sábado, 27 de novembro de 2010

Saudade pesa

Seu Nino. Era um vizinho. Era um amigo. Era ele o Alfredo e eu o Totó desse outro Cinema Paradiso que é a minha vida, em que se pese que o fim, até aqui, de onde dá para se vislumbrar o que pode vir da fita que corre preguiçosa no projetor que esboça trepidantes imagens dos meus dias, não pareça tão alvissareiro quanto o experimentado pelo par no imorredouro filme italiano. E que doravamente me fará chorar copiosamente, porque a analogia com Nino, com meu pai, minha mãe e eu mesmo será infinita e saborosamente entristecedora. Cinema Paradiso é, talvez, a única coisa certa que os italianos fizeram depois da Maseratti - dizem que a massa é criação dos chineses.

Eu devia ter escrito antes sobre Seu Nino. Ou ainda, eu devia ter conservado mais de Seu Nino comigo, mas não pude. Nos primeiros anos da minha vida, o aborrecia. Lembro muito pouco do nosso convívio porque era muito pequeno e a memória não chega para dizer o que comi ontem, que dirá, absurdo, alcançar os primeiros três ou quatro anos de vida. Lembro apenas que nos vinte e tantos anos que sucederam a este tempo não faltaram recordações repetidas sempre pelos meus pais com gentileza, gratidão, saudade, esse timbre de apreço único que vem impresso na voz das boas memórias

Seu Nino era, ou imigrante, ou decendente direto, e pelo que se conta, muito cioso das tradições italianas. Era, acima de tudo, um amigo.

Morava naquele tempo numa casa, que ainda está de pé, grande e antiga, que se debruça sobre a rodovia BR-277, na cidade de Campo Largo. Era uma casa grande que apenas reconheço por fotos e de vagas e turvas lembranças de quando, muitos anos depois, já morando em outra cidade, passávamos em frente pela estrada e meu pai sempre comentava daqueles outros tempos e imaginava como estaria passando o Seu Nino?

Numa dessas vezes paramos e fomos procurar o vizinho querido, a quem meus pais devotavam sincera afeição e devoção. Diziam que era um homem carinhoso, gentil, simples e sempre disposto a ajudar, conversar. E que gostava muito de mim. Que não se furtava em dividir comigo seu tempo, paciência, histórias e atenção.

Dessa visita lembro um pouco. Do Seu Nino em si, da voz e de alguma conversa. Mas é tudo. As memórias deste outro tempo são, de resto, fugidias e me entristece o coração não ser capaz de lembrar mais coisas. Pensando no assunto agora, levando em consideração a importância que este cidadão pode ter tido na minha vida, na minha formação, e sabendo o quanto fora querido, considero quase uma ofensa, um achaque lembrar dele tão pouco a ponto de ser incapaz de bosquejar aqui um retrato mais fiel, digno.

Sinto-me em dívida com esse amigo, o primeiro da minha vida, e que repousa em algum lugar do meu passado, em algum recesso obscurecido pelo tempo do meu coração. É bem possível que ele não more mais lá, muito mais que tenha até morrido, porque na época da segunda visita ele me parecia já bastante velho. E eu tenho pouco a dizer que não seja que sinto saudades, que não me lembro dele e que gostaria que tudo fosse diferente.

Seu Nino, de quem, vejam o tamanho do acinte, não sei o nome verdadeiro, voltou-me à memória hoje. Voltou e trouxe consigo saborosas lembranças de um tempo que não volta mais, de uma vida que não é mais minha e de memórias que se esvanecem, que desbotam em mim. Memórias não de nossa vivência, mas de viagens com meu pai, histórias de minha mãe, fotos que não tenho mais, a casa, a cor roxa das paredes, os detalhes em branco, o campo ao fundo, a rodovia, a neblina, o frio, o bode em quem eu me agarrava para domir, sem medo, sem preocupação, a vida que foi, que era, e que nunca mais será.

O maior crime do tempo não é ser implacável, inexorável. O maior crime do tempo é que ele passa.

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