. É hora de correr a vida, é hora de fazer os planos, é hora de abrir as portas, de fechar as estradas e construir as nossas veredas porque nunca estivemos tão prontos, nunca foi melhor a hora, nunca foram mais fortes os meus sentimentos, nunca fui eu melhor pessoa que agora, essa hora preciosa. Esse tempo que, nosso, vira futuro.
O meu coração espartano, que se movia como corsa, que fugia a cada investida sua, desistiu, ele baixou as armas, esse meu coração espartano, enfim, reconheceu que não é derrota, que amor é a vitória. Vitória que você sempre teve, porque você chegou antes, você viu antes, você entendeu antes, você quis. Quando eu te vi sorrir ao meu gracejo, quando te disse que tinha me apaixonado novamente, que falei mesmo sem pensar, sem perceber, e vi no seu riso timidez, vi no riso graça. Lembro de encarar os seus olhos do outro lado da mesa, ah que demora essa comida, a que pouca coisa esse vinagrete, ah mas que delícia essa nossa companhia. Tudo me preparava, tudo ensaiava o palco, tudo colocava as peças no lugar porque dali a poucos dias, nós faríamos aquele passeio da cachoeira, e eu de lá nunca mais voltei, é como se tivesse por aquela trilha ficado a perambular, na busca desse momento fugidio, dessa minha atávica incapacidade de articular, de lhe pedir que espere, que ouça com atenção, olha que coisa maluca que me aconteceu, não dê risada, não, não é engraçado, que é bom, mas não é necessariamente engraçado. Ah, o que eu faço? O que que eu faço agora, logo agora, que descobri que eu amo, que eu amo nós dois?
Na vida simples dos seus amigos, eu arquitetei a nossa, nos vi sob o mesmo teto, dividindo contas, fazemos uma conta conjunta, eu viro o seu companheiro e tocamos a sua empresa, e nós pensando no cardápio, falando dos planos do feriado. Neles eu nos vi, caminhando os dois em compasso, um passo de cada vez, que a estrada vai ser longa, mas que bom que vai ser longa, porque se é longa, é mais tempo ao seu lado. Eu pensava, do meu jeito bobo, que as coisas estavam se encaixando: eu já tinha tempo de voo ao seu lado, eu estava melhor, mais atento, eu queria de 2017 o começo, o começo a que nos propomos. Eu sonhei em te fazer surpresas, ah essa vida que não tive, eu vivi de planejar nossos retiros, de descobrir e rir das nossas manias, eu te contava do curso de massagem que fui fazer para te agradar. Quis matricular a gente num curso de marcenaria, num de jardinagem, quis aprender da vida contigo. Eu quis ser cão de guarda dos seus cachorros quando você viajasse, eu queria te dizer que nesse ano, meu bem, nesse ano nós construímos a nossa vida e eu quero a sua mão, você toda, toda no meu futuro, nessa hipoteca nossa de planos, de sonhos, de tantos desejos e desse amor maluco. Diga a todos que eu caso. Que eu sonhei que nosso filho chamava Raul, há anos, mas morria de medo de te contar. Eu ia folhear as páginas surradas dos meus cadernos ao seu lado, eu me embrenharia nas durezas daquele seu projeto e faria aquele programa. Eu me vi naquela rotina, a doce rotina, de quem se arrisca, de quem procura, de quem divide, de quem quer mais da vida e de quem sabe com quem.
Lembro daqueles quilômetros que percorremos, das músicas, Tom Jobim, das conversas, que falta me fazem aquelas nossas conversas, que ninguém odeia o Serra com tanta paixão, das descobertas, das placas de vende-se se insinuando a cada curva, cada pedaço de chão com mato e isolamento e boas vistas se exibindo aos meus olhos, esses meus olhos que só tinham você, esses meus olhos que cantarolavam e que te procuravam, esses meus olhos que queriam falar com os seus, ontem, hoje e sempre. Que sufoco, que aperto de saudade, que aperto dessa minha loucura, mais uma, que vai comigo, eu sei que vai, como eu sempre soube que iria, como eu sempre tive medo que iria, até o fim, até para aquele para sempre em que você não vai estar porque, se hoje só te amo, aí eu me aflijo, porque logo eu me reapaixono, enquanto você me anexa e esquece. E o ciclo não acaba, porque meu coração espartano é difícil de dobrar, mas uma vez batido, ele é fiel.
