quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O livro e a memória

Eu saí para caminhar. Sem rumo, à minha frente e ao alcance das minhas pernas toda a pauliceia. Interminável e caótica, e bastante molhada. Eu prometi a mim mesmo que caminharia por ruas ainda não conhecidas. Desceria do metrô ou do ônibus em busca de rumos nunca dantes caminhados. Por que caminhar é preciso, já que plagiamos aqui o inventor da nossa bela língua.

A ideia era, se possível fosse, caminhar. E só. O mundo é finito, mas a vontade de andar, não. A ideia era chegar o mais longe possível, perdendo não calorias e pingando suor pelas esquinas. Não. A intenção era coletar um pouco de vida, de novidade. E deixar pra trás esse doce fardo da juventude, de tanta coisa maravilhosa que outrora me reluzia e hoje não mais, todo esse relicário de alegrias que hoje rescendem a tristeza, dor, arrependimento e lágrimas.

Passei por um sebo e me censurei intimamente. "Há quanto tempo você não se dedica a ler de verdade, como fazia antes?", disse-me naquele instante. Fosse eu um obcecado, me perturbaria, procuraria motivos. Faria escolhas e, pronto, daria uma resposta. Não sou assim, disse a mim mesmo "ora, se eu jogo um fardo de tempos passados às costas, por que não deveria fazer o mesmo com os hábitos?".

A verdade é que a gente muda. Na verdade, não muda. A gente é sempre o que é. Isso não muda. O que muda com o tempo são hábitos, gostos, interesses. Eu ainda amo leitura, há poucas coisas que eu troco por um bom livro e algumas horas com ele. Mas o fervor de leitor compulsivo diminuiu, eis tudo. "Nunca reparou que seus pais adoravam filmes quando jovens e quando mais velhos deixaram de vê-los amiúde?". Pois é, consciência, é isso que estou te dizendo. Hábitos mudam, pessoas não.

O sebo provavelmente teria, por baixo, na escala Tertuliano de interesse, que oscila de 1 a 17 - a escala é minha e acho sem graça essa dependência de números chave que temos, por isso nem 10, nem 15, menos 20. A escala atinge seus píncaros em 17, está dito - um sensacional 14. Saibam que poucos foram os momentos que o interessômetro, aparelho desenvolvido por mim para, não diga, mensurar interesse na escala Tertuliano, marcou algo acima de 12. Eu não me impressiono fácil.

Mas dizia eu, que sítio interessante era aquele sebo. De tão interessante, estanquei na padoca, como dizem por aqui, que fica diametralmente oposta, no outro lado da rua, para admirar o edíficio e pensar. Depois de um exame mais minucioso na fachada atinei com a verdadeira natureza do emprendimento comercial que ali se desenvolvia. Posso dizer, agora, depois de uma melhor estudada que, mais que um sebo, ali funciona um antiquário.

Dado o caráter, localização, vocação e fama pregressa da vizinhança e bairro que tratamos aqui, é possível afiançar que esse antiquário não seria assim uma das maiores casas do ramo, encontráveis aqui em São Paulo aos montes. Mas não deixa de inspirar algum respeito, posto que a com tal catandura vexaria algumas grandes livrarias que conheci.

O antiquário tinha, é possível que me engane, mas é o que parecia, uma especial conta pelo seu acervo de alfarrábios. Provavelmente estariam por ali algumas raridades editoriais, cotadas a preços não muito módicos, que é do jaez desses ítens. Talvez aquelas versões em três volumes de Vinte Anos Depois que faltam na minha coleção D'Artagnan. Se eu me desse o direito, é quase certo que entraria naquele sebo e encontraria inúmeros volumes que interessam.

Mas eu não sai às compras. Analisei furtivamente aquele sebo. Vi que dentro dele havia um senhor totalmente imerso a uma operação que provavelmente consistia em analisar um volume. Talvez ele estudasse o nível de conservação da obra, para poder orçar uma quantia que honrasse o futuro da casa. Não posso dizer que lia, porque não carregava óculos. E é sabido que desde que nascemos, é tudo, simplesmente tudo, uma grande decadência. Nascemos todos, sem exceção, com o mesmo potencial. Vamos decaindo até a morte. A diferença é que uns decaem menos, outros mais.

Mas é praticamente lei universal, uma decadência que atinge a todos, embora varie em intensidade e tempo, que gente velha não enxergue bem de perto e não possa, assim, ler. O senhor, portanto, fazia qualquer coisa com um volume que tinha nas mãos. E eu sustento que, dado às evoluções que fazia com o livro, só poderia tratar-se ali de um exame.

Exame esse que pode ter sido um pouco negligente. Porque sem óculos podem escapar imperfeições, rasuras, marcas do tempo que por serem minúsculas não se veem tão facilmente. Ao dar-me com essa conclusão, confesso, perdi um pouco do interesse no circunspecto livreiro, afinal, pode se esperar tudo de um homem que analise um livro sem grande cuidado. Como diria um antigo e esquecido poeta alemão, "Onde se queimam livros, ali, eventualmente, se queimarão pessoas". Onde se vendem livros antigos e não se prestam a analisá-los com esmero, se pratica um crime. Livros têm vida. Eles contam histórias e se forem velhos, são história.

