quarta-feira, 8 de novembro de 2017

1998

Eu nunca tive uma ideia muito clara das dificuldades que afligiram meus pais ao longo da minha criação. E elas existiram, mas nós, ocupados em crescer, não temos a perspectiva do todo, de forma que eu sempre tive uma vaga ideia dos apertos, mas nada muito tangível. Até que hoje eu tive uma ideia da dimensão de alguns sacrifícios a partir de um comentário bobo de minha mãe.

Não recordo sobre o que falávamos, mas ela lembrou que, em 1998, eu tinha enfiado na cabeça que queria o novo livro do Jô Soares. Eu, naquela época (como agora) devorava livros em velocidades assombrosas. E, retrato de um tempo sem internet e de adolescência, tinha em Jô Soares meu parâmetro de escritor. Melhorei.

Em todo caso, o livro custava 49 reais, o que na época era proporcionalmente muito mais dinheiro do que são 49 reais hoje. Insisti, insisti, insisti no livro. Nunca tinha ganho um livro de presente, eu queria um livro de presente de aniversário, não um videogame.

Nesse comentário, minha mãe recordou a história, dizendo que era um sacrifício comprar aquele presente, porque era caro demais, porque naquela época nós tínhamos condições limitadas, porque outras coisas eram prioritárias. Eu só fui entender e dar-me conta anos mais tarde, porque eu não me importava (e não me importo agora), mas eu passei grande parte da vida escolar com apenas um conjunto de uniforme.

Nesse quadro, sair comprando livros recém lançados de famosos não é uma alocação sabia de recursos escassos.

Em todo caso, ganhei o livro.

Recordando essa passagem, minha mãe lembra o quanto eu fiquei contente com o presente. Pensou, inclusive, que estaria livre de precisar gastar tanto com meus caprichos por um tempo. Três dias depois minha voracidade por leitura poria tudo abaixo: eu já tinha lido o livro inteiro. Mas, para nossa sorte, a produtividade de Jô Soares como escritor decaiu vertiginosamente e eu acabei não mais pedindo livros de presente.

Segundo minha mãe, aliás, foi a última coisa que eu pedi: o livro.

O tenho, aliás, até hoje, e sempre que olhava para a sua lombada na estante me recordava da origem: presente, aniversário, 1998. Reli-o algumas vezes, é até engraçado e a história, se levada como entretenimento sem compromisso, não é ruim.

Mas o que fica da anedota toda não é a graça do romance sobre o homem que teria matado Getúlio Vargas. O que fica, de hoje em diante, é essa janela aberta para a gratidão, o entendimento e o valor que damos ao carinho, dedicação, sacrifício e esforço dos nossos pais.

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