Nas noites limpas de inverno, em que não há nuvem alguma no céu escuro, armo o telescópio que fiz em tempos de marcenaria, do tripé e suporte que cortei em madeira e compensado, da lente perfeitamente polida que veio da Alemanha, do suporte em que entalhei Atlas, essa figura tão interessante, o titã que recebeu a tarefa de erguer e levar o mundo nas costas, essa sensação que todos nós um dia sentimos e que, portanto, faz de todos nós, à nossa maneira e em maior e menor medida, um pouco Atlas.
No gramado, há um espaço que, se venha a calhar de o frio ser suficiente, fazemos uma fogueira e deixamos o pinhão sapecar na chapa. Eu monto o telescópio, afago o cachorro, espero pelas crianças. Aponto a objetiva na direção das estrelas, das nebulosas, dos planetas próximos e convido a curiosidade dos meus filhos, que me enchem de perguntas, que apontam o planetário do computador para outros destinos, e falamos das estrelas, e rimos, e tomamos, eu o café, eles o chocolate, enquanto vamos esperando a noite desandar.
Lamentamos o cintilar provocado pela oscilação de quilômetros e quilômetros de atmosfera que, se generosa por nos fazer o obséquio da vida, bem que atrapalha na hora de admirar o cosmos. Comentamos a estranha figura de Vênus, esse inferno de calor e desolação, o absurdo de Júpiter e aquele conjunto de planetinhas que, qual nós outros, poderiam estar agora sentados ao fogo do sol e, de microscópios em mãos, cogitar o mistério dessas criaturinhas que povoam o planetinha azul. Aí olhamos as nebulosas, onde nascem as estrelas, onde a vida espera por acontecer, onde algo maravilhoso ainda por descobrir aguarda quem, com sorte, se deparar com as pistas, com as novas verdades.
E aí explico que é mentira o que dizem na escola, que não é separando o que brilha do que não brilha que se distingue planeta de estrela, que na verdade nada lá em cima está brilhando, está sim cintilando, e só o faz por conta das camadas da nossa atmosfera a refratar a luz que vem de lá. E a nossa atmosfera não faz favor a ninguém, de forma que ao olho destreinado, vai parecer que Marte, e seu tom avermelhado, brilha a mesma quantidade que Betelgeuse, essa enorme estrela vermelha que, mesmo na lente do telescópio, não é mais que um pontinho despretensioso.
E aí paramos de falar das estrelas, porque a noite vai avançando, amanhã tenho a vida pela frente, eles a deles, que vão à escola, quem sabe sofrer do bullying dos colegas que insistem que estrelas brilham, planetas não.
quarta-feira, 16 de agosto de 2017
Telescópios, noites e quintais
às 20:16 Marcadores: Cartas aos meus filhos, Memórias

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