"Escolha é o ato de hesitação que nós fazemos antes de tomar uma decisão”.
Essa, e outras, frases vem me ocupando a mente nesses últimos tempos de reconstrução, de reavaliação, de mudança. Essa, em específico, faz parte de uma palestra de Alan Watts, um escritor e filósofo que morreu há quarenta anos, mas que sabia uma ou outra coisa sobre a vida, sobre crescer, sobre encarar as durezas de existir. Na palestra em que fala sobre escolhas, e as consequências delas na nossa vida, ele insiste em que nós precisamos ser como nuvens e como ondas, que sempre são perfeitas, e que não se importam com o seu destino: apenas o aceitam.
Isso, veja bem, não significa que devemos escolher de forma temerária. Que podemos viver em total desconsideração com os impactos das nossas escolhas, mas que devemos aceitar os resultados com igual valentia: trata-se de saber que o ônus de uma péssima escolha é tão importante, lá na frente, como o benefício de uma aposta certeira. A única certeza é que você não tem como saber de tudo com antecedência.
E eu concordo com Watts. Porque já discordei dramaticamente.
Passei muitos anos acreditando que nós somos reféns de nossas escolhas e que, caso elas não deem resultados positivos, devemos viver em eterna penitência por esses erros de cálculo, essas más decisões, esses tropeços que nos afastaram dos resultados e sonhos que tínhamos quando as fizemos. Não acho que a minha forma de encarar fosse de todo ruim, afinal viver com consciência de onde você errou é sempre uma lição proveitosa, tanto mais se ajudar a prevenir os mesmos agravos no futuro, mas, sem dúvida, fechar-se ao novo, que sempre vem, aos riscos e deixar esse medo de escolher e pular no abismo das coisas novas que envolvem cada grande decisão das nossas vidas é uma forma muito econômica, mas certeira, de perder tempo com bobagem.
Um exemplo: eu abandonei o curso de engenharia. E, na época, o fiz por uma porção de ótimas razões, que iam da tristeza e falta de preparo por conta da morte de meu pai, às próprias inclinações que sempre tive, o interesse pela palavra escrita e pela literatura, por exemplo. Mas, ao longo dos anos, me assombraram os efeitos dessa escolha porque a vida que não tive, ao ter interrompido aquela história, sempre me parecia que poderia ser melhor do que a que tive.
Mas essa não é a questão. Não pode ser porque eu não sei, não tenho como saber. E, de resto, ainda que tivesse como saber com precisão o que seria de mim tendo continuado com aquele curso, não posso deixar de dizer que, hoje, me parece que naquela estrada eu não leria os mesmos livros que li, não conheceria as mesmas músicas, não iria aos mesmos lugares, não teria os mesmos sorrisos e lágrimas, as lições seriam outras e é possível que eu passasse um bom tempo pensando comigo que o melhor teria sido ter largado engenharia para fazer jornalismo. Talvez tivesse me saído até bem pior, eu não sei! Não conheceria e não teria os mesmos amigos, não amaria as mesmas pessoas, o que em si só já é um custo oneroso demais por pagar por uma hipotética chance de voltar no tempo e mudar o rumo.
No resumo, tanto uma escolha como a outra, não importa, as duas estão certas: dão resultados diferentes, levam a histórias distintas, resultam em outras pessoas e em outras narrativas. Mas não há certo e errado, há apenas vida, consequências e a nossa obrigação com nós mesmos de tirar o melhor proveito de tudo e receber o que a vida dá, de bom e de ruim, com resiliência.
É bom redescobrir, depois da cura, que você pode viver sem medo, que era bom nessa coisa de resiliência e que, se nunca fora um otimista, ao menos tinha o excelente hábito de rir das desgraças. Escolhas não são espadas de damôcles a pairar sobre as nossas cabeças, prontinhas para nos fazer em dois ao menor erro. Escolhas são a forma da vida ir adiante, quer ela vá tranquila, quer ela vá agitada e atribulada: cabe a nós decidir da melhor forma possível, com coragem, mas com a conformidade de saber intimamente que não temos como conhecer todos os ângulos de uma escolha, que decisões não são ruins e boas, apenas são.
sábado, 18 de fevereiro de 2017
Das escolhas
às 20:05 Marcadores: Cartas aos meus filhos, Memórias

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