quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Sobrevivamos

Um cidadão estatelou-se do 39º andar em Nova Iorque. E sobreviveu. Ainda não se sabe se o sujeito caiu ou deixou-se de lá cair, embora a segunda hipótese demonstre-se bastante mais fiável, tendo-se em vista que o rapaz tomou o cuidado de registrar em seu perfil no Facebook que "minha vida acabou".

Salvo escoriações, colapso pulmonar, calcanhar esmigalhado e outras tristezas de menor monta, o rapaz sobreviveu e, até onde vão os informes, goza de estável condição em algum hospital da cidade da Maçã - apelido que nucna logrei entender de onde veio e que é a alcunha vinculada a Nova Iorque. Enfim.

O rapaz caiu 128 metros e esborrachou-se a não mais poder num Dodge Chaser - automóvel bonito que não teve a mesma sorte do projétil que lhe arrebentou os vidros traseiros e para o qual eu encontro cinismo que chegue para lamentar.

Seguramente o que salvou o rapaz, ou prolongou seu sofrimento na Terra, tudo uma questão de ponto de vista, foi o amortecimento que o veículo proporcionou, dado o ângulo da queda, o rapaz caiu nos vidros e acentos traseiros.

Mas no entender do proprietário do veículo, Guy McCormack, nada disso. A sobrevivência do cidadão é tudo uma conspiração divina, patrocinada pelo rosário que este carregava no automóvel. Um amontoado de contas de plástico dispostas em forma de cordão, pois, salva vidas. Claro que nem todas, só a de iluminados, ou escolhidos por esse deus assaz justo, a quem apraz condenar alguns portadores de rosário à morte, suícidas ou não, e outros portadores do mesmo dispositivo de segurança, não.

Nem passa pela cabeça de McCormack, por exemplo, que não são poucas as crianças que morrem de fome (muitas no mesmo momento do acidente), com ou sem rosário, e que àquelas que se apegaram em um, faltou a onisciência e a boa vontade do deus que investe de poder de vida e morte em pedaços de plástico, que fosse lá, milagrosamente, lhes dar sustância para suportar a vida.

Também escapa à mente que busca padrões em tudo, que busca sentido onde não há, compreender que, no fim, Thomas Magill, o acidentado, sobreviveu sim por milagre. Milagre físico, geométrico. Chances e probabilidades. Golpe de sorte.

1 comentários:

*por p. disse...

é mais fácil acreditar em contas milagrosas...

a física é mera matéria escolar.
:/