Lembro daquelas estradas e da minha vontade, sempre que meus olhos encontravam você, de te abraçar porque eu não cabia em mim de alegria. Eu tinha, ali, com aquele volante nas mãos, 120 km/h, todas as respostas, porque eu venci, eu tinha achado você e você tinha me achado. Eu queria tanto ter podido baixar a poeira desse vendaval de sensações e de intensidade para chegar do seu lado e te dizer que tive uma epifania, que eu vi a gente no futuro, que eu quero e sei por onde começar e que, contigo, eu vou pra onde for, porque a minha casa, a minha morada, passa a ser onde quer que você estiver com o meu coração. E que não vou embora, mulher, deixa de coisas, deixa disso, não vai embora quem chegou onde queria, não vai embora quem se vê rodeado de caminhos que só levam ao mesmo destino, você.
E é quase carnaval, e nunca tive um carnaval contigo, que azar, que tristeza, que falta de coragem, que sem jeito. Tenho essa vontade vulcânica de andar e correr, de te encontrar, de te dizer, de te mostrar a novidade, de te falar do meu jeito, da minha vontade, de te explicar, de te instruir nesse novo idioma.
Não há palavras, e eu odeio essa expressão, mas é a que cabe, não há mesmo palavras que abracem o sentido amplo e desordenado desse caos em que estão as coisas nossas, os meus sentimentos em desordem, esperançosa desordem, como que se negando a ordenarem-se, a entrarem em arranjo disciplinado e controlado, a se abrigarem no catálogo ontológico da estante da alma, formassem todos eles uma lógica só nossa, em que só a nós cabe interpretá-los. Que meus sentimentos são todos teus, ficam todos eles pelo chão, te esperando chegar e escolher entre eles, o que vai ser seu, o que vai usar, qual deles você vai levar consigo.
Nessa bagunça íntima, tão minha, tão você, a desordem tenta ser estratégia, o meu silêncio e resiliência tentam me fazer de forte, a minha fé no que você sente vai escrevendo no caderninho desses fiados que a gente faz assim que diz que ama, que investe a paz e o que sente na outra pessoa. Na minha epifania, na mesma medida em que foi libertador entender que me apaixonei por você depois de ter te amado, a vitória maior foi perceber que esse ciclo de amores e paixões por você durariam uma vida toda, que tudo é descoberta, que tudo me encanta, que tudo me absorve nesse caleidoscópio de delícias que é a vida, que são as suas cores de aquarela nas minhas formas, que você me rouba os contornos, você me define no tempo presente, no tempo futuro, você me resgata do passado, que eu vivo agora pelo presente e quisera eu viver conjugado por você, feito verbo, em todos os tempos e em todos os espaços porque, ah, é fortuna demais essa minha de ter conhecido você nessa imensidão dessas duas metades do tecido de todas as coisas. A maior derrota dessa minha epifania foi ter sido tardia, foi não ter sido na nossa língua, foi não ter tido tempo de te arrastar para o vórtice ensandecido do amor que eu sinto.
Minha epifania me prende, também, ironia, porque na mesma medida que me liberta, ela me sequestra, ela me lembra sempre, ela faz com que eu sinta, com que eu ame, com que eu apaixone, com que eu lembre, com que eu espere, com que eu recorde, com que eu torça, com que eu busque, com que eu melhore, com que eu te perca, com que eu não me ache. Eu te amo a perder de vista.

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