Reconsiderei de súbito o julgamento temerário quando percebi que o idoso colocara o livro na mesa. Era o telefone, atendeu uma ligação rápida, se tanto 15 segundos, e tornou a mexer no livro. Nesse instante a noção de negligência já me abandonara de todo. Considerei que aquele senhor só podia, solitário como devia ser, especialmente se observadas aquelas mãos e aquele aspecto sombrio, de quem vive cercado de histórias e velharias, estar mais do que acostumado com o mister que realizava. Está visto que manuseou livros e velharias a vida inteira, deve ser capaz de, ainda que com mãos enrrugadas, reconhecer o papel, o tipo de impressão, se de uma prensa, uma rotativa ou quaisquer maquinismos recentes de imprimir. A ele não devem faltar os recursos e artimanhas da profissão. É verdade, reconheço, julguei mal o livreiro.

O fato é que àquela distância eu já não poderia extrair nada mais. Precisava apropinquar-me mais da cena, sem ser visto, por certo, porque ainda não concluira o que se passava, com efeito. E o livro, que antes me fora tão interessante como o asfalto que se desdobra ali, agora, assim como o homem que o sustinha, me chamava muito a atenção.

Mudei de mesa. Pedi um café para reduzir a suspeita que pudesse aparecer de quem passava e trabalhava na padaria. Mais próximo pude notar que o livro não era qualquer livro. Não faria parte de acervo nenhum. Nem coleção. Dificilmente o senhor se desfaria da obra, porque o examinava com afetação. Havia um carinho intrínseco nas suas mãos ao passá-las pelo volume, ao folhear a esmo as páginas, parando em algumas, sem, contudo, ler nada. O homem acariciava o livro.

É sabido que por visionários que sejam alguns escritores e seus textos, não se conhece ainda obra literária, ou não, encadernada que nos diga somente verdades e nos revele o futuro. Conclui daí que o carinho do homem advinha do passado. O livro, ou qualquer coisa relacionada a ele, lhe dizia uma história, lhe acendia na mente uma lembrança.

Fiquei curioso. Ocorreu-me entrar no sebo e perguntar: "meu senhor, o que há de especial nesse livro que dedilha com tanta atenção há pelo menos uns vinte minutos, conforme pude observar da rua?". Mas que direito tenho eu, que carrego no lombo meus próprios fardos, ir inquirir os outros dos seus?

Ademais, que diria ele? Poderia ficar nervoso, gente velha tem medo. Poderia passar mal. Poderia acontecer uma infelicidade, sabe-se lá que efeitos tinha o livro no seu coração, e a chegada de um estranho perguntando sobre o assunto poderia causar um efeito danoso ao bom regime circulatório e coronariano de nosso livreiro. É claro que não fui ao sebo, decisão tomada com acerto em lapso de segundo bastante inferior ao tempo exigido pela leitura de todo esse digressivo parágrafo.

Pude notar, contudo, a deferência que o homem teve ao colocar o livro sobre a mesa. Como se fosse quebrável, de uma delicadíssima porcelana, ele o repousou suavemente, e o cobriu com um porta-retratos que, para infelicidade da minha curiosidade, estava voltado para si, o que me negou a chance de vislumbrar que face, ou cena, vinha daquela foto.

O homem levantara-se e, pelo gesto, deu a entender que chamava alguém. Apareceu um rapaz com um colete em azul que trazia bordado no peito as insígnias da casa. Ao dar instruções ao funcionário, levantou-se, deu a volta à mesa e saiu para andar.

O andar fraquejante de quem ficara muito sentado, agravado pelas instâncias da idade, se fez notar. Abriu a porta e senti um calafrio. Pensei comigo que ele poderia vir até mim e inquirir com que direito eu o espionava. Nada disso. Sequer me viu, virou para a esquerda e, poderia eu jurar, foi caminhar com o mesmo intuito que eu tive no princípio deste texto.

Assim que ele sumiu numa esquina, arrematei o café que fumegava num copo, desses comuns às padocas. Fixei a vista no livro. Entraria, agora, no sebo/antiquário e veria, ao menos a capa do livro. O título. O autor, autora, enfim, e daí tiraria mais conclusões. Nada me deteria.

Atravessei a rua e caminhei distraído pelas estantes. E, de fato, vi que ali encontraria uma oferta bastante interessante para meu acervo pessoal. Mas meu interesse não estava naquelas estantes, naqueles livros. Meu foco ficava na mesa, que se escondia da minha vista por uma pilha de livros e alguns quadros, mantidos em pé de igualdade, numa disposição elegante por sobre uma mesa que aparentava ser de imbuia, sólida como rocha e, provavelmente, peça a ser também vendida a quem interesse.

Caminhei e coloquei-me entre os livros e a mesa que mantinha o livro misterioso. Ninguém olhava. Deve ser praxe da loja deixar os clientes à vontade, porque nenhum dos vendedores - e lá dentro pude ver que existiam mais, o que agigantou a imagem do lúgubre antiquário em minha mente - vinha me atender. Acredito que isso se deva ao fato de que quem vai a um lugar desses, sabe o que quer. E se sabe, pergunta. Não perguntei nada, e me deixaram em paz.

Lancei os olhos, enfim, ao livro. O porta-retrato continuava de costas, e eu não teria expediente para ir ao outro lado que não me denunciasse aos vendedores. O fato de olhar ostensivamente para a mesa já era um risco presumido, poderiam entender que eu estava lançando olhares para onde se guarda o dinheiro, afinal é a mesa do patrão. O livro, enfim, não aparentava ser muito antigo, mas não se pode dizer que é novo, dados os entalhes na capa e na lombada, acabamento que denuncia um trabalho de editoração que não se vê mais nem em enciclopedias, sobretudo hoje que há uma na internet. A coloração do papel no miolo denunciava um amarelecimento, era fácil ver naquele volume um belo trabalho de editoração. Provavelmente uma edição de luxo. E na capa, havia uma flor.

0 comentários: