quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Planejando sequestros

Os vizinhos adotaram um filhote. É um vira-lata, disso estou certo, mas o bicho tem uma beleza toda sua que só pode ser explicada por uma feliz linhagem de misturas que resultem o pelo cinza, malhado de manchas escuras, e o focinho preto com uma listra de pelos brancos. Ele tem a cara estreita, olhar trigueiro, passa a impressão de esperteza.

Ele é grisalho.

Mas o que mais me encanta nesse cão é a sua tendência de jogar as coisas para o alto, de correr por todos os cantos, de se empolgar com qualquer coisa, de fazer menção de quem vai pular o muro quando me vê, por mais que o muro seja bem alto para o seu tamanho. Quando se dá conta da impossibilidade, ele apenas me encara, é como se dissesse “então venha você!”.


No fundo, acho que nos entendemos bem, mesmo com essa distância que nos afasta. O cachorro me encanta porque é doce, sem maldade, feliz e animado, além de ter esse aspecto tão diferente de pelos de um cinza tão escuro. Minha mãe e eu, ambos aproveitamos os poucos momentos em que fica livre da prisão para brincar com ele à distância.


Nem mesmo sei que nome lhe deram.


E me compadeço da sua sina. Meus vizinhos, veja bem, não são exatamente gentis com o bicho. São, aliás, desse tipo de gente que têm animais, no plural, mas não dedicam grande consideração por nenhum deles, aparentemente. Lembro do filho mais velho do casal, que entre outros predicados, tinha o de bater no cavalo que tinham (sim, no interior, algumas pessoas têm galinhas, gatos, cães, porcos e até cavalos em casa).


À troco de não causar danos, imagino, meu vizinho de quatro patas passa o dia todo trancado dentro de um cubículo de madeira. Mesmo quando o soltam, nunca vi nenhum dos moradores dar atenção, algum tipo de carinho, de brincadeira que ultrapasse servi-lo de ração. É como se o cão fosse um ornamento, e mesmo que ele seja um bem bonito nessa função, acho tão cruel um bichinho de tanta doçura ser alvo de tamanha indiferença. Sinceramente, acho que ele brincou mais comigo, com um muro entre nós, do que com os donos.


É comum ouvi-lo chorando lá de dentro do cubículo. Ao que eu cismo, comigo, como se pudéssemos conversar “eu sei cara, eu sei, é horrível”.


Me parte o coração porque o espaço parece apertado, nenhum pouco limpo e ele fica preso lá o dia todo, muitas vezes por boa parte da noite também.


Com que posso dizer que fui de não gostar de cães, ou ainda, de não saber que deles gostava tanto, a planejador recorrente de sequestros.

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